Os antecedentes da nova missão jesuítica da Ibiapaba remetem a recomendação feita pelo padre Roque Monteiro Pain e apoiada pelo governador-geral de Pernambuco, a qual foi apreciada e aprovada pelo Conselho Ultramarino em 8 de janeiro de 1691. Como resposta, a 23 de março do mesmo ano, o governador-geral de Pernambuco determinou que fossem entregues ao padre Manuel Pedroso Júnior os recursos necessários para a execução de seu projeto missionário, incluindo meia arroba de pólvora, uma arroba de chumbo, além da quantia de seis mil réis, valor suficiente para custear as despesas de deslocamento da missão entre Fortaleza e a serra da Ibiapaba (Aragão, 1990, p. 216-217).
Assim, é provável que ainda em 1691 o padre Manuel Pedroso Júnior tenha se deslocado para a serra da Ibiapaba, iniciando, ainda que de forma provisória, os trabalhos missionários. Seu futuro companheiro, o padre Ascenço Gago, permaneceu por mais alguns anos à frente dos aldeamentos situados no entorno do Forte de Nossa Senhora da Assunção, em Fortaleza. Essa configuração, contudo, seria alterada pela Carta Régia de 29 de novembro de 1694, que determinou a prestação contínua de assistência espiritual aos gentios da Ibiapaba por religiosos residentes no Ceará. Em cumprimento a essa ordem, no início de 1695, ambos os jesuítas retomaram, entre os indígenas da serra, o processo de catequese iniciado cerca de quatro décadas antes pelo padre Antônio Vieira.
Ressalta-se que a nova missão da Ibiapaba desenvolveu-se em um ambiente marcado pela violência. Ao seu redor, atuavam intensamente caçadores de indígenas, que espalhavam terror pelas regiões circunvizinhas. Rica em populações nativas, a serra era então vista como um verdadeiro “El Dorado” pelos bandeirantes que partiam de São Luís em busca de cativos. Embora cobiçassem as reduções jesuíticas, onde se concentravam indígenas já aldeados, esses grupos evitavam atacá-las diretamente, temendo a ação da justiça régia. Em geral, limitavam-se a intimidações, sendo os abusos mais graves relativamente raros.
Ainda assim, episódios de violência não deixaram de ocorrer. Por volta de 1692, paulistas tentaram escravizar indígenas da serra da Ibiapaba, mas foram impedidos pela intervenção do governador do Maranhão. Situação semelhante envolveu o sertanista João Velho do Vale, que capturou indígenas e os conduziu a São Luís, sendo posteriormente obrigado a devolvê-los por força de ordem régia de 1697. Apesar dessas ameaças, do êxodo de parte da população indígena e das instabilidades regionais, a missão serrana continuou a avançar, sustentada pela persistência dos jesuítas.
Nesse mesmo ano foi organizada a expedição ao sertão do Acaraú, chefiada pelo Coronel Leonardo de Sá, Capitão Félix da Cunha Linhares, Antônio Marques Leitão e o Ajudante Bento Coelho de Morais. Essa empreitada, abordada de forma mais detalhada em outra postagem, resultou no aldeamento de vários indígenas, possivelmente capturados pelos militares ou coagidos por medo da prisão.
As Novas Missões
Nessa nova tentativa, ambos empenharam-se na incorporação de grupos tapuias à Igreja e na formação de novos aldeamentos de tabajaras. Visando ampliar e consolidar esse trabalho, Ascenço Gago apresentou ao rei D. Pedro II um projeto mais ambicioso, que previa a fundação de um hospício jesuítico na Ibiapaba, o aldeamento de indígenas do sertão e a concessão de recursos materiais e terras para a sustentação da missão. Nas palavras de Carlos Studart-Filho:
Para a manutenção dos nativos, requeria o padre lhe fossem dadas, por sesmaria, todas as terras situadas entre à Barra do Aracati-mirim e a barra do Timonha, correndo, das citadas barras, o rumo direito à Ibiapaba. Entraria na sesmaria tudo que os rumos apanhassem da serra até entestar com os campos gerais que lhe ficam do lado oposto (Studart-Filho, 1945, p. 51).
Para Batista Aragão, colaborou para esse projeto de expansão catequética para as terras baixas do vale do Coreaú, o fato de que, nessa época, as áreas mais propícias a criação de gado no planalto da Ibiapaba já haviam sido concedidas em sesmarias pelo governo do Maranhão (Aragão, 1990, p. 220). Isso é explicado em petição de sesmaria, datada de 3 de setembro de 1706, em que o sacerdote explica:
(...) para sua sustentação e de seu companheiro, e dos mais missionários que ao diante lhe sucederem na dita missão, como para o ornato daquela igreja, lhe é necessário criar gados vacuns e cavalares, sem as quais cousas não se pode viver naquela serra, distante do mar e sem rio algum vizinho de cuja piscaria se alimentar; que, porquanto na serra que Sua Majestade (que Deus guarde) foi servido mandar demarcar para os índios, não se acham pastos capazes de criar (Sesmarias Vol. 3, nº 147, p. 32).
A proposta foi acolhida por meio de cartas régias de 1697, que autorizaram a criação da casa de residência, a doação de sesmarias e a instalação de currais de gado, além de preverem apoio financeiro inicial da Coroa. Essas mesmas ordens determinavam ainda a proteção das terras indígenas contra abusos de colonos, como forma de garantir a subsistência dos nativos e estimular sua adesão ao projeto missionário. Apesar desse respaldo régio, a fundação do hospício não se concretizou. O principal obstáculo foi a oposição do padre Francisco de Matos, provincial da Companhia de Jesus no Brasil, que se recusou a autorizar o envio de religiosos para iniciar a obra (Studart-Filho, 1945, p. 51).
Quanto as terras solicitadas, em resposta a essa determinação régia, foi expedido alvará em forma de lei a 23 de novembro de 1700, concedendo a cada Missão uma légua (6,6 km) de terra em quadro para sustentação dos índios e respectivo missionário, com a declaração que cada aldeia deveria ser composta de ao menos de cem casais (Studart, 2001, p. 126).
A Missão da Bracutiara
Os religiosos instalaram-se inicialmente às margens de um curso d’água, junto ao poço de Igapara (atual Iapara) na margem esquerda do Rio Coreaú, onde fundaram uma fazenda de criação que mais tarde ficou conhecida como Curralinho. Ali permaneceram por cerca de um ano e meio, dedicando-se à criação de gado e à catequese dos indígenas da região. Contudo, diante das limitações do local para o desenvolvimento da pecuária, transferiram o rebanho para as proximidades do poço de Bracutiara (também Guiraquatiara ou Guiracutiara), também nas margens do Rio Coreaú. Nesse novo espaço, ergueram casas, currais, cercas e um nicho de oração, ampliando simultaneamente a produção econômica e a ação missionária.
Essa fazenda funcionou como missão por dois anos, tendo ali sido aldeados os chefes tabajaras D. Jacob de Souza e D. Salvador Saraiva. Durante esse período realizaram várias e arriscadas incursões aos territórios dos povos da região (Aconguaçus, Reriús e Anacés), que viviam em guerra entre si e contra os tabajaras, conseguindo, a duras penas, sua pacificação. Por volta de 1697, não obstante o sucesso econômico e evangélico alcançado na Bracutiara, os jesuítas decidiram encerrar o aldeamento, deixando porém aquela fazenda instalada às margens do rio Coreaú, entregue primeiramente a um vaqueiro de nome João dos Reis (Ximenes, 1996, p. 24).
Buscando assegurar juridicamente a posse da terra e proteger os nativos da cobiça dos colonos, os jesuítas solicitaram e obtiveram, em 1706, uma sesmaria concedida pelo capitão-mor do Ceará, Gabriel da Silva Lago, garantindo duas léguas de terras em torno do poço de Bracutiara. Na petição, Pe. Gago informa que:
(...) ele suplicante há dez para onze anos tem situado uma fazenda de gados e bestas no rio Camuci, distante sete para oito léguas desta terra, em um poço chamado Guiraquatiara, terras que achou devolutas e desaproveitadas, as quais ele aproveitou e desimpediu, reduzindo à paz os gentios circunvizinhos, sendo os primeiros gados que, em distância de cinquenta léguas, entraram a povoar; o que fez com que as terras do dito sertão, a cujo exemplo se povoaram depois as terras adjacentes (Sesmarias Vol. 3, nº 147, p. 32).
Essa concessão, entretanto, confrontava-se com uma sesmaria outorgada em 1702 aos irmãos Machado Freire, o que deu origem a um litígio. A disputa foi resolvida em 1706 pelo desembargador Cristóvão Soares Reimão, que, aplicando a legislação vigente, reduziu a área destinada aos padres e aos indígenas ao limite de uma légua quadrada, considerada suficiente para sua subsistência e para a manutenção da capela. Entretanto, sabe-se que posteriormente os irmãos Machado Freire voltaram atrás e doaram as terras litigadas aos jesuítas (Maia, 2010, p. 183)
Quando da expulsão dos Jesuítas do Brasil, em 1759, por ordem do Marquês de Pombal, essa fazenda, então denominada Missão, constou no inventários dos bens da Missão da Ibiapaba, levantado naquele ano, contando com mais de 1900 cabeças de gado. Essa propriedade originou uma localidade de mesmo nome, integrante do atual território do município de Granja.
A Missão da Tabainha
Tabainha, posteriormente chamada Serra de D. Simão, localiza-se no nordeste da Ibiapaba, a cerca de oito léguas de Viçosa, e apresentava terras mais aptas à agricultura que as áreas sertanejas vizinhas. Por sua posição intermediária entre o litoral e a serra, o padre Ascenço Gago a concebeu como espaço de conciliação catequética entre sertanejos e serranos. Com o apoio dos principais D. Jacobo de Sousa e D. Salvador Saraiva, transferiu-se para lá a Missão da Bracutiara. Ali, por volta de 1697, foram construídas moradias e uma igreja, consolidando-se o aldeamento.
No final daquele ano, D. Simão Taguaibuna retornou do Maranhão desiludido com as promessas de João Velho do Vale e disposto a abandonar a rebeldia. Aproximou-se então do padre Ascenço Gago, declarou-lhe lealdade e apresentou uma carta régia que o exortava a integrar-se à missão religiosa. Amparado também por orientação régia dirigida ao próprio missionário, o encontro pôs fim a uma longa disputa, permitindo a pacificação do grupo e o aldeamento, em Tabainha, dos principais D. Jacobo de Sousa, D. Salvador Saraiva e D. Simão Taguaibuna.
Pinturas rupestres no Sitio Arqueológico dos Pilões, próximo a Serrinha de D. Simão.
Entre 1698 e 1699, circularam boatos sobre a intenção de invasores baianos, chefiados por Garcia d'Avila III, de instalar fazendas em terras da região, o que ameaçava os interesses missionários e provocou grande apreensão entre religiosos e indígenas. Temendo a perda de terras e a violência associada à expansão pecuária, algumas aldeias chegaram a migrar para áreas próximas ao rio Parnaíba. Apesar do clima de insegurança, a Ibiapaba permaneceu relativamente preservada, em parte por ser considerada pouco adequada à criação de gado.
Diante das ameaças crescentes, Ascenço Gago cogitou transferir-se para áreas mais seguras e chegou a apelar à Corte, pedindo a preservação das terras consideradas essenciais à sobrevivência indígena. Antes que a ocupação avançasse, decidiu desativar a Missão da Tabainha e transferi-la, em 1700, para a Ibiapaba, onde a missão se estabeleceu de forma definitiva. Nesse contexto, ergueu uma igreja dedicada a Nossa Senhora da Assunção, marco do fortalecimento da ação catequética e ponto inicial da futura cidade de Viçosa do Ceará.
Em 1704, o tabajara D. Simão de Vasconcelos, um dos principais da Aldeia da Missão da Ibiapaba, retornou à Serra da Tabainha com o seu grupo. Em 4 de setembro de 1706, recebeu carta de sesmaria que lhe concedia a posse de parte daquela serra, a qual passou, desde então, a ser conhecida como Serra de D. Simão, denominação ainda hoje vigente (Sesmarias Vol. 3, nº 151, p. 42). A partir desse momento, o aldeamento indígena na região foi reativado e manteve-se por cerca de duas décadas, passando o local a ser conhecido como Missão da Serra de D. Simão.
A Fazenda Tiaia
Nas Serras, os jesuítas administravam quatro fazendas de gado: Pitinga, Emboeira, Missão e Tiaia. Todas elas foram compradas ou obtidas por doações de moradores da ribeira do Acaraú e de outras capitanias (Maia, 2010, p. 181). A mais importante delas era a Fazenda Tiaia, na ribeira do Camocim, conseguida através de sesmaria ainda durante a administração de Ascenço Gago, no ano de 1706 (Sesmarias, Vol. 3, nº 180, p. 102).
No ano de 1710, Francisco da Cunha, português, morador do Piauí, deixou em testamento 450 cabeças de gado, 27 cavalos e um escravo de nome José para Nossa Senhora da Assunção, com a condição de se rezarem todo ano três missas pela alma do falecido, morto em 30 de abril do mesmo ano. As missas deveriam ser realizadas nas festas da Santa padroeira, de Santo Antônio e São José, cujas imagens ele mandou colocar na igreja da aldeia. O primeiro vaqueiro da fazenda, o português Pedro Álvares Carneiro, foi buscar o gado doado na Parnaíba, no ano seguinte, ficando com este em Tiaia de Cima (Maia, 2010, p. 182).
No inventário patrimonial realizado por Gama Casco em 1759, aquela fazenda já contava com 720 vaca 290 bois, 218 éguas e 44 cavalos. Essa propriedade foi vendida em 1926 à empresa Joaquim Pereira de Oliveira & Filhos, da qual fazia parte o Sr. Raimundo Oliveira, pelo então bispo de Sobral D. José Tupinambá da Frota, ao preço de cem contos de reis (Ximenes, 1996, p. 24).
Situada dentro no território do distrito de Parazinho, a fazenda deu origem a uma localidade que experimentou alguma prosperidade econômica com a exploração em meados do século XX, em função da expansão do extrativismo da carnaúba. Um levantamento realizado pela pesquisadora Marília Lima, em 2001, constatou a existência de remanescentes das edificações originais, já em avançado estado deterioração, dentre as quais destaca-se uma capela, dedicada N. S. do Perpétuo Socorro, de corpo único, com acesso principal e nas
laterais com altar ao fundo (Lima, 2001, p. 41).
Croqui do conjunto arquitetônico da Fazenda Tiaia (Lima, 2001, p. 41).
A Missão dos Aconguaçus
A pacificação e a catequização dos índios Aconguaçus, ou Acoançus, foram iniciadas pelo jesuíta Manuel Pedroso, companheiro de Ascenço Gago. Parte desses indígenas foi aldeada na Missão da Ibiapaba por volta de 1700, entretanto, a maior parte da tribo permaneceu na Serra da Ubatuba, seu local de morada original. Em carta anua de 10 de outubro de 1695 os missionários descrevem-nos da seguinte forma:
"É esta nação dos Aconguaçus, também gentio de corso. Habita aquela ponta da Serra de
Ibiapaba, que fica mais vizinha ao mar. Nos costumes não difere
muito do Tapuia Reriú. Não comem carne humana, mas os ossos
de seus defuntos os desenterram ao cabo de 6 meses e moídos e
desfeitos os comem com mel de abelhas, em sinal de amor que
lhes têm. Costumam prantear os seus defuntos um ano inteiro, e
os viúvos se não tornam a casar senão depois de um ano. É também
gentio guerreiro e com singularidade destro na flecha, com o qual
não perde tiro; e se alguma vez viram as costas ao inimigo, correndo
disparam a seta e empregam o tiro" (Leite, 1938, p. 43).
Pe. Gago diz ainda que os aconguaçus viviam em guerra com os tabajaras e os reriús, dominando o caminho entre a serra da Ibiapaba e o mar. Portanto, a pacificação desse povo era estratégico para o sucesso das missões.
Em 1712, eclodiu um levante geral envolvendo diversas tribos tapuias na região norte do Ceará. Nesse mesmo ano, o governador de Pernambuco enviou o padre secular Antônio de Sousa Leal para junto dos Aconguaçus, com a missão de pacificá-los definitivamente e promover sua catequização. Com idêntico propósito, foi também designado o padre José Teixeira de Miranda para atuar entre os Reiús, na Serra da Meruoca.
O padre Leal estabeleceu-se no sítio Ibuaçu de propriedade do colono português Pedro da Rocha Franco, onde em seguida foi construída de taipa a Capela de Santo Antônio do Ibuçu, perto portanto da Aldeia dos Aconguaçus. Junto a este oratório aquele religioso realizou a pacificação e catequização desses aborígenes (Ximenes, 1996, p. 26).
Não se sabe a data certa da construção dessa primitiva Capela do Ibuaçu, de taipa, mas pelos assentamentos deixados pelo padre Leal referentes a registros de batizados e casamentos ali ministrados entre os anos de 1714 e 1718, conclui-se que esse oratório foi construído no ano de 1714, sendo uma das igrejas mais antigas do estado do Ceará. Teve como instituidor o já citado Comissário Pedro da Rocha Franco (Araújo, 2000, p. 42).
Missões iniciadas por Pe. Acenso Gago e Manuel Pedroso na região de Granja.
Diego Carneiro
15 de fevereiro de 2026
Referências
ARAGÃO, R. Batista. História do Ceará - Vol. 1 (1500 a 1800). 3 ed. 1990.
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.
LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Tomo III. Lisboa: Livraria Portugália, 1938.
LIMA, Marília Gouveia Ferreira. Granja: evolução urbana e arquitetônica. 2001.
MAIA, Lígio José de Oliveira. Serras de Ibiapaba: de aldeia à vila de índios: vassalagem e identidade no Ceará colonial-século XVIII. 2010.
STUDART, Barão de. Datas e factos para a história do Ceará./Barão de Studart. Edição fac-sim.- Fortaleza: Fundação Waldemar Alcântara, 2001.
STUDART FILHO, Carlos. Missão Jesuítica da Ibiapaba. Revista do Instituto do Ceará, Fortaleza, 1945.
XIMENES, Haroldo. Origem e Evolução Histórica de Granja. Fortaleza, 1996.