A Expedição de Pero Coelho de Sousa na Ibiapaba


Em junho de 1603, Pero Coelho de Sousa, então residente na Paraíba e portador da patente de capitão-mor, partiu por terra para a conquista do Ceará, acompanhado por uma bandeira de cerca de 65 soldados, todos gente do sertão, mamelucos, tangos maus e homiziados, e mais de 200 indígenas, enquanto os mantimentos seguiram pelo mar em três embarcações. Entre eles estavam Manoel de Miranda, Martim Soares Moreno, Simão Nunes, João Cida, João Vaz Tataperica, Pedro Cangatan e Tuimmirim (francês), bem como os principais Mandiopuba, Batatam, Caragatini, tabajaras e Garaguinguira, potiguar. Trazia, entre outras, as seguintes determinações do governador de Pernambuco, Diogo Botelho:

[...] por meios lícitos, dilatar-se-á nossa santa fé católica e impedir-se o comercio de estrangeiros, que contra pazes capituladas e fora de obediência de seu rei, vem a portos deste estado [...]

-fará povoação e fortes nos lugares ou portos que melhores lhe parecerem, procurando a amizade dos índios, oferecendo-lhes paz e a lei evangélica, sem os induzir nem prometer coisa que se não lhes cumpra;

-achando alguns índios que tenham cativos contrários a uns que costumam matar em terreiro e comer, pelas guerras que com outros incitem, os poderá mandar resgatar e assim poderá fazer nas mais ocasiões, não se lhes fazendo força nem violências;

-procurará que em cada aldeia que receber a paz, se levante uma cruz com muito acatamento e veneração, declarando-se o mistério dela (Studart-Filho, 1936, p. 16).

Ressalta-se que, apesar das disposições taxativas dessas instruções escritas, a empresa tinha fins mais mercantis que civilizadores.

Após seis meses de caminhada, perfazendo mais de 600 km ao longo da costa, com paradas no Jaguaribe e no rio Ceará, chegam, em 18 de janeiro de 1604, à foz do rio Camocim (Brígido, 1900, p. 5). Ressalta-se que, pouco antes disso, por volta do dia 11, registram passagem pelo lugar “mata dos paus de cores”, identificado como sendo Jericoacoara (Girão, 1984, p. 36). Segundo Antônio Bezerra, esse antigo topônimo fazia referência à abundância de pau-brasil ou pau-violeta, como às vezes era referido, o que atraía frequentes visitas dos carregadores estrangeiros (Bezerra, 1903, p. 20). Para o Padre Vicente Martins, teriam feito trajeto pela costa até o atual distrito de Parazinho, a partir de onde adentraram os sertões (Martins, 1928, p. 144). Essa teria sido a primeira expedição portuguesa a pisar nas praias do Acaraú.

O Caminho a Ibiapaba

No dia seguinte, antes do nascer do sol, partiu Coelho com sua comitiva em direção à Ibiapaba. O grupo foi organizado em dois esquadrões, com a bagagem no meio, um deles contando com dezesseis homens na retaguarda e nove na vanguarda, tendo o capitão à frente, e o outro com vinte homens sob o comando de Manoel Miranda, como tropas de apoio. Chegando à distância de meia légua (3 km) do pé da serra, com o dia já claro, foram recebidos com flechadas e tiros de mosquete disparados por sete corsários franceses. Após uma batalha intensa, os portugueses conseguiram repelir o ataque, deixando alguns mortos e feridos.

A rota utilizada pela expedição muito provavelmente foi o trajeto da antiga estrada Camocim–Ibiapaba, uma trilha que ligava a serra ao litoral. Segundo o historiador Carlos Studart Filho, brancos e índios dela se serviram para encaminhar ao embarcadouro da barra do rio da Cruz (Camocim) as madeiras e algodões de que se abasteciam os barcos piratas estrangeiros ali fundeados (Studart Filho, 1937, p. 27). Essa rota passava pelo vale do Lambedouro, subindo a ladeira do Itagurussu, uma franja da Serra da Ibiapaba com aproximadamente 3 km de comprimento, pertencente ao município de Viçosa do Ceará. Do alto da serra, tem-se uma visão privilegiada de todo o trajeto, possibilitando a preparação da emboscada.

Vista panorâmica do Vale do Lambedouro e da Ladeira do Itagurussu.

Entretanto, cabe apontar aqui algumas inconsistências nesse relato. O trecho sugere que esse percurso, de quase 90 km, teria sido realizado durante a madrugada, o que, nas estradas atuais, levaria cerca de 20 horas de caminhada. Mesmo considerando a hipótese de que tivessem partido 20 km adiante da atual cidade de Granja, a qual foi primitivamente referida como Camocim (Oliveira, 1995, p. 57), o trajeto ainda levaria 16 horas. Portanto, eles certamente demoraram mais de um dia nessa jornada. O relato mais confiável dessa trajetória é dado pelo cronista contemporâneo Frei Vicente do Salvador, que diz que chegaram ao "Camocy, que é a barra da Serra da Boapabba [Ibiapaba], para a qual marcharam no dia seguinte, véspera de São Sebastião, 19 de janeiro de 1604, antemanhã. E, clareando o dia, foram logo vistos pelos inimigos [...]" (Salvador, 1982, p. 292).

Ou seja, para ir ao local onde se desenrolaram esses acontecimentos, saíram ainda no escuro, chegando ao amanhecer. Com essas informações, é possível determinar aproximadamente o ponto de onde saíram. Este provavelmente situava-se a duas ou três horas de caminhada do local do encontro. Uma vez que se tratava de uma caravana grande, levando bagagens, além de mulheres e crianças, a velocidade média plausível de marcha seria de 4 a 6 km/h, colocando o raio do acampamento entre 8 e 18 km do pé da serra.

Essa opinião é corroborada por Batista Aragão, que situa o acampamento a 10 km de Viçosa. Para ele, o caminho mais natural a ser percorrido seria margear o rio Coreaú até o ponto em que este se encontra com o Itacolomy e, “desse ponto, a varar o Boqueirão do Manhoso, é que se teria atingido os contrafortes da Grande Serra, no local onde posteriormente seria conhecido por Oiticica” (Aragão, 1990, p. 39). Ainda na opinião do autor, essa jornada teria demorado cerca de cinco dias para ser concluída, tendo o embate ocorrido por volta do dia 24 de janeiro.

No relato de Pe. Claudio D'Abbeville, publicado em 1614, colhido junto aos nativos da Ibiapaba, são apresentados fatos que teriam antecedido a chegada de Pero Coelho:

Ao chegar esse personagem [Pero Coelho], com toda a sua comitiva, ao país dos canibais, acamparam todos na montanha chamada Cotiba, onde havia sete a oito aldeias de índios que, cientes da chegada dessa gente, tudo tinham abandonado refugiando-se na grande montanha de Ibiapaba, a cerca de uma légua de Cotiba [...]

Ao chegarem a essa montanha, narraram os habitantes de Cotiba a causa de sua fuga diante do bando que ameaçava sua aldeia. Imediatamente puseram-se em campo alguns dos moradores da montanha, juntamente com os franceses aí residentes, dirigindo-se para Cotiba que acabava de ser invadida pelos portugueses e índios de Pernambuco (D'Abbeville, 1874, p. 66-67).

Existem quatro formações rochosas que estariam nessa rota e/ou dentro de um raio plausível para um acampamento: Serra de D. Simão, Serra São Joaquim, Serrote Tamboril e Serra do Gado Brabo. Entre estes, a Serra de D. Simão e Serra do Gado Brabo apresentam sítios arqueológicos já estudados, Pedra dos Pilões e Santa Bárbara, respectivamente. Triangulando todas essas informações, estou inclinado a creditar que "Cotiba" se refira a Serra do Gado Brabo, entretanto, estudos em loco têm que ser feitos para se chegar a uma conclusão mais acurada. Só acrescento que uma nota de Rodolfo Garcia ao livro de D'Abbeville, esclarece que esse topônimo significaria algo como "lugar de roça", o que pode ajudar pesquisadores futuros na identificação desse local.

A Subida da Serra

De volta à narrativa, após recepção pouco amistosa, a tropa então armou acampamento improvisado ao pé da serra, defendido por um muro tosco de pedras soltas, do qual não poderiam se afastar. O calor intenso, aliado à escassez de madeira e água, acabou por vitimar algumas crianças, filhas dos indígenas que acompanhavam a expedição. Ao cair da noite, são novamente atacados com flechas e pedras, ao som de gritos e ameaças. Entretanto, a ocorrência de uma chuva intensa fez cessar o ataque, ao mesmo tempo em que saciou a sede do grupo. Nas palavras de Frei Vicente do Salvador:

Mas quis Nosso Senhor que às três horas da noite veio um grande chuveiro de água, com que cessou o das frechas dos inimigos, e os nossos aplacaram a sede e, para ser a mercê maior, viram em amanhecendo uma gruta donde procedia um ribeiro de água, que os nossos índios cristãos tiveram por milagre, e se puseram todos de joelhos a dar graças a Deus [grifo nosso] (Salvador, 1982, p. 387-388).

Aqui surge uma nova oportunidade de situar no espaço os acontecimentos. Primeiro, o local onde estavam era seco e sem árvores, o que é compatível com o sopé da Ibiapaba em momentos de estiagem. Alguns autores locais atribuem essa gruta à Pedra do Itagurussu, localizada à encosta leste da serra, próxima a Viçosa do Ceará, da qual brota uma pequena lâmina d’água (Assis, 1935, p. 168; Aragão, 1990, p. 40)*. Nesse local, Pero Coelho manda, então, sacrificar o último cavalo de que dispunham para amenizar a fome da tropa (Studart Filho, 1936, p. 24).

Pedra do Itagurussú, Viçosa do Ceará.

Não obstante as opiniões contrárias, não estou totalmente convencido que Itagurussu tenha sido o real local do embate, pois no tempo narrativo, esse episódio teria acontecido antes da subida da serra, ao passo que a referida pedra já encontra-se a meio caminho entre o sopé e o topo. Ademais, as distâncias não batem. Mais adiante, no relato de Frei Vicente Salvador: "pela manhã mandou o capitão marchar o exército pela serra acima, indo ele por uma parte com mais gente, e Manoel Miranda por outra com vinte e cinco homens, quando chegaram à cerca seria meio dia". Sendo muito conservador, considerando três horas de marcha a 1 km/h (subida em mata fechada), o local da primeira barreira deveria ficar a, no mínimo, 3 km de distância da Pedra do Itagurussu, portanto fora do atual núcleo urbano de Viçosa do Ceará. Os eventos poderiam inclusive ter se passado ainda em "Cotiba", a outra montanha mencionada por Pe. Claude, em alguma das diversas cachoeiras temporárias existente nas serras secas da região.

A Tentativa de Trégua

Por volta das dez da manhã, ouvem o toque de uma trombeta, o que indicava que os inimigos queriam negociar. Respondido o sinal, o intérprete do grupo, Tuimirim, foi ao encontro dos franceses, seus conterrâneos, e dos indígenas. Cabe esclarecer que, desde a década de 1590, os franceses mantinham relações comerciais com os índios da costa cearense, tendo estabelecido uma feitoria na Serra da Ibiapaba, comandada por Adolf Montbille (Mombille ou Bombille para os portugueses). Alguns autores sugerem que Montbille e seus compatriotas seriam náufragos remanescentes da expedição frustrada de Jacques Rifault, que, em 1594, tentara estabelecer uma colônia no Maranhão (Varnhagen, 1906, p. 807; Fleiuss, 1922, p. 782; Holanda, 1964, p. 222).

Geraldo Nobre vai além, sugerindo que o intérprete do grupo, Tuimirim, também teria sido um dos tripulantes de Rifault, presos no Rio Grande do Norte em 1597 por Feliciano Coelho de Carvalho. Darmingas (D’Armengaud?), seu verdadeiro nome, declarou ser descobridor de uma abundante mina de prata e que, por isso, interessaria aos portugueses os seus serviços, sendo recrutado para a expedição de Pero Coelho seis anos depois (Nobre, 1980, p. 49). Vicente Miranda situa esse achado na antiga mina de cobre da Pedra Verde, hoje abandonada (Miranda, 2001, p. 36). A ocorrência residual de prata nesse local foi atestada em estudo mineralógico conduzido pelo geólogo José Henrique de Matos (Matos, 2012).

A tratativa de paz mostrou-se infrutífera, pois a comitiva, sob ordens do principal Jurupariaçú (Diabo Grande), exigiu, para dar passagem à tropa, que fossem entregues dois companheiros como reféns, Manuel de Miranda e Pedro Cangatan, o que foi prontamente recusado. À tarde, descem os índios da serra para atacar o acampamento português. Apesar da extrema violência do ataque, a ofensiva não logrou êxito em expulsá-los, estendendo-se a batalha até a noite, com perdas significativas para ambos os lados. O capitão compreendeu então que a única forma de vencer seria abandonar o acampamento e levar a batalha à região mais alta da Ibiapaba, o que fizeram já no dia seguinte.

A Invasão da Ibiapaba

Desde o momento em que perceberam a presença dos portugueses, os índios haviam trabalhado dia e noite na derrubada de árvores para a construção de cercas e fortificações ao longo da montanha (D'Abbeville, 1874, p. 67)Os dois grupos, comandados por Pero Coelho e Manoel Miranda, subiram por caminhos diferentes, visando dispersar a resistência inimiga. Chegando a paliçada, próxima a atual cidade de Viçosa do Ceará, reinicia-se a batalha, que mesmo com o apoio dos mosquetes franceses, em número de dezesseis, é tomada ao custo do sacrifício de apenas dois soldados. Após conquistar o reduto inimigo, Pero Coelho permaneceu cerca de vinte dias no local para reabastecer a tropa e recuperar-se da fome e do desgaste, enquanto os chefes indígenas reorganizavam suas forças e reforçavam suas defesas.

Os indígenas derrotados bateram em retirada e refugiaram-se em outra paliçada, situada a cerca de um quarto de légua (~1,5 km) da anterior, construída sob a liderança de Jurupariaçú, com o apoio do principal Irapuã (Mel Redondo). Apesar da forte resistência oferecida nesse novo confronto, a posição acabou sendo tomada, forçando o inimigo a recuar novamente para a paliçada principal de Mel Redondo, considerada extremamente fortificada, com dupla fileira de estacas de madeira grossa, uma interna e outra externa, e três guaritas, de onde atiravam os franceses.

Pero Coelho, ao perceber a força da fortificação inimiga, mandou construir grandes escudos de madeira, tão pesados que exigiam vinte homens para carregá-los. Protegida por esses anteparos, a tropa avançou lentamente até a paliçada e combateu por dois dias. Apesar das perdas, três mortos e quatorze feridos, a posição foi finalmente tomada, com grande número de indígenas mortos e a captura de dez franceses que se encontravam no interior da fortificação, sendo que os demais conseguiram escapar. Entre esses franceses provavelmente estava Charles des Vaux, que posteriormente remetido a Europa, voltou à França, influindo na tentativa da fundação da colônia francesa do Maranhão, em 1612 (Nobre, 1980, p. 40).

Na versão de Pe. Claude, lê-se:

Vendo-se os restantes, juntamente com o dito personagem [Pero Coelho], reduzidos à fome, sem farinha nem coisa alguma para comer, e nem mesmo a esperança de obter quaisquer alimentos, a menos que chegassem à Montanha Grande de Ibiapaba, o que não era possível por causa das trincheiras e fortes dispersos pelo caminho, quase desesperados resolveram num domingo à tarde atacar a primeira fortaleza, a mais próxima, com arcos e flechas, arcabuzes e mosquetões. E assim fizeram: com tal valentia que não só forçaram esse primeiro forte, mas, também, o segundo e o terceiro. Nessa luta foram feridos muitos franceses, o que a todos atemorizou; vendo tomadas suas três praças e convencidos de que não poderiam resistir a tão grande exército senão com sacrifício de suas vidas, retiraram-se os defensores para a grande montanha de Ibiapaba, onde, ao chegarem, botaram imediatamente fogo em muitas aldeias ao sopé da montanha a fim de que os portugueses não encontrassem nenhum abrigo (D'Abbeville, 1874, p. 67).

O Acordo de "Paz"

Os fugitivos foram então perseguidos por quatro dias até um rio chamado Arabê, onde os portugueses montaram novo arraial. A partir dali, Pero Coelho ordenou ataques sucessivos, capturando muitos indígenas, entre eles o principal Ubaúna (Canoa Preta), figura altamente estimada na região. Sua prisão levou outros grupos a buscar a paz, impondo como condição sua libertação. Aceito o acordo, o capitão entregou foices e machados aos emissários indígenas como sinal de compromisso, e no dia seguinte diversos chefes compareceram para selar a paz e levar de volta Ubaúna.

Três dias depois, Mel Redondo e Diabo Grande apresentaram-se no arraial com seus grupos, depuseram as armas como sinal de paz e foram recebidos por Pero Coelho, que mandou lavrar, por intermédio de um escrivão, um ato formal registrando o compromisso mútuo de manutenção da paz no futuro.

Ressalta-se aqui mais uma pequena inconsistência na narrativa. As aldeias de Diabo Grande, Mel Redondo e Canoa Preta correspondem aos territórios dos atuais municípios de Ibiapina, Viçosa do Ceará e Ubajara, respectivamente, e o rio Arabê localiza-se em São Benedito. Dessa forma, considerando a geografia do lugar, o caminho lógico seria primeiro ter combatido Irapuã, depois Ubaúna e por fim Jurupariaçú. Isso é corroborado por Pedro Ferreira de Assis, em seu Diccionario Historico e Geographico da Ibiapaba:

É mister aqui acentuar que estou em completo desacordo com os insignes conhecedores do velho Ceará, que são acordes em afirmar que o capitão-mor Pero Coelho atacou, em primeiro lugar, a aldeia do Diabo Grande, onde se acha, de presente, a vila de Ibiapina, quando essa só podia ter sido atacada após a rendição da taba de Mel Redondo (hoje Viçosa), por ser, de facto, a mais próxima de Camocim. (Assis, 1935, p. 166-168).

Outra possibilidade, bem plausível, é de que as barreiras não tivessem relação com as aldeias dos principais, o que estaria de acordo com a descrição das distâncias e com os relatos de Pe. Claude, segundo o qual foram construídas seis barreiras, com distâncias variando de meia a uma légua.

Trajeto aproximado da Expedição de Pero Coelho de Sousa na Ibiapaba, 1604.

O Retorno para Casa

Após a pacificação da planície, os bandeirantes nada encontraram que compensasse os sofrimentos da expedição, pois os indígenas locais viviam de subsistência simples e não havia sinais de ouro ou riquezas. Frustrados os sonhos de riqueza, Pero Coelho decidiu partir e passou a planejar a expulsão dos franceses do Maranhão, visto como terra promissora. Alguns indígenas da serra juntaram-se à expedição, mas, ao chegarem ao rio Punaré (atual Parnaíba), a tropa exausta se amotinou, perdeu a confiança no chefe e recusou-se a avançar para terras desconhecidas, chegando a cogitar eliminá-lo. Sem apoio, Pero Coelho foi obrigado a abandonar o plano e ordenar a retirada. Então decide retornar a foz do rio Ceará, local que chamou Nova Lisboa, onde deixou Simão Nunes, com 45 soldados, e parte para Parahyba a busca de recursos (Studart, 1896, p. 5).

Local onde Pero Coelho teria edificado o Forte São Tiago, foz do Rio Ceará.

Ao retornar, Pero Coelho relatou ao governador Diogo Botelho os resultados da expedição, solicitou auxílio para prosseguir na conquista e enviou indígenas e franceses prisioneiros, recebendo a promessa de socorro que jamais se concretizou. Ademais, uma Carta Régia datada de 22 de setembro de 1605, endereçada ao governador, repreende Coelho pelos maus tratos aos indígenas e manda libertar os aprisionados:

Ora, mandando eu ver os autos que se fizeram sobre o dito cativeiro e outras informações que tive da mesma matéria e razões mui urgentes do serviço de Deos e meu, se achou que o dito cativeiro não era legitimo nem conforme as leis que sobre isso são passadas, nem era conveniente para o bom prosseguimento daquela conquista escandalizar os índios dessas partes com cativeiros, que eles tanto temem e aborrecem… e houve por bem de os haver a todos por livres e mandar que sejam tornados a suas terras… (Studart, 1921, p. 7).

De volta ao Ceará com a família, já no começo do ano de 1606, encontrou o capitão Simão Nunes e os soldados abandonados por mais de um ano, o que levou à retirada para o Jaguaribe e, depois, à deserção de Simão Nunes para o Rio Grande. Isolado, Pero Coelho tentou regressar com poucos homens e sua família, enfrentando uma travessia marcada por fome, sede e mortes, inclusive a de um filho, até alcançar o Rio Grande. Após ser acolhido, seguiu para a Paraíba e, posteriormente, para a Espanha, onde morreu após anos de pedidos infrutíferos por recompensa por seus serviços.

As notícias trazidas pela malfadada expedição de Pero Coelho de Sousa, resultou, ainda em 1605, em uma determinação régia para que fossem catequizados os índios do Ceará (Brígido, 1900, p. 5). Isso motivou uma nova expedição, no ano de 1607, dirigida pelos padres jesuítas Francisco Pinto e Luís Filgueiras, que intentaram, sem sucesso, aldear os índios da Ibiapaba. Padre Filgueiras, em sua Relação do Maranhão, deixou uma descrição do estado em que ficou a Ibiapaba depois da campanha de Pero Coelho de Sousa: 

"Nesta grande serra havia há dois ou três anos mais de setenta aldeias de gentio que nos contaram por seus nomes, e depois de os brancos lá irem e os receberam no principio com guerra se foram todos para o maranhão, com medo dizendo que se os brancos tinham destruído todos os moradores do Jaguaribe sendo recebidos deles com paz muito melhor as destruíram a eles”. 

Diego Carneiro

14 de fevereiro de 2026

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. A Expedição de Pero Coelho de Sousa na Ibiapaba. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 14 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/01/a-expedicao-de-pero-coelho-de-sousa.html

Referências

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*Agradecimentos ao historiador João Bosco Gaspar, pelas informações.

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