Após o retumbante fracasso das expedições de Pero Coelho de Sousa, entre 1603 e 1606, e diante da persistência, por parte da Coroa, do projeto de ligar Pernambuco ao Maranhão estratégia destinada a conter o assédio francês ao litoral do Nordeste brasileiro, formou-se um consórcio de interesses entre o governo provincial e a Companhia de Jesus. Decidiu-se, então, pelo envio de uma missão à serra da Ibiapaba e ao Maranhão, com o objetivo de ali estabelecer um aldeamento indígena. Para além da evangelização, pretendia-se conquistar a simpatia e a colaboração dos nativos no enfrentamento aos corsários estrangeiros. Para essa tarefa, foram designados os padres Francisco Pinto e seu auxiliar, Luís Filgueiras.
Partiram de Pernambuco a 20 de janeiro de 1607, em um pequeno barco, que devia voltar carregado de sal. Levavam consigo sessenta indígenas, alguns dos quais, ex-cativos de Pero Coelho, comandados por Belquior da Rosa, Capitão dos índios de Pernambuco. Diferente das missões anteriores, optaram por não levar outros portugueses, assim como armas ou qualquer coisa que despertasse o receito dos nativos. Ressalta-se que as supracitadas expedições anteriores foram traumáticas para locais, marcadas por traições, perseguições e violência. Portanto, caberia aos sacerdotes reconquistar a confiança quebrada e trazer os povos nativos para o lado do reino.
Após doze dias de navegação, a expedição chegou em 1.º de fevereiro à barra do rio Jaguaribe, desembarcando nas proximidades do atual porto do Fortim, e seguiu por terra ao longo da costa até a enseada do Pará (Paracuru). Retomando a marcha em 7 de março, atravessou o rio Curu e avançou em direção à serra dos Corvos (Uruburetama), afastando-se do litoral e penetrando em floresta densa. A travessia da serra, extremamente penosa e acidentada, ocorreu pela sua porção nordeste, por vales ligados às cabeceiras do rio Mundaú e seus afluentes, prolongando-se depois pela planície sertaneja, com sucessivas travessias de rios, até cruzar o rio Aracatiaçu em balsa, em grande cheia, no sábado da Paixão, provavelmente em 23 de março, nas proximidades do atual município de Amontada.
Desse trecho em diante, adentram os missionários, pela primeira vez, nos sertões da Ribeira do Acaraú. No relato de Pe. Filgueiras, trazido na sua Relação do Maranhão, escrito em 1608, nos conta as lamurias da travessia das terras pantanosas nas cheias do Acaraú:
Depois de deixarmos de todo esta Serra dos Corvos, caminhando pelos campos, eram tantas as lamas que não havia dar passo sem atolar; pelo que nos foi necessário descalçarmo-nos. Porém, daí a poucos dias, das ervas, moscas e mosquitos que nos picavam, se nos fizeram os pés leprosos; e a mim, em especial, me incharam, criando matéria em várias partes, pelo que a necessidade nos constrangeu a tornarmos a calçar, por onde nem descalços podíamos ir com lamas (Pompeu-Sobrinho, 1967, p. 82).
Para o historiador Thomaz Pompeu Sobrinho, a expedição teria passado pelos atuais municípios de Morrinhos e Santana do Acaraú.
Ascenção e Morte
Após uma travessia quase impossível, o itinerário desviou-se para oeste e, poucos dias depois, a expedição alcançou a serra da Ibiapaba. A ascensão revelou-se extremamente penosa, realizada por trilhas indígenas precárias, em zigue-zague, que exigiam o uso de cordas improvisadas para vencer os trechos mais íngremes. Para Batista Aragão, a rota se desdobrou em busca da testada leste, da Grande-Serra ou o local onde posteriormente se conheceria pelo nome de Arapajá (Arapá), já nas imediações da futura cidade de Tianguá, atravessando o Boqueirão da Quatiguaba, já na divisa com Viçosa do Ceará (Aragão, 1990, p. 63).
No topo da serra, os missionários foram recebidos por indígenas de aldeias próximas, que os conduziram até a taba de Mel Redondo (atual Viçosa do Ceará), situada a menos de cinco léguas, ainda que por caminhos irregulares e extenuantes. Exaustos, os religiosos foram transportados em redes pelos próprios nativos. A chegada revestiu-se de caráter solene e festivo, com caminhos cobertos de ramos e flores e grande entusiasmo da comunidade, a ponto de os indígenas disputarem as redes dos missionários como relíquias.
A missão jesuítica estabeleceu-se na Ibiapaba em 2 de abril de 1607, onde permaneceu até outubro daquele ano. O período foi considerado exitoso, marcado pela construção de uma pequena igreja, a primeira do Ceará, de uma cruz e de edificações simples que estruturaram o aldeamento. Uma vez consolidado o reduto, o padre Francisco Pinto decidiu dar prosseguimento ao projeto missionário, direcionando-o à catequese do Maranhão. Essa decisão contrariou parte dos indígenas, que desejavam a fixação definitiva dos dois religiosos na região; ainda assim, os missionários optaram pela partida, iniciando uma jornada estimada em cerca de cem léguas.
Como apresenta o historiador Geraldo Nobre:
Certamente, previam novas e maiores dificuldades até mesmo porque, em fins de setembro, aparecera um cometa ao oeste, com uma comprida cauda para o leste, a pressagiar a morte de Reis e outras pessoas notáveis, conforme se acreditava na época, e o próprio padre Luís Figueira admitia, ou fingiu admitir, como artifício para tentar conseguir a conversão de Jurupariaçu [Diabo Grande], escrevendo, aliás, que muitas vezes imaginara com pena e aflição se aquele fato significaria algum trabalho à sua frente, como ao crédulo deve ter parecido prenúncio comprovado no desfecho fatal daquela viagem (Nobre, 1980, p. 68).
A nova etapa teve início em 17 de outubro de 1607, com o acompanhamento temporário de indígenas da aldeia do chefe Jurupariaçu. A cerca de doze léguas da aldeia do Diabo Grande (Ibiapina), a expedição interrompeu a marcha para atender ao pedido dos índios de Mandiaré, que desejavam descansar e desfazer uma roça de milho. Poucas léguas adiante encontravam-se os Tocarijus, índios de má reputação, aos quais já haviam sido enviados recados e presentes sem sucesso. Uma terceira tentativa de conciliação foi feita, mas os Tocarijus aceitaram os presentes, assassinaram cruelmente os emissários, queimando-os vivos, e pouparam apenas um rapaz, destinado a servir-lhes de guia até as pousadas dos padres. A demora dos mensageiros logo se converteu em certeza trágica, quando um escravo fugitivo revelou que diversas tabas tapuias conspiravam para atacar os cristãos.
Diante da ameaça iminente, abandonou-se a ideia de seguir para o Maranhão, optando-se por alcançar a costa para evitar maior morticínio, decisão comunicada ao Provincial e ao Governador. Contudo, já era tarde: na manhã de 11 de janeiro de 1608, os indígenas irromperam de todos os lados. O padre Francisco Pinto saiu ao encontro dos atacantes na tentativa de apaziguá-los, enquanto índios cristãos imploravam por sua vida. Nada conteve a violência: sob uma chuva de flechas, caíram dois de seus defensores e, em seguida, o próprio padre foi morto com extrema brutalidade, tendo o crânio esmagado a golpes repetidos, sendo depois despido e saqueado pelos agressores.
O padre Figueira escapou com vida por estar momentaneamente afastado do local do ataque e graças ao aviso de um menino da comitiva, que lhe gritou para fugir, o que ele fez prontamente. Após saciarem a violência, os Tocarijus retiraram-se entre gritos e alaridos, saqueando todos os objetos que encontraram, trastes, altar portátil, ornamentos, ferramentas e demais pertences, e levando consigo dois meninos e duas moças. Alguns desses objetos, como a rede, a casula, a estola, o frontal e os breviários, foram abandonados pelo caminho, temerosos os agressores das palavras proferidas por uma das cativas. Sepultou-se então as vítimas, assinalando o local com cruzes de pedra que permaneceram como testemunho do martírio e da dedicação missionário.
O Retorno para Casa
Após sepultar os três mortos, o padre Luís Figueira permaneceu ainda alguns dias no local. Nesse período, recebeu a visita de Diabo Grande e de parte de sua aldeia, que lamentaram o ocorrido e se desculparam pelo abandono anterior, sem, contudo, buscar vingança contra os agressores. Diante do fracasso da expedição e da impossibilidade de prosseguir a jornada, Figueira deu por encerrada a missão e iniciou o retorno por um itinerário distinto, possivelmente o mesmo anteriormente seguido por Pero Coelho, dirigindo-se em direção ao rio Punaré.
As razões dessa mudança de rota, bem como a composição de seus acompanhantes, permanecem pouco esclarecidas pelas fontes. Segundo o padre Sadoc, na viagem de retorno o rio Acaraú foi novamente atravessado, aproximadamente nas proximidades da atual cidade de Bela Cruz. A alteração do percurso teria como objetivo evitar a travessia da Serra da Uruburetama, onde a caravana sofrera duras provações durante a viagem de ida (Araújo, 2005, p. 28).
Foi nesse trajeto que Figueira encontrou o chefe tapuia Cobra Azul, episódio que se revelou particularmente perigoso. Descrito como autoritário e violento, Cobra Azul manteve o missionário sob constante vigilância, submetendo-o a ameaças e ao isolamento, justamente quando este se encontrava fisicamente debilitado. Temendo por sua vida, Figueira agiu com extrema cautela até reunir forças suficientes para tentar partir, o que lhe foi inicialmente negado. Com o auxílio do filho de Cobra Azul, favorável à missão, conseguiu finalmente fugir e escapar ileso, apesar de ser perseguido por vários dias. Ao final de 1608, alcançou o rio Ceará e, após breve permanência, seguiu para a Bahia.
A Ossada de Pe. Francisco Pinto
Após o assassinato de Pe. Francisco Pinto, Luís Filgueira transportou o corpo do infortunado companheiro de jornada evangélica até o pé da serra, onde o sepultou “em hum lugar que particularmente se chama Abayara, ao longo de hum rio, dentro de hum mato”. A cova, assinalada por um tosco monumento de pedras soltas e por uma cruz à cabeceira, ficou situada entre as dos dois índios que tombaram em defesa do sacerdote. O sepultamento deu-se em algum ponto da vertente nordeste da Ibiapaba, talvez um pouco mais ao norte, junto a uma das veredas abertas pelos indígenas em suas comunicações entre a serra e o litoral, mais precisamente, em direção a Camocim (Braga, 1964, p. 16).
Em 1611, guiados pelo roteiro deixado pelo padre Luís Filgueira, os índios do Jaguaribe trasladaram os ossos do padre Pinto para sua aldeia, situada nas proximidades do fortim português do Rio Ceará. A reverência dedicada a esse precioso depósito era tamanha que nem o padre Figueira conseguiu levá-lo para Pernambuco, tampouco o chefe Camarão para suas terras no Rio Grande. Também em 1614 o padre Manoel Gomes tentou obtê-lo, igualmente sem sucesso; e, quando suspeitaram que o vigário Baltazar Corrêa pretendia conduzi-lo consigo para Pernambuco, os índios chegaram a persegui-lo, permitindo-lhe seguir viagem apenas após rigorosa verificação de que nada levava do que pertencera a Amanaiara (Studart, 2010, p. 26).
Essa persistente recusa em entregar as relíquias revela o profundo valor simbólico que lhes era atribuído. Conservadas por longo tempo e tidas na mais alta estima, elas eram levadas em procissão pelas veredas sempre que surgia a ameaça de seca. O padre Pinto, ainda em vida, já era visto pelos índios como propiciador das chuvas, o que explica o apelido de Amanaiara, o senhor das nuvens ou da chuva.
Diego Carneiro
04 de fevereiro de 2026
Referências
ARAGÃO, R. Batista. História do Ceará - Vol. 1 (1500 a 1800). 3 ed. 1990.
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.
BRAGA, Renato. Dicionário geográfico e histórico do Ceará. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1964.
NOBRE, Geraldo Silva. História eclesiástica do Ceará. Secretaria de Cultura e Desporto, 1980.
POMPEU-SOBRINHO. Três Documentos do Ceará Colonial. Fortaleza: Departamento de Imprensa Oficial, 1967.
STUDART, Barão de. Geographia do Ceará. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2010.

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