A Missão de São Francisco Xavier da Ibiapaba


Quando os holandeses finalmente abandonaram seus fortes em 1654, quatro mil nativos das aldeias de Itamaracá, Paraíba e Rio Grande, temendo retaliações, marcharam para o noroeste a fim de se refugiarem no Ceará. Estavam furiosos com o fato de terem sido abandonados pelos holandeses, a quem tinham servido com tanta lealdade por tantos anos. Fortificaram-se entre os tabajaras na serra de Ibiapaba e tentaram criar um enclave independente ao qual deram o nome de Cambressive. Chegaram a enviar à Holanda um cacique educado pelos holandeses a fim de solicitar ajuda militar batava, em recompensa pelos serviços passados e para preservar a religião protestante (Bethell, 1987, p. 170).

Visando reintegrar esse imenso contingente ao império luso e reduzir a tensão com os nativos, em 1655, o Governado do Maranhão, André Vidal Negreiros, por influência de Padre Antônio Vieira, enviou a serra da Ibiapaba o chefe tabajara Francisco Murereíba, com oferta de perdão para os índios que colaboraram com os Holandeses. Após nove meses, finalmente receberam notícias do emissário que informava que os tabajaras se sujeitariam a viver como cristãos, havendo a pacificação dos Tremembés. Isso ensejou nova tentativa de estabelecimento de uma missão na Ibiapaba (Vieira, 2016, p. 11).

A nova expedição partiu do Maranhão a 31 de maio de 1656, liderada pelos padres Antônio Ribeiro e Pedro de Pedroso, acompanhados de oito soltados e 50 indígenas. Após 35 dias de uma difícil jornada por terra, o grupo chegou ao destino, a Serra da Ibiapaba, em 4 de julho de 1656. Lá instalou-se o reduto missionário conforme as orientações do padre Antônio Vieira, com a construção de uma pequena capela e uma choupana simples, adequadas às condições locais e à cultura indígena. 

No seu auge, os missionários chegaram a atrair mais de 2.500 indígenas. Colaborou para a recepção positiva o fato de que, embora quase cinquenta anos os separassem da frustrada missão do padre Francisco Pinto, sua memória permanecia viva entre os nativos, que receberam os novos missionários com entusiasmo, associando-os à figura reverenciada de “Pai-Pina”, o “Senhor das Chuvas” (Aragão, 1990, p. 196).

Paralelamente a missão, o governador André Vidal Negreiros vislumbrou a construção de um novo forte nas praias de Camocim. Essa fortificação visava não somente garantir uma ligação terrestre entre Pernambuco e Maranhão, mas também afugentar os corsários estrangeiros que vinham transacionar com os indígenas e dominar ele mesmo o comércio dessas mercadorias, em particular o âmbar e e pau violeta, extraídos da serra da Ibiapaba. Entretanto, para viabilizá-lo precisaria da colaboração dos índios tremembés, senhores, de fato, daquelas terras, contando para isso com a atuação dos missionários (Oliveira, 1995, p. 126).

Cabe aqui um esclarecimento acerca da organização administrativa colonial. Desde 1621, com a criação do Estado do Grão-Pará e Maranhão, a capitania do Ceará encontrava-se administrativamente subordinada a São Luís. Entretanto, em função da elevada distância entre estas, o Ceará sempre sofreu maior influência dos desígnios pernambucanos, relação que se aprofundou ainda mais após a capitulação holandesa de 1654 (Gaspar, 2022). Portanto, a integração econômica do território cearense ao Maranhão via Camocim pode ser visto como uma tentativa fazer frente a crescente influência de Pernambuco sobre o seu território.

Tensões e Conflitos

Mas Negreiros não viu concretizado, na plenitude, seu plano para a região. A 23 de setembro de 1656, apenas três meses após o estabelecimento da missão da Ibiapaba, ele parte de São Luís para assumir o governo da Capitania de Pernambuco, sendo substituído por Agostinho Correia. A simples partida de Vidal do Maranhão acendeu um alerta entre os indígenas, temendo que ele estivesse, na verdade, preparando uma invasão. Nas palavras do historiador Carlos Studart Filho:

Como se estivesse iminente uma luta de vida e de morte, fortificaram-se da melhor maneira possível, chamando às armas os tapuias seus aliados, que ocorreram prontamente, refluindo das brenhas. Rápido, tudo dispuseram para a reação e para a eventual trucidação dos jesuítas, como único desforço cabal contra os brancos. Inutilmente fizeram tais preparativos, por quanto André Vidal, por inteiro desapercebido dos alarmes que provocara, prosseguiu sem mesmo se deter em Camucim (Studart-Filho, 1945, p. 21). 

Algum tempo depois desses acontecimentos, estoura uma guerra entre os povos Anacés e Jaguaruanas, habitantes dos arredores da Fortaleza de N. S. de Assunção (Fortaleza). Não conseguindo a questão entre estes ser resolvida apenas âmbito militar, Padre Antônio Ribeiro, por iniciativa própria, decide deixar a missão da Ibiapaba para tentar fazer a paz entre esses dois povos, estendendo-se nesse e em outros objetivos por longos meses. Essa atitude individual feria frontalmente a hierarquia da ordem Jesuíta, que vedava incursões individuais a seus membros, o que motivou, em 1658, a proposta de extinção da Missão da Ibiapaba.

Ademais, os superiores da ordem consideravam que o isolamento impedia as visitas regulares, deixando os sacerdotes sem a devida supervisão. Mas Antônio Vieira reagiu, enviando carta ao Rei, datada de 10 de junho de 1658, na qual defende a continuidade da missão com base nos resultados obtidos, na necessidade de proteção dos indígenas e na importância estratégica da região, reforçando também que com a construção do forte em Camocim,  a ser iniciada no ano seguinte, cessaria o seu isolamento. Fortalecido pelo apoio do governador D. Pedro de Melo, Vieira foi nomeado Visitador Superior das Missões, garantindo a permanência da missão (Aragão, 1990, p. 199).

Satisfeitos com esse desfecho, os líderes da Ibiapaba enviaram uma comitiva de cerca de 50 indígenas ao Maranhão para agradecer ao governador D. Pedro de Melo e apoiar o padre Vieira, entre eles Jorge Ticuna, que também pretendia seguir a Portugal para agradecer ao rei. Entretanto, a demora no retorno da delegação gerou apreensão e foi explorada por Simão Taguaibuna, opositor dos missionários, que espalhou boatos de prisão, morte de Ticuna e de uma suposta expedição militar destinada a escravizar os indígenas. A propagação dos boatos teve efeito rápido e alarmante, gerando pânico e agressividade entre os indígenas. Sem espaço para ponderação, a situação tornou-se crítica, criando um clima de violência que, mais uma vez, colocou em sério risco a vida dos missionários.

Dominados pelo ódio e pelo desejo de vingança, os líderes indígenas prepararam-se para a guerra. Os padres Antônio Ribeiro e Pedro de Pedroso tentaram apaziguar a situação, mas foram ameaçados e feitos reféns, sob a condição de que, se até o primeiro dia após a Páscoa de 1660 não chegassem notícias tranquilizadoras, ambos seriam sacrificados. Mas Jorge Ticuna havia retornado de Portugal em novembro de 1659, honrado pela Corte com o título de Dom, e sua demora no Maranhão deveu-se à espera do deslocamento do próprio padre Antônio Vieira, que já planejava seguir para a Ibiapaba.

A Vinda de Padre Antônio Vieira a Ibiapaba

Cerca de dois anos após o envio da comitiva indígena ao Maranhão, padre Antônio Vieira atendeu ao convite dos nativos da Ibiapaba, partindo do Maranhão em 3 de março de 1660 com o padre Gonçalo de Veras, o fidalgo Jorge Correia da Silva e serviçais. A viagem de barco até Camocim ocorreu sem maiores dificuldades, e o trecho final até a Ibiapaba contou com recursos auxiliares de transporte, culminando na chegada de Vieira em 24 de março de 1660, 21 dias após a partida.

Pe. Antônio Vieira pregando aos índios (1841).

A recepção indígena foi exuberante, com festas, danças e alimentos tradicionais, prolongando-se por 12 dias, e motivou Vieira a elogiar a terra como um paraíso terrestre, comparando-a a uma esmeralda incrustada em prata (Aragão, 1990, p. 202). Durante sua estada, que se prolongou até o início de junho, consolidou a missão sob a invocação de São Francisco Xavier. Exaltando o seu sucesso, Vieira escreve uma carta ao Rei:

"O caminho do Maranhão ao Ceará e a Pernambuco que estava totalmente fechado pelas hostilidades desta gente, ficou franco e seguro; as praias e navegação de toda a costa se tornaram livres e melhoradas com o seu comércio. Ficaram reduzidos à obediência e vassalagem de sua Majestade os tabajaras e isto sem armas nem despesas e inimigos jurados dos holandeses em cuja confederação estava a serra da Ibiapaba, o maior padrasto que tinha sobre si o estado do Maranhão e que só temeram os soldados velhos e experimentados desta conquista. Ficaram também domados no vício da fereza e da desumanidade, não fazendo jamais cativeiros injustos, nem matando mais, nem comendo carne humana é guardando as pazes às nações vizinhas por benefício da assistência dos Padres" (Studart-Filho, 1945, p. 41)

Embora seu legado religioso tenha sido significativo, o período favorável foi curto, e poucos anos depois conflitos internos e disputas religiosas comprometeram a continuidade da obra missionária na região.

O Encerramento da Missão

A extinção da Missão São Francisco Xavier, criada por Antônio Vieira, não resultou de desprestígio pessoal ou da vontade dos indígenas, mas foi consequência de conflitos no Maranhão contra a Companhia de Jesus, que culminaram na expulsão dos jesuítas em 1661. Isso ocorreu pois colonos e autoridades portuguesas viam na atuação missionária apenas um obstáculo ao acesso à mão de obra indígena. Esses acontecimentos repercutiram no Ceará, com a intervenção hostil do novo governante e a ocupação de tropas destinadas a eliminar a missão da Ibiapaba.

Nos primeiros meses do governo de Rui Vaz de Siqueira no Maranhão, iniciado em 26 de março de 1662, uma expedição de cerca de quarenta homens, chefiada por Manuel Carvalho Fialho e enviada pelo próprio governador, envolveu-se em um grave conflito com os indígenas da Ibiapaba. O episódio culminou na expulsão da tropa e dos jesuítas, marcando o fim da Missão de São Francisco Xavier. 

Segundo a versão jesuítica divulgada pelo padre Bettendorf, Fialho teria seguido para a Ibiapaba acompanhado de soldados e indígenas sob o pretexto de visitar os missionários e negociar âmbar, mas, na realidade, atuava em defesa de interesses próprios. Os abusos cometidos pela tropa teriam provocado a revolta indígena que, liderada por D. Simão Taguaibuna e com o apoio de tapuias aliados, atacou o povoado e expulsou os índios e soldados vindos de São Luís, por ocasião da Páscoa de 1662 (Studart-Filho, 1945, p. 44).

Em sentido diverso, Rui Vaz de Siqueira, em carta ao rei datada de 20 de abril de 1663, sustenta que enviara a expedição apenas para cumprimentar os nativos e agradecer a tranquilidade então existente, atribuindo a rebelião aos desmandos do padre Pedroso, que teriam motivado a expulsão dos jesuítas e dos homens de armas da serra. Diante disso, padre Pedro de Pedroso, acompanhado de padre Gonçalo de Veras, abandonou a Ibiapaba, levando consigo 400 famílias tabajaras. Com esse episódio, encerrou-se a catequese cearense na Ibiapaba até o final do século XVII, quando o processo missionário seria retomado.

Diego Carneiro

07 de fevereiro de 2026

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. A Missão de São Francisco Xavier da Ibiapaba. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 07 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/02/a-missao-de-sao-francisco-xavier-da.html

Referências

ARAGÃO, R. Batista. História do Ceará - Vol. 1 (1500 a 1800). 3 ed. 1990.

BETHELL, Leslie (Ed.). Colonial Brazil. Cambridge University Press, 1987.

GASPAR, J. B. Análise histórica das divisas cearenses: caso do litígio de terras entre o Ceará e o Piauí. Edições INESP, ALECE, 2023.

OLIVEIRA, André Frota. A fortificação holandesa do Camocim. Expressão Gráfica e Editora, 1995.

STUDART FILHO, Carlos. Missão Jesuítica da IbiapabaRevista do Instituto do Ceará, Fortaleza, 1945.

VIEIRA, Pe. Antônio. Relação da Missão da Serra da Ibiapaba. Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2016.

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