A revolta liderada por D. Simão Taguaibuna levou o governador geral do Estado do Brasil, D. Francisco Barreto, por intermédio do capitão-mor do Ceará, a mandar o Alferes Felipe Coelho de Moraes para combater os índios tabajaras sublevados (De Sousa, 2015, p. 39). Apesar da repressão ter sido bem sucedida em um primeiro momento, o próprio Alferes, após aprisionar o líder revoltoso, decide por soltá-lo. Isso consta em uma carta enviada a 18 de março de 1663, por Francisco Barreto ao próprio alferes Felipe:
"[...] o Ps. Pº. de Pedrosa, missionário da guerra do Camocim, me avisa do zelo e honrado procedimento com que o Alferes deu execução a ordem que mandei-lhe para ser preso o Principal D. Simão e os mais que hoje se acham neste forte do Siará [...]. E pelo que imprudentemente mandou o dito soltar a D. Simão de cuja ação se seguirão os danos que experimentamos e encomendou muito ao alferes: faça todo o possível para aquietar aquele gentio para que tornem a aceitar os religiosos e vivão debaixo dessa obediência, que por este meio conseguem o bem das almas. Enquanto faltem a esta sua obrigação trabalhe o possível por prender ou matar o tal D. Simão, que inquieta as paz, e quietação dos mais que tinham admitido a doutrina cristã" (Studart, 2001, p. 76).
Não está claro o contexto no qual D. Simão foi solto, mas pode-se inferir que isso tenha relação com a pressão exercida pelos nativos. A essa época a rebelião já havia se expandido por toda a costa nordestina, contando inclusive com a adesão de grupos indígenas tupis de Camocim e das aldeias próximas à fortaleza de Nossa Senhora da Assunção (Studart-Filho, 1945, p. 46). Diante do fracasso das medidas repressivas, o vice-rei D. Vasco de Mascarenhas optou por apaziguar o conflito, concedendo ampla anistia aos insurgentes, inclusive a D. Simão.
Em carta datada de 18 de fevereiro de 1664, determinou a libertação dos chefes tabajaras presos e seu retorno à serra da Ibiapaba, decisão influenciada tanto pelo desejo de pacificação quanto pela intervenção do padre José da Costa, provincial dos jesuítas no Brasil. Segundo o padre, D. Simão afirmava estar arrependido e disposto a aceitar novamente os missionários, desde que lhe fossem devolvidos dois prisioneiros:
[...] a notícia que o Pe. Provincial tem dos missionários da serra, o persuadem a crer que o castigo, que até agora tiveram, e o favor que agora se lhes faz, é a mais bem encaminhada disposição para se restituírem os religiosos a aquela aldeia. Por esta causa perdoo ao principal Dom Simão o delito de que se mostra arrependido; e Vossa Mercê mande logo soltar os dois índios, e os entregue aos padres para os levarem à serra (Documentos Históricos. Vol. IX, Rio, 1929, pág. 140).
Entretanto, mesmo com a anistia, a presença de missionários na serra demoraria quase uma década para voltar a acontecer.
O Caminho para o Maranhão
Um dos grandes inconvenientes da relação pouco amistosa entre portugueses e nativos do litoral oeste e Ibiapaba, em meados do século XVII, era a interrupção do fluxo de pessoas e informações que circulava entre as capitanias de Pernambuco e do Maranhão. Em correspondência datada de 8 de dezembro de 1666, o Capitão-mor João de Melo Gusmão informa que "no decurso deste caminho uluem os goanacezes [guanacés] nação da muita gente, inimigos declarados nossos que prometem não deixarem passar Brancos sem que os matem, ou que roubem, como a pouco fizeram a um que vinha do Maranhão" (RIC IV, 1890, p. 133). A pacificação desse povo só seria alcançada cinco anos depois, em função da atuação do ajudante Francisco Martins Barrada (Brigido, 1919, p. 396).
Ainda em 1666, o tabajara André Coravaty, que havia acompanhado os missionários Antônio Ribeiro e Pedro Pedroso em seu regresso ao Maranhão, decidiu retornar a região, visando fundar novas aldeias em Jericoacoara. Entretanto, ao descerem a serra da Ibiapaba, foram atacados pelos Aconguaçus (Acahamaçus), que mataram o dito principal e muitos dos seus, ficando os demais desarmados. Enviam então um pedido de socorro ao Capitão-mor João de Melo de Gusmão, que envia uma expedição com quinze soldados e cinquenta índios, comandados por Felipe Coelho de Morais, para socorrer os tabajaras. O objetivo da expedição era combater os Aconguaçus, e levar os índios residentes em Jericoacoara para próximo à fortaleza do Ceará (De Sousa, 2015, p. 40).
A relação com os nativos da região teve novo momento de baixa em 1671, quando os tremembés, em vista do mal tratamento recebido, retiram-se de Fortaleza, declarando não querer mais a amizade dos brancos, alertando-os de que não fossem mais as suas terras. Em resposta a isso, a 9 de setembro desse ano, o governador do Ceará, Jorge Correia da Silva envia a Jericoacoara Francisco Martins, cabo de infantaria, para pacificá-los [1].
Nas instruções dadas a ele consta que caso se verificasse que os tremembés houvessem matado algum índio ou soldado que o governador havia mandado ao Maranhão, que pedisse socorros de mantimentos e munições, para que os destruísse ou capturasse (Brigido, 1900, p. 22-23). Não deve ter havido grande desdobramento dessa contenda, visto que já no mês seguinte Francisco Martins fora enviado, juntamente com Felipe Coelho de Morais, para guerrear com os Paiacús, na região dos Jaguaribe.
É importante esclarecer que essas missões de "pacificação" eram muitas vezes marcas por excesso de violência e arbitrariedades. Sobre isso, em uma carta dos padres Antônio de Sousa Leal e João Guedes, remetida ao Conselho Ultramarino em 1720, os sacerdotes se queixam dos desmandos cometidos no passado pelo já mencionado soldado Felipe Coelho de Moraes. Segundo eles:
"[...] depois que os padres largaram as aldeias do Ceará, se fez administrador delas e amancebando-se com as índias que tinha em serralho, procriou-se grande número de filhos que todos seguem maus exemplos e tiranizam, não só os índios, mas também os brancos, não havendo quem ouse queixar-se das violências e roubos que lhe fazem" (De Sousa, 2015, p. 97).
Segundo o vigário, os capitães-mores e os cabos de guerra promoveram guerras contra os nativos com objetivo de apresá-los para si e vendê-los, como ocorreu em diversas entradas ao sertão.
O Retorno dos Missionários
Mas o retorno das atividades missionárias deu-se pouco depois, formalizado por um regimento datado de 25 de novembro de 1673, que ordenava o envio do tenente Manuel Pereira da Silva à Serra Grande e registrava a insistência dos missionários do Ceará na necessidade de restabelecer as missões na Ibiapaba, uma vez que os tabajaras se encontravam há anos privados dos sacramentos. Coube ao tenente garantir a proteção de frei Francisco de Sá, que seguiu para a região acompanhado de 30 soldados e 150 indígenas aliados. A ação conjunta resultou na pacificação de diferentes grupos, na celebração de alianças e no batismo de cerca de trezentos indígenas, contribuindo decisivamente para a retomada da presença missionária cristã na área.
Para além disso, são escassas as informações sobre a missão conduzida pelo Frei Francisco Sá e seus desdobramentos imediatos. Mas sabe-se que no ano seguinte a essa empreitada, em 1674, houveram conflitos com os Reriús (Arariús), uma das tribos que vivia entre serra da Ibiapaba e o Rio Acaraú. Essa campanha foi justificada pelas agressões que estes praticavam contra indígenas aldeados, possivelmente guanacés ou tabajaras. Embora tenham sofrido pesadas perdas, com mortos e cativos, os Reriús continuaram numerosos e organizados em vários bandos, tornando-se uma ameaça persistente e dificultando as comunicações terrestres entre o Ceará e o Maranhão (Nobre, 1980, p. 140).
Essa situação de conflito constante com os nativos certamente colaborou para postergar a ocupação do território cearense por colonos portugueses, em particular da Ribeira do Acaraú. Sobre isso, é bastante sugestivo o requerimento de sesmaria concedida, a 14 de novembro de 1678, ao capitão Antônio Barbosa da Silva e seus companheiros, no qual consta que "na capitania do Ceará Grande por costa do mar há terras devolutas, despovoadas por causa do demasiado gentio bárbaro que pelas ditas paragens assiste, mais principalmente do que em outras partes da América”.
A intensificação do processo de colonização por meio da concessão de cartas de sesmarias na região, o que se deu a partir de 1682, certamente agravou os conflitos, acuando ainda mais os antigos donos da terra. No fim do século XVII, intensificaram-se as explorações pelos grandes rios do Ceará, enquanto a população crescia rapidamente, atraída pela prosperidade da criação de gado nos sertões. Contudo, o principal estímulo era a permissão, mantida apesar das ordens da Coroa, de prender e escravizar indígenas. Autoridades locais, interessadas nos lucros, toleravam ou incentivavam o abuso, e bandeiras organizadas por capitães-mores ou particulares percorriam o interior em busca de ouro e de índios para cativar, aproveitando-se da distância do poder central (Théberge, 1869, p. 101).
Nesse contexto deflagrado, a única alternativa de convivência "pacífica" imaginável entre colonos e indígenas foi imposição aos primeiros da vassalagem ao rei e sua submissão aos ditames da igreja. Para tanto, fazia-se necessário reestabelecer os meios evangélicos de integração dos nativos ao projeto colonial.
A Nova Junta das Missões e volta de Pe. Pedroso
Até cerca de 1680, as Missões do Brasil estavam diretamente subordinadas à Portugal, mas a distância e as dificuldades de comunicação levaram à criação de Juntas independentes nas Capitanias Gerais; em 7 de março de 1681 foi instituída a Junta das Missões de Pernambuco, à qual ficaram subordinadas as Missões do Ceará, com jurisdição civil, eclesiástica e criminal. Diante da resistência indígena à colonização e às missões, esta declarou escravos os índios presos no Rio Grande e no Ceará, determinando seu batismo e venda, prática que perdurou por anos e incentivou a captura e escravização em massa, contrariando leis anteriores (Théberge, 1869, p. 98).
Mas informado dos abusos na escravização indígena, D. Pedro II determinou por Carta Régia de 20 de janeiro de 1691 que os índios só poderiam ser considerados prisioneiros em caso de "guerra justa", jamais como cativos, devendo ser libertados após o batismo e ressarcidos os compradores. Embora a medida demonstrasse a intenção de pôr fim à escravidão indígena, ela não foi plenamente cumprida, havendo registros de índios ainda escravizados mesmo depois de cristianizados e aldeados.
No contexto dessa mudança, padre Pedro Pedroso, por volta de 1689, retoma as missões na Ibiapaba. Sua ação levou os indígenas, assim como seu principal, a irem ao Recife prestar vassalagem ao rei de Portugal, onde foram batizados e juraram obediência, conforme registrado por Antônio Gonçalves da Câmara Coutinho em 1690 (Studart-Filho, 1945, p. 48). Segundo João Brígido, aparentemente, o sacerdote, buscou, na medida do possível, preservar os laços com seus ex-pastoreados, tendo em 1675 empreendido uma navegação em canoa pela costa do Maranhão ao Ceará (Brigido, 1900).
Em 1692, o padre Manuel Pedroso Júnior, sobrinho de Pedro Pedroso, missionou os tabajaras, promovendo a pacificação e a cristianização de numerosas tribos e conduzindo mais de 600 indígenas para reforçar a defesa da ribeira do Açu. Por ordem superior, porém, eles foram fixados ao norte da fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, onde fundaram um povoado assistido pelos padres Ascenso Gago, enviado ao Ceará no início da década de 1690 para substituir o padre Pedro Pedroso. Poucos anos depois, esses dois padres se mudariam para a Ibiapaba, reeditando sua missão jesuítica.
Diego Carneiro
20 de fevereiro de 2026
Referências
BRÍGIDO, João. Ephemerides do Ceará–1ª Epocha. Revista do Instituto Histórico, 1900.
BRIGIDO, João; Ceará, Homens e Fatos. Rio de Janeiro. Tip. Ber-nard Frère, 1919.
DE SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues de. “Minha Riqueza é Fruto do meu Trabalho”: negros de cabedais no Sertão do Acaraú (1709-1822). 2015. 223 f. (Tese Doutorado).
STUDART, Barão de. Datas e fatos para a História do Ceará [1896]. Fortaleza: FWA, v. 2, 2001.
STUDART FILHO, Carlos. Missão Jesuítica da Ibiapaba. Revista do Instituto do Ceará, Fortaleza, 1945.
THÉBERGE, Pedro F. Esboço histórico sobre a província do Ceará. Fundação Waldemar Alcântara, 1869.
[1] Treslado de um Regimento que o ajudante Francisco Martins cabo de infantaria desta praça leva para Jacoacara em 9 de setembro de 671 a. MALHEIROS, Perdigão de Oliveira. Um capítulo de história do Ceará. Ligeiras rectificações. In: Revista do Instituto do Ceará, Fortaleza, t. IV, 1890, p. 138
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