No último quarto do século XVII, intensificou-se o processo de expansão da região do Forte em direção ao litoral oeste do atual estado do Ceará, tendo como marcos de preferência as fozes dos principais rios existentes. Essa empreitada foi estimulada pelas autoridades coloniais em nome da coroa portuguesa e realizada inicialmente pelos próprios soldados do Forte de N. S. da Assunção, em Fortaleza.
Em 1681, o capitão-mor Fernão Carrilho escreveu ao Rei de Portugal um memorial no qual destacou as supostas riquezas e potencialidades econômicas da Capitania do Ceará, terras férteis, rios abundantes, madeira, criação de gado e a possível existência de metais e pedras preciosas, argumentando a viabilidade de seu povoamento. O relato contribuiu para sua nomeação como capitão-mor e incentivou a migração de outros interessados, atraídos pela promessa de riquezas ou, alternativamente, pela instalação de currais e pela submissão dos povos indígenas (Soares e Ferrão, 2013, p. 221).
Foi na esteira desse processo que se realizou o primeiro pedido de sesmarias do Acaraú. Essa doação de terras, feita pelo Capitão-mor Bento de Macedo de Farias, datada de 08 de novembro de 1682, foi realizada a um grupo de 26 pessoas, moradores das capitanias de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba (De Souza, 2015, p. 54). Muitos eram militares e seus aparentados, foram eles:
Domingos Ferreira Pessoa (Almoxarife do Forte); Capitão Francisco Gomes; Domingos de Mendonça [da Câmara] (Soldado do Forte); Sargento-mor Manoel Dias de Carvalho (sesmeiro em Coreaú); Maria Joana de Lemos; Capitão Manoel Barreto da Silva; Capitão Francisco Martins Barrada; Capitão João de Nobalhas Correia; Padre Estevão Velho Cabral [de Melo]; Maria Rodrigues da Costa; Joana Barreto; André Fernandes; Francisco da Silva; Luzia Barreto; Antônio da Costa; Francisco Soares; Jorge Coelho de Sousa; Gonçalo Coelho de Sousa; D. Sebastiana da Fonseca; D. Violante da Fonseca; Gracia Barreto; Maria Vicente Solentino Marinho Falcão; Antônia Tavares de Melo; Paulo Coelho de Sousa; Capitão Bartolomeu Nabo Correia; Baltazar Rodrigues da Costa.
Segundo Aragão (1990), essa foi a maior concessão já feita a colonos de uma única vez no Ceará, cabendo a cada um, conforme a descrição, três léguas em quadra (392 km2), totalizando 78 léguas (30.580 km2), entre os rios Paracurú e Acaraú (Sesmarias, Vol. 1, nº 29, p. 68). Na petição, os sesmeiros informam que:
...eles suplicantes têm descoberto na Capitania do Ceará uma sorte de terras situada no Rio a que chamam os índios vulgarmente o gentio para confrontando do tal rio pela parte do sudeste pela costa abaixo com o Rio Curú e o Rio Mundaú e o Rio Aracatiaçu e o Rio Aracati-mirim e o Rio Acaraú, distante pela costa abaixo cinquenta léguas pouco mais ou menos, confrontando pelo sertão com a serra de Goapaba, Cahioqua e Eurubutama (Uruburetama), com todos os Rios e Lagoas que desaguarem nestes rios as quais terras querem eles suplicantes povoar e Cultivar com seus Gados Vacuns e bestas Cavalares no que fazem eles suplicantes grande serviço à Deus e a Sua Alteza que Deus Guarde em aumento desta Capitania (Sesmarias Cearenses Vol. 1, nº 29, p. 68, adaptado).
Ressalta-se desse trecho a imprecisão dos métodos de medição da época. No contexto colonial, oficialmente, uma légua de sesmaria equivalia a 3.000 braças de 2,2 metros, ou 6,6 quilômetros (Carvalho, 2023). Entretanto, a distância entre Fortaleza e a foz do rio Acaraú, pelo litoral, é de cerca de 210 km, pouco menos de 32 léguas, muito inferior às 50 estimadas pelos sesmeiros.
Pompeu-Sobrinho (1979), na sua obra Sesmarias Cearenses (1680-1822), considera as sesmarias individuais concedidas nesta carta como sendo de 3x1 léguas (130,7 km2) ao longo da costa. Por essa medida, se os 26 lotes seguissem a linha do litoral, com as testadas (lado mais estreito) voltadas para o oceano, totalizariam 171 km, medida relativamente próxima da distância entre os rios Paracurú e Acaraú, de 145 km. Essa concessão provavelmente delimitava o território conhecido e controlado, a época, pelas autoridades coloniais, tendo em seu extremo oeste as áreas deflagradas pelos conflitos com as populações nativas.
O fato é que a ocupação desse extenso território parece ter sido tão errática quanto sua delimitação, o que se verifica pelo fato de muitos desses lotes terem sido novamente concedidos, posteriormente, a outros sesmeiros, por estarem desaproveitados. Possivelmente, grande parte dessas terras foi desapropriada no tombamento, realizado em 1708, pelo Des. Cristóvão Soares Reimão (Dias, 2011).
Ademais, não foi possível identificar ao certo a quais dos sesmeiros coube a porção correspondente a região do Baixo Acaraú, objeto de nosso estudo, nem se estes chegaram de fato a tomar posse. Sobre isso, alguns dos sobrenomes listados no pedido de terras são sugestivos, como Correia, o mesmo de Antônio Correia Peixoto, sesmeiro da foz do rio Acaraú. Chama atenção também o sobrenome Falcão, topônimo de um riacho que corre paralelo ao Rio Acaraú. Mas apenas com mais estudos, poder-se-á tentar lançar luz sobre esse distante momento da história.
Diego Carneiro
16 de fevereiro de 2026
Referências
ARAGÃO, R. Batista. História do Ceará - Vol. 1 (1500 a 1800). 3 ed. 1990.
CARVALHO, Isabelle Mendonça de. Fazendas nos sertões do Acaraú, Coreaú e Serra da Ibiapaba (CE). 2023.
DE SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues. “Minha Riqueza é Fruto do meu Trabalho”: negros de cabedais no Sertão do Acaraú (1709-1822). 2015. 223 f. (Tese Doutorado).
DIAS, Patrícia de Oliveira. As tentativas de construção da ordem em um espaço colonial em formação: o caso de Cristóvão Soares Reimão. 2011. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em História) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2011.
SOARES, José Paulo Monteiro e FERRÃO, Cristina. Memória colonial do Ceará (1618-1698). Tomo I (16181698), Vol. I (1618-1720). Rio de Janeiro: Kappa editorial, 2013.
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