A Primeira Sesmaria na Ribeira do Acaraú

No último quarto do século XVII, intensificou-se o processo de expansão da região do Forte em direção ao litoral oeste do atual estado do Ceará, tendo como marcos de preferência as fozes dos principais rios existentes. Essa empreitada foi estimulada pelas autoridades coloniais em nome da coroa portuguesa e realizada inicialmente pelos próprios soldados do Forte de N. S. da Assunção, em Fortaleza.

Em 1681, o capitão-mor Fernão Carrilho escreveu ao Rei de Portugal um memorial no qual destacou as supostas riquezas e potencialidades econômicas da Capitania do Ceará, terras férteis, rios abundantes, madeira, criação de gado e a possível existência de metais e pedras preciosas, argumentando a viabilidade de seu povoamento. O relato contribuiu para sua nomeação como capitão-mor e incentivou a migração de outros interessados, atraídos pela promessa de riquezas ou, alternativamente, pela instalação de currais e pela submissão dos povos indígenas (Soares e Ferrão, 2013, p. 221).

Foi na esteira desse processo que se realizou o primeiro pedido de sesmarias do Acaraú. Essa doação de terras, feita pelo Capitão-mor Bento de Macedo de Farias, datada de 08 de novembro de 1682, foi realizada a um grupo de 26 pessoas, moradores das capitanias de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba (De Souza, 2015, p. 54). Muitos eram militares e seus aparentados, foram eles:

Domingos Ferreira Pessoa (Almoxarife do Forte); Capitão Francisco Gomes; Domingos de Mendonça [da Câmara] (Soldado do Forte); Sargento-mor Manoel Dias de Carvalho (sesmeiro em Coreaú); Maria Joana de Lemos; Capitão Manoel Barreto da Silva; Capitão Francisco Martins Barrada; Capitão João de Nobalhas Correia; Padre Estevão Velho Cabral [de Melo]; Maria Rodrigues da Costa; Joana Barreto; André Fernandes; Francisco da Silva; Luzia Barreto; Antônio da Costa; Francisco Soares; Jorge Coelho de Sousa; Gonçalo Coelho de Sousa; D. Sebastiana da Fonseca; D. Violante da Fonseca; Gracia Barreto; Maria Vicente Solentino Marinho Falcão; Antônia Tavares de Melo; Paulo Coelho de Sousa; Capitão Bartolomeu Nabo Correia; Baltazar Rodrigues da Costa.

Segundo Aragão (1990), essa foi a maior concessão já feita a colonos de uma única vez no Ceará, cabendo a cada um, conforme a descrição, três léguas em quadra (392 km2), totalizando 78 léguas (30.580 km2), entre os rios Paracurú e Acaraú (Sesmarias, Vol. 1, nº 29, p. 68). Na petição, os sesmeiros informam que:

...eles suplicantes têm descoberto na Capitania do Ceará uma sorte de terras situada no Rio a que chamam os índios vulgarmente o gentio para confrontando do tal rio pela parte do sudeste pela costa abaixo com o Rio Curú e o Rio Mundaú e o Rio Aracatiaçu e o Rio Aracati-mirim e o Rio Acaraú, distante pela costa abaixo cinquenta léguas pouco mais ou menos, confrontando pelo sertão com a serra de Goapaba, Cahioqua e Eurubutama (Uruburetama), com todos os Rios e Lagoas que desaguarem nestes rios as quais terras querem eles suplicantes povoar e Cultivar com seus Gados Vacuns e bestas Cavalares no que fazem eles suplicantes grande serviço à Deus e a Sua Alteza que Deus Guarde em aumento desta Capitania (Sesmarias Cearenses Vol. 1, nº 29, p. 68, adaptado).

Ressalta-se desse trecho a imprecisão dos métodos de medição da época. No contexto colonial, oficialmente, uma légua de sesmaria equivalia a 3.000 braças de 2,2 metros, ou 6,6 quilômetros (Carvalho, 2023). Entretanto, a distância entre Fortaleza e a foz do rio Acaraú, pelo litoral, é de cerca de 210 km, pouco menos de 32 léguas, muito inferior às 50 estimadas pelos sesmeiros. 

Pompeu-Sobrinho (1979), na sua obra Sesmarias Cearenses (1680-1822), considera as sesmarias individuais concedidas nesta carta como sendo de 3x1 léguas (130,7 km2) ao longo da costa. Por essa medida, se os 26 lotes seguissem a linha do litoral, com as testadas (lado mais estreito) voltadas para o oceano, totalizariam 171 km, medida relativamente próxima da distância entre os rios Paracurú e Acaraú, de 145 km. Essa concessão provavelmente delimitava o território conhecido e controlado, a época, pelas autoridades coloniais, tendo em seu extremo oeste as áreas deflagradas pelos conflitos com as populações nativas.

O fato é que a ocupação desse extenso território parece ter sido tão errática quanto sua delimitação, o que se verifica pelo fato de muitos desses lotes terem sido novamente concedidos, posteriormente, a outros sesmeiros, por estarem desaproveitados. Possivelmente, grande parte dessas terras foi desapropriada no tombamento, realizado em 1708, pelo Des. Cristóvão Soares Reimão (Dias, 2011).

Localização aproximada da Sesmaria de 1682.

Ademais, não foi possível identificar ao certo a quais dos sesmeiros coube a porção correspondente a região do Baixo Acaraú, objeto de nosso estudo, nem se estes chegaram de fato a tomar posse. Sobre isso, alguns dos sobrenomes listados no pedido de terras são sugestivos, como Correia, o mesmo de Antônio Correia Peixoto, sesmeiro da foz do rio Acaraú. Chama atenção também o sobrenome Falcão, topônimo de um riacho que corre paralelo ao Rio Acaraú. Mas apenas com mais estudos, poder-se-á tentar lançar luz sobre esse distante momento da história.

Diego Carneiro

16 de fevereiro de 2026

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. A Primeira Sesmaria na Ribeira do Acaraú. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 16 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/02/a-primeira-sesmaria-na-ribeira-do-acarau.html

Referências

ARAGÃO, R. Batista. História do Ceará - Vol. 1 (1500 a 1800). 3 ed. 1990.

CARVALHO, Isabelle Mendonça de. Fazendas nos sertões do Acaraú, Coreaú e Serra da Ibiapaba (CE). 2023.

DE SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues. “Minha Riqueza é Fruto do meu Trabalho”: negros de cabedais no Sertão do Acaraú (1709-1822). 2015. 223 f. (Tese Doutorado).

DIAS, Patrícia de Oliveira. As tentativas de construção da ordem em um espaço colonial em formação: o caso de Cristóvão Soares Reimão. 2011. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em História) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2011.

SOARES, José Paulo Monteiro e FERRÃO, Cristina. Memória colonial do Ceará (1618-1698). Tomo I (16181698), Vol. I (1618-1720). Rio de Janeiro: Kappa editorial, 2013.

A Origem da Vila de Granja

Como já mencionado em outras postagens, desde os primórdios da colonização do território brasileiro, piratas e corsários franceses e holandeses frequentaram o litoral do Ceará. Uma das principais portas de entrada era a foz do Rio Coreaú, então conhecida como Camocim ou Rio da Cruz. Dotada de boa profundidade, essa barra permitia, em meados do século XVII, o ingresso de embarcações à vela de médio porte, como barcaças e sumacas. O principal atrativo dessas incursões era o escambo com os povos indígenas: os europeus trocavam produtos manufaturados — machados, foices, facas e facões — por madeiras, animais e outras especiarias da terra.

Convém destacar que a designação “Camocim”, recorrente em textos e mapas antigos, referia-se, na verdade, à atual cidade de Granja. O chamado porto de Camocim consistia em um ancoradouro natural, situado junto a um barranco elevado, que facilitava a atracação de embarcações de médio porte e o acesso a água potável. No século seguinte, o local abrigou uma salgadeira de carne e passou a ser conhecido pelo topônimo “Oficinas”. A partir desse ponto, os aventureiros estrangeiros tinham acesso às trilhas indígenas que conduziam à Serra da Ibiapaba. Foi nessa foz estratégica que holandeses — e possivelmente franceses — ergueram fortificações para assegurar sua presença e suas atividades comerciais (Oliveira, 1995, p. 45).

Não apenas corsários estrangeiros utilizaram essa rota. Os primeiros exploradores luso-brasileiros também a percorreram na tentativa de alcançar o Maranhão, assim como missionários jesuítas que, ao longo de todo o século XVII, buscaram estabelecer aldeamentos na região. Ao final desse século, portanto, o sítio onde hoje se encontra a cidade de Granja já era relativamente conhecido e integrado às dinâmicas de exploração, comércio e evangelização do extremo norte do Ceará.

Primeiros Sesmeiros

Entre os primeiros sesmeiros da região, destaca-se Capitão Rodrigo da Costa de Araújo, estabelecido no lugar Outeiro. Segundo Vicente Miranda:

"[...] ele saiu de Recife, no ano de 1695, em busca das terras próximas à Ibiapaba e que margeavam aquele rio. Sua comitiva de homens e animais levou meses para alcançar e se instalar definitivamente na terra que chamou de “Várzea Grande”, hoje Coreaú, onde recebeu sesmaria em 7 de janeiro de 1702. No caminho, encontrou “arrancho” na isolada fazenda São José da Mutuca, onde morava, desde 1690, Félix da Cunha Linhares, genro de Leonardo de Sá" (Miranda, 2001, p. 68).

Na petição da dita sesmaria o capitão informa que "no sertão do Ceará, no riacho que chama Coroassu e Cabeceiras do Boqueirão da serra em que moram os indios da nação Ararius [Reriús] e vertentes do Camocy, descobriu humas terras devolutas e desaproveitadas [...]" e solicita três léguas de terra nesse local, as quais foram concedidas por D. Fernando Mascarenhas de Alencastro, governador de Pernambuco (Fontenele, 2001,  p. 30-32).

Sobre ele, sabe-se é natural de Paços do Ferreira, Porto, Portugal, possivelmente filho de Domingos da Costa Araújo e Tereza Gomes Figueiredo. Domingos era um próspero comerciante na praça do Recife, tendo sido vereador na Câmara de Olinda em 1706 e admitido como Cavaleiro da Ordem de Cristo desde 1695 (Sousa, 2020, p. 444). Ele também conseguiu uma sesmaria de uma légua, nas testadas do seu "filho", confirmada em 1704, tendo-o como preposto (Documentação Histórica Pernambucana, Vol. 1, p. 175). Já estabelecido no Ceará, Rodrigo da Costa casou-se, em 1722, com Juliana Ferreira de Barros, filha de Mathias Vidal de Negreiros e de Clara de Araújo Sampaio. Faleceu no dia 17 de julho de 1758 (Pildas, 2002, p. 49).

No pedido dos irmãos Miguel Machado Freire e Domingos Machado Freire, outros pioneiros da região, de 3 de agosto de 1702, consta que também obtiveram de D. Fernando Mascarenhas, “5 léguas de terra de comprido e uma de largo, na ribeira do rio Camusy, cortando o mesmo rio, começando das testadas das terras de Rodrigo da Costa Araújo até o Salgado, reservando caatingas e voltas do rio" (Documentação Histórica Pernambucana, IV, p. 122). Essa porção de terra foi reduzida para quatro léguas após um litigio com Pe. Ascenso Gado, missionário da Ibiapaba, julgado por pelo desembargador Cristóvão Soares Reimão em 22 de novembro de 1706. Estabeleceram-se na região do atual distrito de Parazinho.

Destaca-se ainda, nessa primeira leva, o pedido efetuado em 30 de março de 1705, pelos os sesmeiros Manoel Dias de Carvalho e seu primo Félix Coelho de Morais, que obtém datas de três léguas de terra, entre o Riacho das Rolas e o Rio Coreaú, também pegando das testadas do Capitão Rodrigo da Costa Araújo (Sesmarias, Vol. 2, nº 100, p. 57). Como não foi registrada, após três anos, a 13 de janeiro e 1708, eles solicitaram que fosse concedida novamente e inscrita nos livros de terras da Capitania (Sesmarias, Vol. 5, nº 316, p. 134). Por fim, o próprio capitão também obtém outra sesmaria de uma légua no Rio Jaguaraçui (atual Campanário), pegando as testadas (lado mais estreito) de sua data anterior, confirmada a 14 de setembro de 1706 (Sesmarias, Vol. 4, nº 192, p. 10).

Capela de Santo Antônio do Olho d'Água

As terras supramencionadas, conseguidas pelo Sargento Mor Manoel Dias de Carvalho localizava-se entre o Rio Coreaú e o Serrote das Rolas, nas proximidades das aldeias dos Tabajara, na Serra da Ibiapaba, e dos Reriús, na Serra da Meruoca, abrangendo o atual município de Coreaú. Ele era filho de Francisco Dias de Carvalho, soldado do forte, tendo nascido em 1673, dois anos antes de seu pai vir para o Ceará. 

Nessas terras, próximo ao riacho Juazeiro, em 3 de agosto de 1726, juntamente com sua mulher, Dona Bárbara Cabral de Olival, doam terreno para a construção de um capela dedicada a Santo Antônio da Mouraria. D. Bárbara era filha do capitão mor Tomás Cabral de Olival, comandante da fortaleza do Ceará de 1688 a 1692 (Nobre, 1980, p. 36). A doação encontra-se registrada livro de notas, o tabelião Manuel de Miranda Barbosa, da Villa de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, às fls. 70v, sendo seu administrador o ermitão Francisco de Sagres (Nobre, 1980, p. 323).

O templo primitivo, erigido em taipa com cobertura de palha, foi reconstruído em 1742, quando foi inaugurada com a presença de seus fundadores: o comissário Geral Domingos Álvares Ribeiro, o coronel Bento Pereira Viana, o capitão Marcos José de Sousa e João da Mota Pereira. Nessa época, o Sargento-mor morava no sítio Coité, “arrebalde do arraial da Ubajara" [1]. Em torno da capela de Santo Antônio do Olho d'Água formou-se a povoação de mesmo nome, hoje distrito de Araquém, sendo o mais antigo templo do território paroquial de Coreaú e uma das povoações mais antigas do Vale do Coreaú.

Representação de Araquém em 1936 (Araújo e Sales, 2014, p. 70)

Desde 1867, a capela tornou-se filial da Matriz de Nossa Senhora da Piedade, após anteriormente pertencer à Freguesia de Granja. Em 1993, foi tombada como Patrimônio Histórico de Coreaú pela Lei Municipal nº 219, de 14 de junho, sancionada pelo prefeito Dr. Francisco Antônio Menezes Cristino. No mesmo ano, passou por ampla reforma promovida pela Prefeitura, sendo reinaugurada em 10 de julho de 1993, quando foi instalada, em sua fachada, uma placa comemorativa do tombamento (Pildas, 2002, p. 49).

O Aldeamento de Santa Cruz do Coreaú

Em 1706, o remanescente indígena da Tabainha, já sem meios de subsistência, foi compelido a emigrar. O padre Ascenço Gago reuniu esse grupo no aldeamento de Santa Cruz do Coreaú, posteriormente conhecido como Macaboqueira, onde já se encontravam outros nativos. Com a transferência, o arraial da Tabainha desapareceu definitivamente, ao mesmo tempo em que colonos brancos passaram a ocupar suas imediações por meio de fazendas instituídas sob o regime de sesmarias, então em franca expansão (Aragão, 1990, p. 232).

Na esteira desse movimento, o morubixaba tabajara da Ibiapaba, D. Jacob de Sousa e Castro, estabeleceu uma fazenda de gado, de nome Ubaiaçu, à margem esquerda do rio Coreaú, em frente ao poço então conhecido como Eiperuquara (atual Periquara). A posse foi formalmente regularizada em 4 de setembro de 1706, por meio de carta de sesmaria que lhe concedia uma data de terras estendendo-se meia légua rio acima a partir do referido poço e uma légua rio abaixo, até a foz do riacho Camboa. Essa concessão abrangia a faixa territorial onde hoje se situa a cidade de Granja.

Em sua petição, D. Jacob afirma ser um dos principais da Aldeia da Serra da Ibiapaba da nação tabajara e que:

Pelo trabalho que teve em mostrar aos brancos as terras e caminhos circunvizinhos à dita serra, a fim de as povoar e com eles assistir para defendê-los do inimigo tapuia, adquiriu algum gado vacum e cavalar. Entretanto, [...], não podia criá-lo, em razão dos danos que o gado causaria às lavouras, nem havia nelas capacidade de pasto suficiente. Assim, no rio Camocim, no poço chamado Eiperuquara, encontrou terras devolutas e desaproveitadas, as quais passou a utilizar, nelas situando os referidos gados (Sesmarias, Vol. 3, nº 149, p. 37).

Conclui solicitando como remuneração pelos serviços prestados que lhe concedam uma légua e meia de comprimento e uma de largura, meia légua para cada lado do referido rio, meia légua cima e uma légua baixo do dito poço.

Nessa época, um homem chamado Vicente Ribeiro, casou-se com Luzia da Silva, uma filha do donatário D. Jacob de Sousa e recebeu parte dessa sesmaria como dote. Logo após efetuar a doação ao genro, o chefe tabajara retornou a Serra da Ibiapaba. Essa doação é trazida carta de sesmaria concedida posteriormente ao povoador Domingos Machado Freire:

“Diz o capitão Domingos Machado Freire, morador no Curuiyu, termo desta Capitania, que o defunto Vicente Ribeiro, em sua vida, pediu uma data de terras no rio Camosy, freguesia do Acaracu, de légua e meia, fazendo princípio no poço Periquara, a saber: meia légua do dito poço para cima e uma légua do dito poço para baixo; e porque, inteirada a dita data na forma referida, ficam terras de sobra devolutas, onde pastam gados do suplicante, posto que sem águas, quer o suplicante haver as ditas sobras por sesmaria para nelas criar seus gados. [...] Declaro que a data referida foi concedida a D. Jacob de Sousa e Castro, e este a deu em dote a Vicente Ribeiro, defunto acima declarado” (Sesmarias, Vol. 7, nº 547, p. 105).

Ressalta-se que o restante dessa sesmaria foi vendida por D. Jacob de Sousa aos próprios jesuítas, pelo valor de quinze bestas, à época, pouco mais de 8 mil réis (Maia, 2010, p. 183).

A Fazenda Macaboqueira

Após o casamento, Vicente Ribeiro transferiu o curral da fazenda da Periquara para o local onde passou a residir com sua esposa, formando ali um núcleo de ocupação que deu origem a atual cidade de Granja. A maioria dos primeiros habitantes da nascente povoação de Santa Cruz do Coreaú e Camocim era composta por indígenas catequizados da Missão da Ibiapaba, pertencentes à parentela do donatário D. Jacob de Sousa. Presume-se que essa aldeia estivesse localizada no atual Alto dos Pescadores, nas proximidades do poço do Pucu, onde até tempos recentes existia uma antiga casa pertencente a Joaquim Ribeiro, descendente de Vicente Ribeiro (Ximenes, 1996, p. 37).

Os filhos desse casal podem ser considerados, em certo sentido, os fundadores do município. Uma delas, Grácia Ribeiro de Souza, casou-se, a 10 de janeiro de 1731, com João Rodrigues Magalhães, que segundo Pe. Sadoc é o fundador da fazenda Macaboqueira, berço da cidade de Granja (Araújo, 2000, p. 203). Outro filho daquele casal, o Tenente Francisco Ribeiro de Sousa, casado com Luisa da Mota Pereira, filha de João da Mota Pereira, radicados na antiga povoação de Olho D'Água, doou, em 29 de outubro de 1758, terras para constituir o patrimônio da Matriz da Macaboqueira, cujos rendimentos ajudariam na construção do templo, dedicado a São José. A doação consistiu em um quarto de légua, medido a partir da "Pedra Grande”, na margem ocidental do rio Coreaú (Aragão, 1990, p. 379).

Ressalta-se que quando da divisão do Curato do Acaraú, em 1757, ainda não existia uma igreja em Macaboqueira, sendo a sede provisória da nova freguesia ficou sendo a já mencionada Capela de Santo Antônio de Pádua Olho d'Água. Apenas dois anos depois, a 8 de setembro de 1759 é que foi inaugurado o templo permanente, no atual município de Granja. No dia seguinte a inauguração, foi instituída a Irmandade do Santíssimo Sacramento, sob a orientação do vigário da Vara Luiz Fernandes de Carvalho.

Igreja Matriz de Granja, Sec. XX.

Pelo Alvará de 27 de junho de 1776, o povoado de Macaboqueira foi elevado à categoria de vila com o nome de Granja. Posteriormente, em 3 de novembro de 1854, foi elevada à condição de cidade pela Lei provincial nº 692, mantendo a mesma denominação. O nome Granja foi escolhido em referência à Freguesia de São Brás da Granja, no Conselho de Mourão, Distrito de Évora, em Portugal.

Diego Carneiro

12 de fevereiro de 2026

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. A Origem da Vila de Granja. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 12 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/02/a-origem-da-vila-de-granja.html

Referências

ARAGÃO, R. Batista. História do Ceará - Vol. 1 (1500 a 1800). 3 ed. 1990.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.

ARAÚJO, Cosma Silva; SALES, Telma Bessa. O Candango vai para Brasília: Trabalhadores de Araquém na cidade em construção (1956-1960). Revista Historiar, v. 6, n. 11, 2014.

FONTENELE, A. Batista. A Marcha do Tempo: Os Fontenele. Fortaleza: SENAI/CE, 2001.

MAIA, Lígio José de Oliveira. Serras de Ibiapaba: de aldeia à vila de índios: vassalagem e identidade no Ceará colonial-século XVIII. 2010.

MIRANDA, Vicente. Três séculos de caminhada. SM, 2001.

NOBRE, Geraldo Silva. História eclesiástica do Ceará. Secretaria de Cultura e Desporto, 1980.

OLIVEIRA, André Frota. A fortificação holandesa do Camocim. Expressão Gráfica e Editora, 1995.

PILDAS, Leonardo. História de Coreaú (1702-2002). 2003.

SOUZA, George F. Cabral de. Tratos & Mofatras: O grupo mercantil do Recife colonial (c. 1654 — c. 1759).  2 ed. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2020.    

XIMENES, Haroldo. Origem e Evolução Histórica de Granja. Fortaleza, 1996.

[1] Autos de devassas das Minas da Ibiapaba, 1743. Arquivo do NEDHIS-UVA.

As Novas Missões

Os antecedentes da nova missão jesuítica da Ibiapaba remetem a recomendação feita pelo padre Roque Monteiro Pain e apoiada pelo governador-geral de Pernambuco, a qual foi apreciada e aprovada pelo Conselho Ultramarino em 8 de janeiro de 1691. Como resposta, a 23 de março do mesmo ano, o governador-geral de Pernambuco determinou que fossem entregues ao padre Manuel Pedroso Júnior os recursos necessários para a execução de seu projeto missionário, incluindo meia arroba de pólvora, uma arroba de chumbo, além da quantia de seis mil réis, valor suficiente para custear as despesas de deslocamento da missão entre Fortaleza e a serra da Ibiapaba (Aragão, 1990, p. 216-217).

Assim, é provável que ainda em 1691 o padre Manuel Pedroso Júnior tenha se deslocado para a serra da Ibiapaba, iniciando, ainda que de forma provisória, os trabalhos missionários. Seu futuro companheiro, o padre Ascenço Gago, permaneceu por mais alguns anos à frente dos aldeamentos situados no entorno do Forte de Nossa Senhora da Assunção, em Fortaleza. Essa configuração, contudo, seria alterada pela Carta Régia de 29 de novembro de 1694, que determinou a prestação contínua de assistência espiritual aos gentios da Ibiapaba por religiosos residentes no Ceará. Em cumprimento a essa ordem, no início de 1695, ambos os jesuítas retomaram, entre os indígenas da serra, o processo de catequese iniciado cerca de quatro décadas antes pelo padre Antônio Vieira.

Ressalta-se que a nova missão da Ibiapaba desenvolveu-se em um ambiente marcado pela violência. Ao seu redor, atuavam intensamente caçadores de indígenas, que espalhavam terror pelas regiões circunvizinhas. Rica em populações nativas, a serra era então vista como um verdadeiro “El Dorado” pelos bandeirantes que partiam de São Luís em busca de cativos. Embora cobiçassem as reduções jesuíticas, onde se concentravam indígenas já aldeados, esses grupos evitavam atacá-las diretamente, temendo a ação da justiça régia. Em geral, limitavam-se a intimidações, sendo os abusos mais graves relativamente raros.

Ainda assim, episódios de violência não deixaram de ocorrer. Por volta de 1692, paulistas tentaram escravizar indígenas da serra da Ibiapaba, mas foram impedidos pela intervenção do governador do Maranhão. Situação semelhante envolveu o sertanista João Velho do Vale, que capturou indígenas e os conduziu a São Luís, sendo posteriormente obrigado a devolvê-los por força de ordem régia de 1697. Apesar dessas ameaças, do êxodo de parte da população indígena e das instabilidades regionais, a missão serrana continuou a avançar, sustentada pela persistência dos jesuítas.

Nesse mesmo ano foi organizada a expedição ao sertão do Acaraú, chefiada pelo Coronel Leonardo de Sá, Capitão Félix da Cunha Linhares, Antônio Marques Leitão e o Ajudante Bento Coelho de Morais. Essa empreitada, abordada de forma mais detalhada em outra postagem, resultou no aldeamento de vários indígenas, possivelmente capturados pelos militares ou coagidos por medo da prisão.

As Novas Missões

Nessa nova tentativa, ambos empenharam-se na incorporação de grupos tapuias à Igreja e na formação de novos aldeamentos de tabajaras. Visando ampliar e consolidar esse trabalho, Ascenço Gago apresentou ao rei D. Pedro II um projeto mais ambicioso, que previa a fundação de um hospício jesuítico na Ibiapaba, o aldeamento de indígenas do sertão e a concessão de recursos materiais e terras para a sustentação da missão. Nas palavras de Carlos Studart-Filho:

Para a manutenção dos nativos, requeria o padre lhe fossem dadas, por sesmaria, todas as terras situadas entre à Barra do Aracati-mirim e a barra do Timonha, correndo, das citadas barras, o rumo direito à Ibiapaba. Entraria na sesmaria tudo que os rumos apanhassem da serra até entestar com os campos gerais que lhe ficam do lado oposto (Studart-Filho, 1945, p. 51).

Para Batista Aragão, colaborou para esse projeto de expansão catequética para as terras baixas do vale do Coreaú, o fato de que, nessa época, as áreas mais propícias a criação de gado no planalto da Ibiapaba já haviam sido concedidas em sesmarias pelo governo do Maranhão (Aragão, 1990, p. 220). Isso é explicado em petição de sesmaria, datada de 3 de setembro de 1706, em que o sacerdote explica:

(...) para sua sustentação e de seu companheiro, e dos mais missionários que ao diante lhe sucederem na dita missão, como para o ornato daquela igreja, lhe é necessário criar gados vacuns e cavalares, sem as quais cousas não se pode viver naquela serra, distante do mar e sem rio algum vizinho de cuja piscaria se alimentar; que, porquanto na serra que Sua Majestade (que Deus guarde) foi servido mandar demarcar para os índios, não se acham pastos capazes de criar (Sesmarias Vol. 3, nº 147, p. 32).

A proposta foi acolhida por meio de cartas régias de 1697, que autorizaram a criação da casa de residência, a doação de sesmarias e a instalação de currais de gado, além de preverem apoio financeiro inicial da Coroa. Essas mesmas ordens determinavam ainda a proteção das terras indígenas contra abusos de colonos, como forma de garantir a subsistência dos nativos e estimular sua adesão ao projeto missionário. Apesar desse respaldo régio, a fundação do hospício não se concretizou. O principal obstáculo foi a oposição do padre Francisco de Matos, provincial da Companhia de Jesus no Brasil, que se recusou a autorizar o envio de religiosos para iniciar a obra (Studart-Filho, 1945, p. 51).

Quanto as terras solicitadas, em resposta a essa determinação régia, foi expedido alvará em forma de lei a 23 de novembro de 1700, concedendo a cada Missão uma légua (6,6 km) de terra em quadro para sustentação dos índios e respectivo missionário, com a declaração que cada aldeia deveria ser composta de ao menos de cem casais (Studart, 2001, p. 126).

A Missão da Bracutiara

Os religiosos instalaram-se inicialmente às margens de um curso d’água, junto ao poço de Igapara (atual Iapara) na margem esquerda do Rio Coreaú, onde fundaram uma fazenda de criação que mais tarde ficou conhecida como Curralinho. Ali permaneceram por cerca de um ano e meio, dedicando-se à criação de gado e à catequese dos indígenas da região. Contudo, diante das limitações do local para o desenvolvimento da pecuária, transferiram o rebanho para as proximidades do poço de Bracutiara (também Guiraquatiara ou Guiracutiara), também nas margens do Rio Coreaú. Nesse novo espaço, ergueram casas, currais, cercas e um nicho de oração, ampliando simultaneamente a produção econômica e a ação missionária.

Essa fazenda funcionou como missão por dois anos, tendo ali sido aldeados os chefes tabajaras D. Jacob de Souza e D. Salvador Saraiva. Durante esse período realizaram várias e arriscadas incursões aos territórios dos povos da região (Aconguaçus, Reriús e Anacés), que viviam em guerra entre si e contra os tabajaras, conseguindo, a duras penas, sua pacificação. Por volta de 1697, não obstante o sucesso econômico e evangélico alcançado na Bracutiara, os jesuítas decidiram encerrar o aldeamento, deixando porém aquela fazenda instalada às margens do rio Coreaú, entregue primeiramente a um vaqueiro de nome João dos Reis (Ximenes, 1996, p. 24).

Buscando assegurar juridicamente a posse da terra e proteger os nativos da cobiça dos colonos, os jesuítas solicitaram e obtiveram, em 1706, uma sesmaria concedida pelo capitão-mor do Ceará, Gabriel da Silva Lago, garantindo duas léguas de terras em torno do poço de Bracutiara. Na petição, Pe. Gago informa que:

(...) ele suplicante há dez para onze anos tem situado uma fazenda de gados e bestas no rio Camuci, distante sete para oito léguas desta terra, em um poço chamado Guiraquatiara, terras que achou devolutas e desaproveitadas, as quais ele aproveitou e desimpediu, reduzindo à paz os gentios circunvizinhos, sendo os primeiros gados que, em distância de cinquenta léguas, entraram a povoar; o que fez com que as terras do dito sertão, a cujo exemplo se povoaram depois as terras adjacentes (Sesmarias Vol. 3, nº 147, p. 32).

Essa concessão, entretanto, confrontava-se com uma sesmaria outorgada em 1702 aos irmãos Machado Freire, o que deu origem a um litígio. A disputa foi resolvida em 1706 pelo desembargador Cristóvão Soares Reimão, que, aplicando a legislação vigente, reduziu a área destinada aos padres e aos indígenas ao limite de uma légua quadrada, considerada suficiente para sua subsistência e para a manutenção da capela. Entretanto, sabe-se que posteriormente os irmãos Machado Freire voltaram atrás e doaram as terras litigadas aos jesuítas (Maia, 2010, p. 183)

Quando da expulsão dos Jesuítas do Brasil, em 1759, por ordem do Marquês de Pombal, essa fazenda, então denominada Missão, constou no inventários dos bens da Missão da Ibiapaba, levantado naquele ano, contando com mais de 1900 cabeças de gado. Essa propriedade originou uma localidade de mesmo nome, integrante do atual território do município de Granja.

A Missão da Tabainha

Tabainha, posteriormente chamada Serra de D. Simão, localiza-se no nordeste da Ibiapaba, a cerca de oito léguas de Viçosa, e apresentava terras mais aptas à agricultura que as áreas sertanejas vizinhas. Por sua posição intermediária entre o litoral e a serra, o padre Ascenço Gago a concebeu como espaço de conciliação catequética entre sertanejos e serranos. Com o apoio dos principais D. Jacobo de Sousa e D. Salvador Saraiva, transferiu-se para lá a Missão da Bracutiara. Ali, por volta de 1697, foram construídas moradias e uma igreja, consolidando-se o aldeamento.

No final daquele ano, D. Simão Taguaibuna retornou do Maranhão desiludido com as promessas de João Velho do Vale e disposto a abandonar a rebeldia. Aproximou-se então do padre Ascenço Gago, declarou-lhe lealdade e apresentou uma carta régia que o exortava a integrar-se à missão religiosa. Amparado também por orientação régia dirigida ao próprio missionário, o encontro pôs fim a uma longa disputa, permitindo a pacificação do grupo e o aldeamento, em Tabainha, dos principais D. Jacobo de Sousa, D. Salvador Saraiva e D. Simão Taguaibuna.

Pinturas rupestres no Sitio Arqueológico dos Pilões, próximo a Serrinha de D. Simão.

Entre 1698 e 1699, circularam boatos sobre a intenção de invasores baianos, chefiados por Garcia d'Avila III, de instalar fazendas em terras da região, o que ameaçava os interesses missionários e provocou grande apreensão entre religiosos e indígenas. Temendo a perda de terras e a violência associada à expansão pecuária, algumas aldeias chegaram a migrar para áreas próximas ao rio Parnaíba. Apesar do clima de insegurança, a Ibiapaba permaneceu relativamente preservada, em parte por ser considerada pouco adequada à criação de gado.

Diante das ameaças crescentes, Ascenço Gago cogitou transferir-se para áreas mais seguras e chegou a apelar à Corte, pedindo a preservação das terras consideradas essenciais à sobrevivência indígena. Antes que a ocupação avançasse, decidiu desativar a Missão da Tabainha e transferi-la, em 1700, para a Ibiapaba, onde a missão se estabeleceu de forma definitiva. Nesse contexto, ergueu uma igreja dedicada a Nossa Senhora da Assunção, marco do fortalecimento da ação catequética e ponto inicial da futura cidade de Viçosa do Ceará.

Em 1704, o tabajara D. Simão de Vasconcelos, um dos principais da Aldeia da Missão da Ibiapaba, retornou à Serra da Tabainha com o seu grupo. Em 4 de setembro de 1706, recebeu carta de sesmaria que lhe concedia a posse de parte daquela serra, a qual passou, desde então, a ser conhecida como Serra de D. Simão, denominação ainda hoje vigente (Sesmarias Vol. 3, nº 151, p. 42). A partir desse momento, o aldeamento indígena na região foi reativado e manteve-se por cerca de duas décadas, passando o local a ser conhecido como Missão da Serra de D. Simão.

A Fazenda Tiaia

Nas Serras, os jesuítas administravam quatro fazendas de gado: Pitinga, Emboeira, Missão e Tiaia. Todas elas foram compradas ou obtidas por doações de moradores da ribeira do Acaraú e de outras capitanias (Maia, 2010, p. 181). A mais importante delas era a Fazenda Tiaia, na ribeira do Camocim, conseguida através de sesmaria ainda durante a administração de Ascenço Gago, no ano de 1706 (Sesmarias, Vol. 3, nº 180, p. 102).

No ano de 1710, Francisco da Cunha, português, morador do Piauí, deixou em testamento 450 cabeças de gado, 27 cavalos e um escravo de nome José para Nossa Senhora da Assunção, com a condição de se rezarem todo ano três missas pela alma do falecido, morto em 30 de abril do mesmo ano. As missas deveriam ser realizadas nas festas da Santa padroeira, de Santo Antônio e São José, cujas imagens ele mandou colocar na igreja da aldeia. O primeiro vaqueiro da fazenda, o português Pedro Álvares Carneiro, foi buscar o gado doado na Parnaíba, no ano seguinte, ficando com este em Tiaia de Cima (Maia, 2010, p. 182).

No inventário patrimonial realizado por Gama Casco em 1759, aquela fazenda já contava com 720 vaca 290 bois, 218 éguas e 44 cavalos. Essa propriedade foi vendida em 1926 à empresa Joaquim Pereira de Oliveira & Filhos, da qual fazia parte o Sr. Raimundo Oliveira, pelo então bispo de Sobral D. José Tupinambá da Frota, ao preço de cem contos de reis (Ximenes, 1996, p. 24).

Situada dentro no território do distrito de Parazinho, a fazenda deu origem a uma localidade que experimentou alguma prosperidade econômica com a exploração em meados do século XX, em função da expansão do extrativismo da carnaúba. Um levantamento realizado pela pesquisadora Marília Lima, em 2001, constatou a existência de remanescentes das edificações originais, já em avançado estado deterioração, dentre as quais destaca-se uma capela, dedicada N. S. do Perpétuo Socorro, de corpo único, com acesso principal e nas laterais com altar ao fundo (Lima, 2001, p. 41).

Croqui do conjunto arquitetônico da Fazenda Tiaia (Lima, 2001, p. 41).

A Missão dos Aconguaçus

A pacificação e a catequização dos índios Aconguaçus, ou Acoançus, foram iniciadas pelo jesuíta Manuel Pedroso, companheiro de Ascenço Gago. Parte desses indígenas foi aldeada na Missão da Ibiapaba por volta de 1700, entretanto, a maior parte da tribo permaneceu na Serra da Ubatuba, seu local de morada original. Em carta anua de 10 de outubro de 1695 os missionários descrevem-nos da seguinte forma: 

"É esta nação dos Aconguaçus, também gentio de corso. Habita aquela ponta da Serra de Ibiapaba, que fica mais vizinha ao mar. Nos costumes não difere muito do Tapuia Reriú. Não comem carne humana, mas os ossos de seus defuntos os desenterram ao cabo de 6 meses e moídos e desfeitos os comem com mel de abelhas, em sinal de amor que lhes têm. Costumam prantear os seus defuntos um ano inteiro, e os viúvos se não tornam a casar senão depois de um ano. É também gentio guerreiro e com singularidade destro na flecha, com o qual não perde tiro; e se alguma vez viram as costas ao inimigo, correndo disparam a seta e empregam o tiro" (Leite, 1938, p. 43).

Pe. Gago diz ainda que os aconguaçus viviam em guerra com os tabajaras e os reriús, dominando o caminho entre a serra da Ibiapaba e o mar. Portanto, a pacificação desse povo era estratégico para o sucesso das missões.

Em 1712, eclodiu um levante geral envolvendo diversas tribos tapuias na região norte do Ceará. Nesse mesmo ano, o governador de Pernambuco enviou o padre secular Antônio de Sousa Leal para junto dos Aconguaçus, com a missão de pacificá-los definitivamente e promover sua catequização. Com idêntico propósito, foi também designado o padre José Teixeira de Miranda para atuar entre os Reiús, na Serra da Meruoca.

O padre Leal estabeleceu-se no sítio Ibuaçu de propriedade do colono português Pedro da Rocha Franco, onde em seguida foi construída de taipa a Capela de Santo Antônio do Ibuçu, perto portanto da Aldeia dos Aconguaçus. Junto a este oratório aquele religioso realizou a pacificação e catequização desses aborígenes (Ximenes, 1996, p. 26).

Capela de Santo Antônio do Ibuaçu. Foto: João Bosco Gaspar

Não se sabe a data certa da construção dessa primitiva Capela do Ibuaçu, de taipa, mas pelos assentamentos deixados pelo padre Leal referentes a registros de batizados e casamentos ali ministrados entre os anos de 1714 e 1718, conclui-se que esse oratório foi construído no ano de 1714, sendo uma das igrejas mais antigas do estado do Ceará. Teve como instituidor o já citado Comissário Pedro da Rocha Franco (Araújo, 2000, p. 42).

Missões iniciadas por Pe. Acenso Gago e Manuel Pedroso na região de Granja.

Diego Carneiro

15 de fevereiro de 2026

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. As Novas Missões. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 15 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/02/as-novas-missoes.html

Referências

ARAGÃO, R. Batista. História do Ceará - Vol. 1 (1500 a 1800). 3 ed. 1990.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.

LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Tomo III. Lisboa: Livraria Portugália, 1938.

LIMA, Marília Gouveia Ferreira. Granja: evolução urbana e arquitetônica. 2001.

MAIA, Lígio José de Oliveira. Serras de Ibiapaba: de aldeia à vila de índios: vassalagem e identidade no Ceará colonial-século XVIII. 2010.

STUDART, Barão de. Datas e factos para a história do Ceará./Barão de Studart. Edição fac-sim.- Fortaleza: Fundação Waldemar Alcântara, 2001.

STUDART FILHO, Carlos. Missão Jesuítica da IbiapabaRevista do Instituto do Ceará, Fortaleza, 1945.

XIMENES, Haroldo. Origem e Evolução Histórica de Granja. Fortaleza, 1996.

Inquietações do Norte


A revolta liderada por D. Simão Taguaibuna levou o governador geral do Estado do Brasil, D. Francisco Barreto, por intermédio do capitão-mor do Ceará, a mandar o Alferes Felipe Coelho de Moraes para combater os índios tabajaras sublevados (De Sousa, 2015, p. 39). Apesar da repressão ter sido bem sucedida em um primeiro momento, o próprio Alferes, após aprisionar o líder revoltoso, decide por soltá-lo. Isso consta em uma carta enviada a 18 de março de 1663, por Francisco Barreto ao próprio alferes Felipe:

"[...] o Ps. Pº. de Pedrosa, missionário da guerra do Camocim, me avisa do zelo e honrado procedimento com que o Alferes deu execução a ordem que mandei-lhe para ser preso o Principal D. Simão e os mais que hoje se acham neste forte do Siará [...]. E pelo que imprudentemente mandou o dito soltar a D. Simão de cuja ação se seguirão os danos que experimentamos e encomendou muito ao alferes: faça todo o possível para aquietar aquele gentio para que tornem a aceitar os religiosos e vivão debaixo dessa obediência, que por este meio conseguem o bem das almas. Enquanto faltem a esta sua obrigação trabalhe o possível por prender ou matar o tal D. Simão, que inquieta as paz, e quietação dos mais que tinham admitido a doutrina cristã" (Studart, 2001, p. 76).

Não está claro o contexto no qual D. Simão foi solto, mas pode-se inferir que isso tenha relação com a pressão exercida pelos nativos. A essa época a rebelião já havia se expandido por toda a costa nordestina, contando inclusive com a adesão de grupos indígenas tupis de Camocim e das aldeias próximas à fortaleza de Nossa Senhora da Assunção (Studart-Filho, 1945, p. 46)Diante do fracasso das medidas repressivas, o vice-rei D. Vasco de Mascarenhas optou por apaziguar o conflito, concedendo ampla anistia aos insurgentes, inclusive a D. Simão.

Em carta datada de 18 de fevereiro de 1664, determinou a libertação dos chefes tabajaras presos e seu retorno à serra da Ibiapaba, decisão influenciada tanto pelo desejo de pacificação quanto pela intervenção do padre José da Costa, provincial dos jesuítas no Brasil. Segundo o padre, D. Simão afirmava estar arrependido e disposto a aceitar novamente os missionários, desde que lhe fossem devolvidos dois prisioneiros:

[...] a notícia que o Pe. Provincial tem dos missionários da serra, o persuadem a crer que o castigo, que até agora tiveram, e o favor que agora se lhes faz, é a mais bem encaminhada disposição para se restituírem os religiosos a aquela aldeia. Por esta causa perdoo ao principal Dom Simão o delito de que se mostra arrependido; e Vossa Mercê mande logo soltar os dois índios, e os entregue aos padres para os levarem à serra (Documentos Históricos. Vol. IX, Rio, 1929, pág. 140).

Entretanto, mesmo com a anistia, a presença de missionários na serra demoraria quase uma década para voltar a acontecer.

O Caminho para o Maranhão

Um dos grandes inconvenientes da relação pouco amistosa entre portugueses e nativos do litoral oeste e Ibiapaba, em meados do século XVII, era a interrupção do fluxo de pessoas e informações que circulava entre as capitanias de Pernambuco e do Maranhão. Em correspondência datada de 8 de dezembro de 1666, o Capitão-mor João de Melo Gusmão informa que "no decurso deste caminho uluem os goanacezes [guanacés] nação da muita gente, inimigos declarados nossos que prometem não deixarem passar Brancos sem que os matem, ou que roubem, como a pouco fizeram a um que vinha do Maranhão" (RIC IV, 1890, p. 133). A pacificação desse povo só seria alcançada cinco anos depois, em função da atuação do ajudante Francisco Martins Barrada (Brigido, 1919, p. 396).

Ainda em 1666, o tabajara André Coravaty, que havia acompanhado os missionários Antônio Ribeiro e Pedro Pedroso em seu regresso ao Maranhão, decidiu retornar a região, visando fundar novas aldeias em Jericoacoara. Entretanto, ao descerem a serra da Ibiapaba, foram atacados pelos Aconguaçus (Acahamaçus), que mataram o dito principal e muitos dos seus, ficando os demais desarmados. Enviam então um pedido de socorro ao Capitão-mor João de Melo de Gusmão, que envia uma expedição com quinze soldados e cinquenta índios, comandados por Felipe Coelho de Morais, para socorrer os tabajaras. O objetivo da expedição era combater os Aconguaçus, e levar os índios residentes em Jericoacoara para próximo à fortaleza do Ceará (De Sousa, 2015, p. 40).

A relação com os nativos da região teve novo momento de baixa em 1671, quando os tremembés, em vista do mal tratamento recebido, retiram-se de Fortaleza, declarando não querer mais a amizade dos brancos, alertando-os de que não fossem mais as suas terras. Em resposta a isso, a 9 de setembro desse ano, o governador do Ceará, Jorge Correia da Silva envia a Jericoacoara Francisco Martins, cabo de infantaria, para pacificá-los [1]. 

Nas instruções dadas a ele consta que caso se verificasse que os tremembés houvessem matado algum índio ou soldado que o governador havia mandado ao Maranhão, que pedisse socorros de mantimentos e munições, para que os destruísse ou capturasse (Brigido, 1900, p. 22-23). Não deve ter havido grande desdobramento dessa contenda, visto que já no mês seguinte Francisco Martins fora enviado, juntamente com Felipe Coelho de Morais, para guerrear com os Paiacús, na região dos Jaguaribe.

É importante esclarecer que essas missões de "pacificação" eram muitas vezes marcas por excesso de violência e arbitrariedades. Sobre isso, em uma carta dos padres Antônio de Sousa Leal e João Guedes, remetida ao Conselho Ultramarino em 1720, os sacerdotes se queixam dos desmandos cometidos no passado pelo já mencionado soldado Felipe Coelho de Moraes. Segundo eles:

"[...] depois que os padres largaram as aldeias do Ceará, se fez administrador delas e amancebando-se com as índias que tinha em serralho, procriou-se grande número de filhos que todos seguem maus exemplos e tiranizam, não só os índios, mas também os brancos, não havendo quem ouse queixar-se das violências e roubos que lhe fazem" (De Sousa, 2015, p. 97).

Segundo o vigário, os capitães-mores e os cabos de guerra promoveram guerras contra os nativos com objetivo de apresá-los para si e vendê-los, como ocorreu em diversas entradas ao sertão.

O Retorno dos Missionários

Mas o retorno das atividades missionárias deu-se pouco depois, formalizado por um regimento datado de 25 de novembro de 1673, que ordenava o envio do tenente Manuel Pereira da Silva à Serra Grande e registrava a insistência dos missionários do Ceará na necessidade de restabelecer as missões na Ibiapaba, uma vez que os tabajaras se encontravam há anos privados dos sacramentos. Coube ao tenente garantir a proteção de frei Francisco de Sá, que seguiu para a região acompanhado de 30 soldados e 150 indígenas aliados. A ação conjunta resultou na pacificação de diferentes grupos, na celebração de alianças e no batismo de cerca de trezentos indígenas, contribuindo decisivamente para a retomada da presença missionária cristã na área.

Para além disso, são escassas as informações sobre a missão conduzida pelo Frei Francisco Sá e seus desdobramentos imediatos. Mas sabe-se que no ano seguinte a essa empreitada, em 1674, houveram conflitos com os Reriús (Arariús), uma das tribos que vivia entre serra da Ibiapaba e o Rio Acaraú. Essa campanha foi justificada pelas agressões que estes praticavam contra indígenas aldeados, possivelmente guanacés ou tabajaras. Embora tenham sofrido pesadas perdas, com mortos e cativos, os Reriús continuaram numerosos e organizados em vários bandos, tornando-se uma ameaça persistente e dificultando as comunicações terrestres entre o Ceará e o Maranhão (Nobre, 1980, p. 140).

Essa situação de conflito constante com os nativos certamente colaborou para postergar a ocupação do território cearense por colonos portugueses, em particular da Ribeira do Acaraú. Sobre isso, é bastante sugestivo o requerimento de sesmaria concedida, a 14 de novembro de 1678, ao capitão Antônio Barbosa da Silva e seus companheiros, no qual consta que "na capitania do Ceará Grande por costa do mar há terras devolutas, despovoadas por causa do demasiado gentio bárbaro que pelas ditas paragens assiste, mais principalmente do que em outras partes da América”.

A intensificação do processo de colonização por meio da concessão de cartas de sesmarias na região, o que se deu a partir de 1682, certamente agravou os conflitos, acuando ainda mais os antigos donos da terra. No fim do século XVII, intensificaram-se as explorações pelos grandes rios do Ceará, enquanto a população crescia rapidamente, atraída pela prosperidade da criação de gado nos sertões. Contudo, o principal estímulo era a permissão, mantida apesar das ordens da Coroa, de prender e escravizar indígenas. Autoridades locais, interessadas nos lucros, toleravam ou incentivavam o abuso, e bandeiras organizadas por capitães-mores ou particulares percorriam o interior em busca de ouro e de índios para cativar, aproveitando-se da distância do poder central (Théberge, 1869, p. 101).

Nesse contexto deflagrado, a única alternativa de convivência "pacífica" imaginável entre colonos e indígenas foi imposição aos primeiros da vassalagem ao rei e sua submissão aos ditames da igreja. Para tanto, fazia-se necessário reestabelecer os meios evangélicos de integração dos nativos ao projeto colonial.

A Nova Junta das Missões e volta de Pe. Pedroso

Até cerca de 1680, as Missões do Brasil estavam diretamente subordinadas à Portugal, mas a distância e as dificuldades de comunicação levaram à criação de Juntas independentes nas Capitanias Gerais; em 7 de março de 1681 foi instituída a Junta das Missões de Pernambuco, à qual ficaram subordinadas as Missões do Ceará, com jurisdição civil, eclesiástica e criminal. Diante da resistência indígena à colonização e às missões, esta declarou escravos os índios presos no Rio Grande e no Ceará, determinando seu batismo e venda, prática que perdurou por anos e incentivou a captura e escravização em massa, contrariando leis anteriores (Théberge, 1869, p. 98).

Mas informado dos abusos na escravização indígena, D. Pedro II determinou por Carta Régia de 20 de janeiro de 1691 que os índios só poderiam ser considerados prisioneiros em caso de "guerra justa", jamais como cativos, devendo ser libertados após o batismo e ressarcidos os compradores. Embora a medida demonstrasse a intenção de pôr fim à escravidão indígena, ela não foi plenamente cumprida, havendo registros de índios ainda escravizados mesmo depois de cristianizados e aldeados.

No contexto dessa mudança, padre Pedro Pedroso, por volta de 1689, retoma as missões na Ibiapaba. Sua ação levou os indígenas, assim como seu principal, a irem ao Recife prestar vassalagem ao rei de Portugal, onde foram batizados e juraram obediência, conforme registrado por Antônio Gonçalves da Câmara Coutinho em 1690 (Studart-Filho, 1945, p. 48)Segundo João Brígido, aparentemente, o sacerdote, buscou, na medida do possível, preservar os laços com seus ex-pastoreados, tendo em 1675 empreendido uma navegação em canoa pela costa do Maranhão ao Ceará (Brigido, 1900).

Em 1692, o padre Manuel Pedroso Júnior, sobrinho de Pedro Pedroso, missionou os tabajaras, promovendo a pacificação e a cristianização de numerosas tribos e conduzindo mais de 600 indígenas para reforçar a defesa da ribeira do Açu. Por ordem superior, porém, eles foram fixados ao norte da fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, onde fundaram um povoado assistido pelos padres Ascenso Gago, enviado ao Ceará no início da década de 1690 para substituir o padre Pedro Pedroso. Poucos anos depois, esses dois padres se mudariam para a Ibiapaba, reeditando sua missão jesuítica.

Diego Carneiro

20 de fevereiro de 2026

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. Inquietações do Norte. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 20 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/02/inquietacoes-do-norte.html

Referências

BRÍGIDO, João. Ephemerides do Ceará–1ª Epocha. Revista do Instituto Histórico, 1900.

BRIGIDO, João; Ceará, Homens e Fatos. Rio de Janeiro. Tip. Ber-nard Frère, 1919.

DE SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues de. “Minha Riqueza é Fruto do meu Trabalho”: negros de cabedais no Sertão do Acaraú (1709-1822). 2015. 223 f. (Tese Doutorado).

STUDART, Barão de. Datas e fatos para a História do Ceará [1896]. Fortaleza: FWA, v. 2, 2001.

STUDART FILHO, Carlos. Missão Jesuítica da IbiapabaRevista do Instituto do Ceará, Fortaleza, 1945.

THÉBERGE, Pedro F. Esboço histórico sobre a província do Ceará. Fundação Waldemar Alcântara, 1869.

[1] Treslado de um Regimento que o ajudante Francisco Martins cabo de infantaria desta praça leva para Jacoacara em 9 de setembro de 671 a. MALHEIROS, Perdigão de Oliveira. Um capítulo de história do Ceará. Ligeiras rectificações. In: Revista do Instituto do Ceará, Fortaleza, t. IV, 1890, p. 138