Os Carneiro do Sapó

Ilustração da mudança na Fazenda Sapó

Como explicamos em outro post, o Coronel Sebastião de Sá teve um triste fim após o conflito com o ouvidor Loureiro e o desentendimento com Padre Matinhos. Outrora homem de grande prestígio e rico proprietário de terras, no fim da década de 1740, o coronel encontrava-se preso e endividado, tendo seus bens sequestrados e levados e hasta pública em função de uma dívida com José Correia Peralta. Entre suas propriedades, constava uma fazenda, de nome Andú Sapó, ou apenas Sapó, localizado na Ribeira do Acaraú, cujo nome, de origem indígena, é uma corruptela de Andu-Sapuá, que significa roça de feijão (Girão, 1983).

Essa propriedade foi então arrematada, em Aquiraz, por Manuel Teixeira Varela em 24 de agosto de 1740, pelo valor de duzentos mil réis. O lote arrematado consistia de uma faixa de uma légua (6,6 km) de largura, vizinho da Fazenda Curral Grande, do Cel. Francisco Ferreira da Ponte. Um ano antes, em 30 de agosto de 1739, Varela havia se casado com Teresa de Jesus de Vasconcelos, filha do Capitão Cosme Frazão de Figueroa e Maria Coelho de Vasconcelos Alvarenga (Araújo, 2005, p. 181-182). O casal teve apenas uma filha, de nome Sancha, batizada a 9 de janeiro de 1740.


Localização Estimada da Fazenda Sapó em meados do Sec. XVIII

Teresa era viúva de Domingos Ferreira Pinto, irmão de Manoel Ferreira Fonteles, que, por sua vez, também era viúvo de Francisca da Fonseca, que morreu durante o parto de seu filho, Francisco, em 1731. Domingos e Teresa provavelmente já moravam na Fazenda Sapó, uma vez que foi neste lugar que ocorreu a cerimônia de casamento em 25 de novembro de 1733 (Araújo, 2005, p. 145). Corrobora com isso o fato de que Domingos faleceu no dia 1º de maio de 1737, sendo seu inventário também foi realizado na referida fazenda, em outubro do mesmo ano (Araújo, 2005, p. 58). Portanto, é provável que Domingos e Teresa tivessem alguma relação de sociedade com Sebastião de Sá, proprietário do lugar.

Menos de um ano após a aquisição da Fazenda Sapó, na noite de 14 de abril de 1741, faleceu em sua propriedade Manoel Teixeira Varela, deixando-a para sua esposa Teresa de Jesus e sua filha Sancha. Sancha casou-se duas vezes. A primeira a 10 de novembro de 1751, com Veríssimo Tomás Pereira, filho de Francisco Rodrigues Viana e de Teresa Maria, naturais de Santa Catarina do Monte Sinai, Lisboa. A segunda vez, com Zacarias de Sousa Marinho, a 25 de agosto de 1755 (Lima, 2016, p. 623).

Assim, a viúva Teresa de Jesus casou-se, pela 3ª vez, no ano de 1744, com o Tenente João Carneiro da Costa, formando o tronco da numerosa família Carneiro do Sapó, origem dos Carneiro da zona norte. Segundo o historiador Raimundo Girão, João Carneiro foi um dos mais importantes fazendeiros de gado da Ribeira do Acaraú durante o meado do Século XVIII (Girão, 1983, p. 365).

João Carneiro da Costa nasceu em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, por volta de 1707, filho de Diogo da Costa Calheiros e de Joana Carneiro Brito. Migrou para o Ceará na segunda metade da década de 1730, tendo atuado como avaliador do inventário do Pe Manuel Poderoso de Morais em 25 de outubro de 1737, juntamente com seu futuro sogro Cosme Frazão de Figueroa, já na Fazenda Sapó (Araújo, 2005, p. 158). Desse episódio, deduz-se que João era letrado e tinha boa noção de valores, além de gozar de confiança e respeito frente a justiça.

Corrobora com isso o fato de ter alcançado a patente de Tenente de milícia, indicando que pode ter servido nas tropas auxiliares de defesa, ou ainda a recebido de forma honorífica, em função do seu prestígio social ou participação política (Araújo, 1977, p. 135). É provável que essa nomeação tenha tido alguma influência de seu sogro, Cosme, a quem devia estar subordinado, visto que esse possuía a patente de Capitão.

Do casamento João Carneiro e Teresa de Jesus Vasconcelos nasceram três filhos:

1. Ajudante Manoel Carneiro da Costa, c.c. Rosa Maria da Conceição, filha de Mateus Mendes de Vasconcelos e Maria Ferreira Pinto, a 9 de janeiro de 1766.

2. Maria Teresa de Jesus, que se casou duas vezes. A primeira, com o português João da Fonseca Alvares, filho de João da Fonseca Alvares e Maria Alvares, a 15 de fevereiro de 1773. A segunda, com seu primo legítimo Antonio Gomes de Albuquerque, filho de Caetano Gomes da Silva e Francisca Maria de Vasconcelos, a 21 de julho de 1781.

3. Ana, que faleceu em tenra idade a 26 de julho de 1758.


João Carneiro da Costa faleceu em 25 de maio de 1758, com cerca de 50 anos, de "doença que deus lhe deu". Deixou um testamento válido apenas para fins religiosos, o que pode sugerir uma morte repentina. Foram seus testamenteiros, sua mulher Teresa, seu sogro, Cosme e Zacarias de Sousa Marinho, marido de sua enteada, Sancha Maria de Jesus.

Nas disposições espirituais, mostra-se um homem bastante devoto, deixando por sua alma:

(...) um oficio de corpo presente, doze missas também de corpo presente e mais cinco capelas de missas: três por sua alma, duas por alma de seu pai e uma por alma de sua mãe. Item deixa uma festa com missa cantada e sermão à gloriosa Santa'Anna, na sua capela, nesta freguesia (Liv. Ób. Sobral nº 2, fl. 14 apud Araújo, 2005, p. 277). 

Foi sepultado envolto em hábito franciscano, conforme o costume da época, na Igreja Matriz de N. Senhora da Conceição, em Sobral, pelo Padre Manoel da Fonseca Jayme, cura do Acaraú.

Em 1906, Antônio Carneiro da Silva, trineto do Tenente João Carneiro da Costa, edifica no local onde ficava o oratório da antiga Fazenda Sapó, uma capela em homenagem a Sagrada Família: Jesus, Maria e José (Girão, 1983, p. 365). Ao redor dessa capela surge o atual distrito de mesmo nome, berço dos Carneiro do Baixo Acaraú.

Origem do sobrenome Carneiro

O sobrenome Carneiro é toponímico português, ligado ao lugar de Carneiro, próximo à cidade do Porto. O primeiro a usá-lo foi Pedro Carneiro, senhor de Valdevez, citado em 1288 e descendente de Joani Moutão III, cavaleiro francês ligado aos duques de Mouton, cujo nome (mouton, “carneiro” em francês) foi traduzido para o português. Há, contudo, a hipótese de que derive de dom Lourenço Annes Carnes, possível ancestral da linhagem.

Descendência de Manoel Carneiro da Costa

Como João teve apenas um filho homem, o Ajudante Manoel Carneiro da Costa, foi dele que sucedeu o sobrenome Carneiro, tão comum na região do Vale do Acaraú. Manoel também foi o herdeiro da Fazenda Sapó, onde morou com sua esposa (Araújo, 2000, p. 89). Assim também consta na declaração a Câmara de Sobral de 1788 (Frota, 1974, p. 445).

1. Capitão Antônio Carneiro da Costa, nascido em 10 de novembro de 1766, casou-se duas vezes, sendo o primeiro com Ana Bezerra de Araújo, filha de Ignacio Bezerra de Menezes e Maria Madalena de Sá, em 21 de setembro de 1797, e o segundo com Luiza de Araújo Costa, filha de Custódio da Costa Araújo III e Bárbara Maria da Soledade.

2. Alberto Ferreira da Costa, nascido por volta de 1767, c.c. Rita Teresa de Jesus, filha do Capitão Manoel Ferreira Fonteles Filho e Anna Maria da Conceição, em 22 de agosto de 1806.

3. Vicente Carneiro da Costa, nascido 4 de outubro de 1768, c.c. Rita Joaquina de Jesus, filha de Francisco Manuel de Araújo e Teresa Maria de Jesus, em 16 de fevereiro de 1801.

4. Tenente José Carneiro da Costa, nascido por volta de 1769, c.c. Maria Teresa de Jesus, filha do Alferes João Gomes de Albuquerque e Antonia Francica de Araújo, em 17 de maio de 1801.

4. Maria da Costa Carneiro, nascida em 20 de agosto de 1770.

5. Capitão Joaquim Carneiro da Costa, nascido em 1773, c.c. Maria Lourença da Conceição, filha de Manuel Lourenço da Costa Junior e Ana Maria Ferreira Vasconcelos, em 31 de maio de 1804.

6. Capitão Manoel Carneiro da Costa, nascido em dezembro de 1779, c.c. Teresa Maria de Jesus, filha do Capitão Manoel Ferreira da Rocha e Maria Joaquina da Conceição, por volta de 1814.


Diego Carneiro

02 de novembro de 2025

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. Os Carneiro do Sapó. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 02 de novembro de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/07/os-carneiro-do-sapo.html

Referências
ARAÚJO, Nicodemos. Descendência de Meus Avós. Acaraú, 1977.
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.
ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.

FROTA, Luciara S. Aragão (Org). Estudo sobre o Remanejamento da Pecuária na Zona Norte do Ceará. Fortaleza: SUDEC, 1974, 2 volume.

GIRÃO, Raimundo. Os municípios cearenses e seus distritos. Estado do Ceará, Secretaria de Planejamento e Coordenação, Superintendência do Desenvolvimento do Estado do Ceará, Departamento de Recursos Naturais, 1983.

LIMA, Francisco Augusto de Araújo. Siará grande: uma província portuguesa no Nordeste oriental do Brasil. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, v. 4, 2016.

Um comentário:

  1. Parabéns!Sou descendente dessa família(Carneiro-Vasconcelos-Fonteles),sua empreitada,será muito útil como outra Fonte genealógica do Baixo-Acaraú.

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