A Missão Jesuítica da Ibiapaba*

 

A Missão Jesuítica da Ibiapaba teve início formal em 31 de maio de 1656, quando partiu do Estado do Maranhão uma expedição missionária comandada pelos padres Antônio Ribeiro e Pedro de Pedroso, ambos da Companhia de Jesus. A expedição contava com aproximadamente 60 acompanhantes, entre índios, militares do governo e serviçais, e tinha como objetivo alcançar o antigo reduto indígena da Ibiapaba, também conhecido como Mel Redondo, local onde posteriormente se edificaria a vila de Viçosa do Ceará. A viagem foi realizada por terra, costeando o litoral e enfrentando severos obstáculos naturais, como areais extensos, manguezais e rios em cheia, sendo utilizada como apoio apenas uma canoa para travessias emergenciais.

Após 12 dias de marcha, as provisões alimentares, limitadas à farinha-de-peixe acondicionada em urus, se esgotaram, provocando tensão entre os índios acompanhantes, que ameaçaram abandonar a jornada. A crise foi contornada pela intervenção direta dos missionários. Pouco depois, a expedição encontrou índios Tremembés, nas proximidades do litoral, que inicialmente se mostraram hospitaleiros, oferecendo peixes e caranguejos. Contudo, uma índia Tremembé alertou os padres sobre um plano de traição, segundo o qual os missionários e soldados seriam assassinados durante uma suposta pescaria noturna. Descoberta a emboscada, a expedição levantou acampamento e seguiu em direção oposta.

Nos dias seguintes, os missionários atravessaram áreas alagadas, florestas úmidas e manguezais até alcançarem a foz do rio Parnaíba, identificada como a região de Tutóia. Durante a travessia do estuário, a canoa foi arrastada por ventos fortes e correntes marítimas durante cerca de cinco horas, até conseguir alcançar águas mais calmas e retornar aos areais. A partir desse ponto, a expedição seguiu finalmente em direção à Ibiapaba, chegando ao destino em 4 de julho de 1656, após 35 dias de viagem desde a saída do Maranhão.

A chegada dos padres Antônio Ribeiro e Pedro de Pedroso foi celebrada pelos indígenas Tabajaras, que ainda conservavam a memória do padre Francisco Pinto, missionário morto em tentativa anterior de catequese, ocorrida 49 anos antes. Francisco Pinto era lembrado pelos nativos como “Pai-Pina”, “Senhor das Chuvas” e Amanaiara, denominações que expressavam sua importância simbólica. Conforme orientação do padre Antônio Vieira, então Superior das Missões, os jesuítas instalaram o núcleo missionário, erguendo uma pequena capela e choupanas, de acordo com os recursos disponíveis e os padrões culturais indígenas.

Pouco tempo depois, a missão enfrentou novo risco. Em passagem pela região de Camocim, o militar André Vidal de Negreiros, com destino a Pernambuco, desembarcou tropas e realizou incursões pelo sertão. Os índios da região interpretaram a movimentação como ameaça de ataque, levando os Tabajaras da Ibiapaba a se armarem para a guerra e a fazerem os missionários reféns. O mal-entendido foi esclarecido após a retirada de Vidal de Negreiros, evitando-se o massacre.

Entre 1656 e 1660, a missão se expandiu, mas também se tornou alvo de disputas internas da Companhia de Jesus e de conflitos políticos. O padre Antônio Ribeiro deslocou-se para apoiar o Capitão-Mor Domingos de Sá Barbosa na pacificação da guerra entre Anacés e Jaguaruanas, nas proximidades da Fortaleza, deixando Pedro de Pedroso na Ibiapaba. Essa atitude, somada a tensões no Maranhão, levou o Padre Visitador Francisco Gonçalves a propor a extinção da missão. O projeto foi combatido por Antônio Vieira, que argumentou que mais de 2.500 índios haviam sido cristianizados em curto período. O apoio do Governador-Geral do Maranhão, D. Pedro de Melo, garantiu a continuidade da missão e a elevação de Vieira ao cargo de Visitador Superior das Missões.

Em sinal de gratidão, os principais indígenas da Ibiapaba enviaram uma comitiva de 50 índios ao Maranhão, liderada por Jorge Ticuna, filho de Jacaúna, com o objetivo de agradecer a Vieira e a D. Pedro de Melo. Ticuna seguiu posteriormente a Portugal, onde foi recebido na Corte e retornou em novembro de 1659, ostentando o título de Dom, o que reforçou seu prestígio político e simbólico.

Nesse mesmo período, surgiram conflitos internos fomentados pelo indígena Simão Taguaibuna, opositor da missão e defensor da poligamia, que espalhou boatos de que os missionários seriam escravizados ou mortos. A tensão atingiu seu ápice por volta da Páscoa de 1660, quando os padres Antônio Ribeiro e Pedro de Pedroso foram novamente feitos reféns, sob ameaça de execução.

Enquanto isso, no Maranhão, Antônio Vieira preparava sua visita à Ibiapaba. Ele partiu em 3 de março de 1660, acompanhado do padre Gonçalo de Veras e do militar Jorge Corrêa da Silva, chegando à missão em 24 de março de 1660. Sua recepção foi marcada por festas, danças, cauim, milho assado e abóbora cozida, estendendo-se por 12 dias. Durante sua permanência, Vieira instituiu oficialmente a Missão de São Francisco Xavier da Ibiapaba, reforçando sua organização espiritual. Ele permaneceu no local até o início de junho de 1660, retornando ao Maranhão em 29 de junhoA missão, entretanto, não sobreviveria por muito tempo. 

A decadência missionária e a crise da catequese na Ibiapaba

Durante o governo de Rui Vaz de Siqueira, no Maranhão, tropas foram enviadas à Ibiapaba sob o pretexto da colheita de âmbar, operação comandada pelo cabo Manuel de Carvalho. A ocupação militar do antigo reduto missionário deu origem a práticas de extrema violência: desrespeito às famílias indígenas, agressões físicas, instalação de pelourinho e perseguição sistemática às lideranças nativas. A reação indígena foi imediata. Os índios rebelaram-se, convocando o apoio do chefe camocinense D. Simão Taguaibuna, que assumiu o controle da região após a deserção das tropas maranhenses. 

Nesse contexto, a presença missionária tornou-se inviável, levando o padre Pedro de Pedroso, acompanhado do padre Gonçalo de Veras, a abandonar a Ibiapaba e seguir para o Maranhão, conduzindo consigo cerca de 400 famílias tabajarasCom isso, por volta de 1662, extinguiu-se a Missão São Francisco Xavier da Ibiapaba, encerrando um ciclo fundamental da catequese jesuítica no Ceará no século XVII.

A partir desse episódio, a catequese na Ibiapaba permaneceu praticamente interrompida por décadas. A região passou a experimentar sucessivos ciclos de conflito envolvendo indígenas, autoridades locais e religiosos de diferentes ordens. A fragilidade institucional da Igreja no Ceará foi agravada pela precariedade do vicariato da Fortaleza, que enfrentava, simultaneamente, disputas com os indígenas da Barra do Ceará, de Camocim, da Porangaba, do Siupê, da Paupina e do Iguape.

Entre 1655 e 1661, a assistência religiosa na Capitania foi exercida por padres de atuação efêmera, como Pedro de Moraes e frei Manuel da Cruz, ambos vinculados ao Presídio da Fortaleza, sem que deixassem registros consistentes de atuação missionária. O cenário se agravou com as guerras indígenas envolvendo Jaguaribaras, Anacés e grupos liderados por Diogo Algodão, deslocado para Camocim. Na própria Ibiapaba, forças hostis promoveram a destruição das estruturas edificadas pelos padres Antônio Ribeiro, Pedro de Pedroso e Gonçalo de Veras.

Em 17 de abril de 1662, por meio de provisão régia, foram designados os padres Jacob Cócleo e Pero Francisco de Cassálli para atuar junto aos índios da região da Fortaleza. Buscou-se realdear os nativos em áreas próximas, como o sítio de Moruga e o Paramoti, mas as más condições de solo e a escassez de água provocaram forte resistência indígena. Em 16 de março de 1663, o Governador-Geral de Pernambuco determinou a suspensão da medida. Pouco depois, em 13 de janeiro de 1664, o Vice-Rei D. Vasco de Mascarenhas, Conde dos Óbidos, ordenou a libertação de chefes ibiapabanos presos desde 1661, contribuindo para a pacificação temporária da região.

O esforço resultou, finalmente, na fundação da Aldeia do Bom Jesus da Porangaba, inaugurada em 2 de fevereiro de 1665, reunindo cerca de dois mil índios. A aldeia tornou-se o principal núcleo missionário do período, sob a atuação dos padres Jacob Cócleo e Francisco Cassálli. Contudo, novas hostilidades surgiram durante o governo do Capitão-Mor João de Melo Gusmão, especialmente após a visita do padre Cassálli às aldeias do interior e a Camocim. Em 12 de dezembro de 1666, uma expedição comandada por Filipe Coelho de Moraes promoveu violenta repressão contra os índios de Camocim, episódio que marcou definitivamente o declínio da missão da Porangaba.

Cassálli retirou-se para o Maranhão em 1667, acompanhado do padre Manuel Juzarte, sendo substituído pelo padre Luís Machado, que faleceu na própria aldeia em 3 de outubro de 1670. Com sua morte, extinguiu-se o último impulso missionário estruturado do período, aprofundando a decadência religiosa na Capitania.

O retorno dos jesuítas e a tentativa de restauração da missão da Ibiapaba

A retomada da presença jesuítica na Ibiapaba ocorreu de forma lenta e conflituosa, em meio à concorrência com os Congregados de São Filipe Nery (os Amaristas), que assumiram a Paróquia de Nossa Senhora da Assunção da Fortaleza a partir de 1671. Apesar de menos dedicados à catequese indígena, esses religiosos mantiveram o controle institucional da paróquia até o final da década de 1680.

Em 1689, ressurgiu no Ceará a figura do veterano jesuíta Pedro de Pedroso, agora em missão itinerante de pacificação e realdeamento indígena em toda a Capitania. Sua atuação, no entanto, foi interrompida pela morte em alto-mar no mesmo ano, quando retornava a Pernambuco.

O verdadeiro marco do retorno jesuítico à Ibiapaba ocorreu a partir de 1691, com a nomeação dos padres Manuel Pedroso Júnior, parente do antigo missionário Pedro de Pedroso, e Ascenço Gago, paulista encarregado da supervisão das missões no Ceará. A indicação foi feita pelo jesuíta Roque Monteiro Paim e recebeu apoio explícito do Governador-Geral de Pernambuco. Em 13 de março de 1691, uma Carta Régia determinou a subordinação missionária aos jesuítas, reforçada por novas ordens expedidas em 25 de março de 1691 pelo Marquês de Montebelo, recomendando proteção militar à missão da Ibiapaba.

Manuel Pedroso Júnior partiu da Fortaleza rumo à Ibiapaba ainda em 1691, comandando uma bandeira de pacificação. Em 1692, enfrentou a ameaça de invasores paulistas liderados por Francisco Dias de Siqueira, que sondavam as terras da Grande Serra da Ibiapaba. Apesar disso, a catequese foi mantida.

Paralelamente, o padre Ascenço Gago consolidou sua atuação entre 1695 e 1697, fundando a Missão da Bracutiara, às margens do rio Coreaú, após tentativas frustradas em local denominado Igapara (Iapara), onde criara o Curralinho. A Bracutiara tornou-se base econômica e espiritual da nova ofensiva missionária, articulando catequese, criação de gado e aldeamento indígena.

Ascenço Gago percorreu extensas regiões, incluindo Camocim, Timonha, Aracati-Mirim, Reriutaba e os sertões dos Crateús, pacificando povos como Reriús, Timucu, Arapá, Guarará, Anacés e Tabajaras, além de estabelecer alianças com lideranças como D. Jacobo de Sousa e D. Salvador Saraiva. Em 8 de janeiro de 1697, Cartas Régias determinaram a construção do Hospício da Ibiapaba, com recursos da Real Fazenda, marcando o reconhecimento oficial do esforço jesuítico de restauração.

Assim, após décadas de violência, abandono e conflito institucional, o retorno dos jesuítas à Ibiapaba no final do século XVII representou não apenas uma retomada religiosa, mas também uma tentativa de reorganização social e territorial do sertão cearense, ainda que marcada por resistências persistentes e pela fragilidade estrutural da colonização.

*Adaptado de Raimundo Batista Aragão em sua História do Ceará, (Aragão, 1990, p. 194-250).

Referências

Aragão, R. Batista. História do Ceará - Vol. 1 (1500 a 1800). 3 ed. 1990

A Febre do Ouro e o Capitão Inácio Gomes Parente

No final do século XVII e, sobretudo, ao longo do século XVIII, várias jazidas de ouro foram descobertas no interior do Brasil, na região hoje pertencente ao estado de Minas Gerais. Isso provocou um intenso fluxo migratório para a região, o que a transformou no principal polo de riqueza da América portuguesa. Milhares de homens de diferentes estratos sociais e de variadas partes do reino foram atraídos pela possibilidade de ascensão econômica rápida. Entre eles estava um que viria a ser uma figura de destaque na sociedade colonial da Ribeira do Acaraú. Me refiro ao Capitão-mor Inácio Gomes Patente.

Inácio nasceu por volta de 1742, no Bispado de Lamego, distrito de Viseu, filho de Manoel Gomes e Catarina Lopes, ambos também naturais do Bispado de Lamego (Lima, 2016, p. 988). Segundo Monsenhor Francisco Sadoc de Araújo, Inácio nasceu na Freguesia de São Martinho de Mouros, do Concelho de Resende (Araújo, 2000, p. 201). Essa freguesia está situada na margem esquerda do rio Douro, descrita como um vale fértil, com foral concedido em 1111 e matriz edificada sobre antiga mesquita moura. Isso ajuda a explicar a tradição segundo a qual Inácio seria moçárabe e teria sido aprisionado por sarracenos nas costas da África durante sua primeira viagem ao Brasil. Diz-se que teria sido levado ao litoral da Mauritânia, de onde conseguiu fugir, prosseguindo viagem até o Brasil (Arruda, 1998, p. 11).

Chegou ao país ainda em tenra idade, no contexto da “febre do ouro”, dirigindo-se inicialmente para Minas Gerais, onde se estabeleceu na região de Cachoeira do Campo, próximo a Vila Rica, associando-se ao patrício Antônio da Costa Cordeiro, natural de Lordelo do Ouro. Ambos prosperaram com a mineração, mas teriam sido acusados de sonegar o quinto, imposto correspondente a 20% do ouro extraído, que deveria ser pago as casas de fundição. Nesse período, o declínio das receitas de exploração levou a coroa portuguesa a intensificar essa cobrança, recorrendo inclusiva a derrama, apreensão e confisco de parte da produção, quando havia suspeitas de sonegação. Esse foi inclusive um dos principais estopins da Inconfidência Mineira, ocorrida em 1789.

Para fugir dessa repressão, a dupla retirou-se para o Norte do Brasil, indo inicialmente para a Bahia, e de lá desembarcando nas praias do Acaraú, por volta do ano de 1776 (Pessoa, 1976, p. 26; Arruda, 1998, p. 11)Segundo a tradição oral recolhida pelo Mons. Sadoc, quando o navio aportou, Inácio desembarcou e fugiu, não retornando à embarcação (Araújo, 2005, p. 199). Ele e Antônio Cordeiro refugiaram-se na Serra da Meruoca, onde estariam mais protegidos da perseguição policial. Conforme Wicar Paula Pessoa, Inácio Gomes Parente integrava os "Gomes de Lamego", que teriam atuado no setor açucareiro na Bahia, onde administraram por algum tempo o engenho Santa Cruz (Pessoa, 1976, p. 26).

Antônio da Costa Cordeiro, casado com Úrsula Maria das Virgens, vivia sobretudo de agiotagem, atividade comprovada por seu inventário de 1789, no qual estão relacionados mais de cento e oitenta devedores ao viúvo, com renda superior a três contos de réis, somados o capital emprestado e os respectivos juros a dois por cento ao mês. Era esta sua maior fortuna. Já Inácio Gomes Parente trouxe consigo muito mais dinheiro, mas preferiu aplicá-lo na aquisição de imóveis e em atividades comerciais. Foi dele, inclusive, o primeiro sobrado construído na Vila de Sobral, datado de 1814 (Rocha, 2025, p. 123). Do inventário de sua mulher, Francisca de Araújo Costa, falecida a 08 de abril de 1826, consta o total de sua fazenda no valor de mais de sessenta e quatro contos de réis, soma fabulosa para o padrão da época no pobre interior do Ceará. Documentos manuscritos coevos os identificam como “mineiros viandantes” (Arruda, 1998, p. 11).

Sobrado do Cel. Inácio Gomes Parente, 1814 (Rocha, 2025, p. 124).

Inácio tornou-se figura de grande destaque regional, sendo tronco da numerosa família Gomes Parente que povoou a Ribeira do Acaraú (Araújo, 2005, p. 199). Foi Capitão-Mor do Distrito de São Domingos da Ribeira do Acaraú, por patente concedida por Luiz da Mota Féo Torres, Professo da Ordem de CristoFidalgo Cavalheiro da Casa de Sua Majestade, a Rainha Dona Maria I, por patente de 4 de julho de 1790 (Arruda, 1998, p. 13). Em 5 de junho de 1821, a Câmara de Sobral registrou um voto de louvor ao Capitão Inácio Gomes Parente por ter aplicado, sem cobrar juros, mais de três contos de réis, com pagamento a longo prazo, na construção da Casa do Mercado Público de Sobral, afirmando que “nenhum outro exporia o seu dinheiro com tão longas demoras” (Araújo, 2005, p. 117).

Um ano depois, a 3 de junho de 1822, Inácio Gomes Parente recebeu uma sesmaria de três léguas (19,8 km) no termo da Vila de Sobral, provavelmente no atual município de Santa Quitéria. Na petição, Inácio informa que:

...entre as suas terras da Fazenda Victoria, Vargens, e as terras das Lages, Cobras, e Santa Maria do Capitão Vicente Alves da Fonseca, nos limites dos termos da Villa Nova de El Rey (Guaraciaba do Norte) e da Villa do Sobral há terras devolutas e desaproveitadas pelo Riacho do Gado a cima cujo Riacho Serve de extrema entre o Suplicante e dito capitão Vicente Alves e por que ditas terras compreendidas do Riacho para a parte do Poente se acha nas ilhargas, e testadas das ditas suas Fazendas lhe são de absoluta necessidade para refrigério de seus gados Vacuns e Cavalares ali situados quer o Suplicante haver por Data e Sesmaria três léguas de comprido pelo dito Riacho a cima dele para o Poente pegando no comprimento nas testadas ou ilhargas dos Providos do Rio Macaco correndo o rumo que o Riacho traz para ele acima até inteirar das três léguas com uma de largo ou o que na verdade se achar do Riacho para o Poente a encostar nas terras do Suplicante (Sesmarias Vol. 9, nº 770, p. 149).

Descendência de Inácio Gomes Parente

Inácio casou-se duas vezes, sendo a primeira vez em 24 de novembro de 1777, “pela manhã”, no Sítio Santo Antônio, Serra da Meruoca, freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Vila de Sobral, com Francisca de Araújo Costafilha de José de Araújo Costa, e de Brites de Vasconcelos (uma das sete irmãs)O casamento foi celebrado pelo Padre João Ribeiro Pessoa. Estiveram presentes: Ajudante João Barreiros Rangel, solteiro; Manoel da Costa FarrapoInácio Bezerra de Menezes, casados; além de outras “pessoas todas conhecidas, moradores nesta Freguesia” (Lima, 2016, p. 988). Tiveram nove filhos:

1. José Inácio Gomes Parente, Coronel, natural da Freguesia de Sobral. Casou-se a 18 de janeiro de 1804, na Igreja Matriz de N. Senhora da Assunção da Vila da Fortaleza, com Maria do Nascimento Pontes, n. a 25 de dezembro de 1778, e foi batizada a 06 de janeiro de 1779, na Igreja Matriz da Vila da Fortaleza. Padrinhos: Antônio de Castro Viana, Capitão Mor, e sua mulher Isabel Francisca Xavier, moradores na Vila da Fortaleza. Presentes à cerimônia religiosa de casamento, o Pároco, Padre Cláudio Álvares da Costa, e as testemunhas, João Carlos Augusto von Oyenhausen-Gravenburg, Governador da Capitania do Ceará e Vicente Ferreira Forte. Maria do Nascimento Pontes faleceu a 20 de setembro de 1829, e era filha do Capitão Mor Gregório Álvares Pontes, da Freguesia de São Tiago do Prado, e de Teresa de Jesus de São Silvestre. Viúvo, o Coronel José Inácio Gomes Parente casou-se (2) com Ana Rita Neta, viúva de Joaquim Carneiro da Costa. Ana Rita Neta, viúva, casou-se a 05 de janeiro de 1847, com Joaquim Casemiro de Araújo. 

2. Luzia Teresa de Jesus casou-se a 14 de janeiro de 1808, na Igreja Matriz de Sobral com Francisco Alves Pontes, filho de Gregório Álvares Pontes e de Teresa de Jesus de São Silvestre. 

3. Cel. Diogo Gomes Parente ocupou em Sobral, os cargos de Delegado de Polícia, substituto do Juiz Municipal de Direito, Vereador da Câmara Municipal, Comandante Superior da Guarda Nacional e Oficial da Ordem Rosa. Líder do Partido Conservador durante o Império. Foi nomeado no dia 15/12/1812 para o cargo de Capitão da 8ª Companhia do Regimento de Cavalaria Miliciana da Vila de Sobral. Veio a falecer no dia 30 de outubro de 1890, aos 64 anos de idade, vítima de uma dilatação da Aorta. Casou-se com Joana Francisca do Espírito Santo, filha do português Manoel da Silva Sampaio, o qual serviu o cargo de Diretor dos Índios na Serra da Ibiapaba e o de Capitão de Ordenanças, e Antônia Maria Assunção. 

4. Florência Maria de Jesus casou-se a 09 de fevereiro de 1806, na Igreja Matriz de Sobral, com Joaquim Domingues da Silva, nasceu a 15 de agosto 1777, no lugar das Regadas, Freguesia de Santa Marinha, Vila Nova de Gaia, Porto, filho de Luís Domingues da Silva e de Josefa Francisca, naturais do Porto. 

5. Quitéria Gomes Parente casou-se às 20 horas de 1° de fevereiro de 1814, na Igreja Matriz de Sobral com Francisco Machado Freire, filho de Manoel José Álvares e de Custódia Maria Machado, natural de São Salvador, Freguesia de Cerdeira, Portugal. 

6. Vicente Gomes Parente casou-se a 24 de janeiro de 1811, com Maria Teresa Bernarda, filha de Felipe Ribeiro da Silva e de Maria Bernardina do Monte. 

7. Antônio Gomes Parente casou-se (1) a 07 de janeiro de 1803, na Igreja Matriz de Sobral, com sua prima Inês Madeira de Vasconcelos, filha do Capitão José Álvares Linhares e de Rita Teresa de Jesus. Casou-se, (2) com Porcina Ribeiro da Silva, filha do Coronel Joaquim Ribeiro da Silva e de Francisca Ribeiro da Silva. 

8. Francisco Gomes Parente, Padre. Nascido em novembro de 1791. Fez seus primeiros estudos em Sobral, com os padres Manoel Pacheco e João José de Noronha. Concluiu Filosofia e Teologia no Seminário de Olinda, onde foi ordenado em 1816. Trabalhou nas freguesias de Sobral e Santa Quitéria. Foi suspenso de ordens por viver em concubinato com Isabel Carolina da Hungria, filha de Ignácio de Castro e Silva e D. Rosa Maria. Desta união nasceram: Dr. Esmerino Gomes Parente, Dr. Ermeto Gomes Parente e Francelina Gomes Parente, mãe do Pe. João José de Castro. Foi Vereador da Câmara de Sobral, várias vezes. Deputado Provincial. Faleceu, em 1835, readmitido às ordens sacras (Silveira, 2004, p. 11-12)

9. Joaquim Gomes Parente.

Francisca faleceu em 08 de abril de 1826. Então o viúvo casou-se em segundas núpcias em 19 de agosto de 1830, “às nove horas da noite”, na residência do pai da nubente, na Vila de Sobral, com Maria Joaquina da Silvafilha de Luís da Silva Fialho e Inês Maria de JesusEste casamento não teve sucessãoO Capitão Inácio Gomes Parente faleceu em Sobral, aos 18 de abril de 1838, com 96 anos de idade (Lima, 2016, p. 988).

Diego Carneiro

08 de dezembro de 2025

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. A Febre do Ouro e o Capitão Inácio Gomes Parente. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 08 de dezembro de 2025. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/12/febre-ouro-cap-inacio-gomes-paente.html

Referências

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense. 2ª edição. 5 Volumes. Fortaleza: Edições ECOA, 2005.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú. 2ª edição. Sobral: Edições UVA, 2000.

ARRUDA, Assis. Genealogia Sobralense. Vol. II: Os Gomes Parente. Sobral: Edições UVA, 1998.

LIMA, Francisco Augusto de Araújo. Siará grande: uma província portuguesa no Nordeste oriental do Brasil. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2016.

PESSOA, Wicar Parente de Paula. Algo sobre a História de Sobral. Revista do Instituto do Ceará. v. 95, n. 90, Janeiro de 1976, p. 19-28.

ROCHA, Herbert. O Lado Esquerdo do Rio. 2 ed. Fortaleza: Edições INESP, 2025.

SILVEIRA, Aureliano Diamantino. Ungidos do Senhor na Evangelização do Ceará, vol. II. Fortaleza: Editora Premius, 2004.

A Misteriosa Casa de Pedra de Senador Sá


O ano era 1884, partindo de Sobral, o historiador Antônio Bezerra chega de trem ao povoado de Massapê, onde é recepcionado por José Gomes Ferreira Torres, chefe da estação de Pitombeiras. Junto de Bezerra estava o Sr. Ursulino Ferreira de Paula, que também trabalhava na referida linha férrea. Eram por volta de quatro horas quando o trio partiu a cavalo em direção ao Ôlho-d'Agua dos Picos. Vinte minutos depois, chegam ao local, assim descrito:

 ... se abriu diante de nós uma espécie de anfiteatro de rochas nuas e de formas grotescas, tendo em baixo à direita viçosos arvoredos alimentados pela umidade de um olho-d'água perene. A esquerda ficam os picos mais ou menos agudos que dão nome ao lugarejo. Mais além se descobre a casa de pedras que constitui uma curiosidade nessas paragens, e tem merecido a visita de quantos amam a ciência e mostram interesse pelas raridades.

É realmente digna de nota pela sua pesada construção, e principalmente pelas lendas caprichosas com que a imaginação do povo a tem procurado tornar célebre. Recostada à rocha de formação gnáissica, ergue-se como uma fortaleza, do solo a mais de dez metros de altura, tendo as paredes superiores 82 centímetros de grossura. Não tem e creio que nunca teve coberta, e apesar do abandono e estrago dos agentes atmosféricos, conserva-se ainda em perfeito estado. A entrada é pelo lado do fundo por duas portas na sala do centro, às quais correspondem duas janelas que dão vista para a planície e as outras duas salas do lado direito e esquerdo só têm comunicação interiormente.

Uns atribuem sua construção aos holandeses, outros aos jesuítas, e quer tenha sido levantada por estes ou aqueles, admira a perfeição do trabalho, visto como as pedras sustentadas sem cimento ou outra composição de argamassa se mostram ainda tão aprumadas que tanto do lado interno e externo não sobressai uma polegada da parede. Calculo que tenha de frente cerca de vinte metros (Bezerra, 1965, p. 79-80).

Essa descrição realizada pelo célebre historiador há mais de 140 anos corresponde a um conjunto de ruínas de uma casa forte, localizada no atual município de Senador Sá, que emancipou-se de Massapê em 1959. Tal construção, de origem ainda ignorada, foi objeto de pesquisa de uma expedição recente capitaneada pelo Prof. Manoel Odorico Moraes Filho, juntamente com uma equipe multidisciplinar, a 7 de julho de 2023. Os achados encontram-se registrados no artigo "Casa do Cão: Uma fortificação colonial no município de Senador Sá, Ceará", de Beatriz Guimarães e coautores (Guimarães et al., 2023).

Casa de Pedra, foto de Célio Cavalcante.

Segundo os autores, o sistema construtivo desta edificação foi realizado em alvenaria de pedra seca, sistema rudimentar que não faz uso de argamassa ou qualquer outro material ligante. Consiste na sobreposição de pedras em diferentes tamanhos, mas de espessuras consideráveis para garantir sua estabilidade e tendo seus vazios preenchidos pelas lascas da mesma pedra. Essa técnica contrasta com o padrão construtivo do período colonial, quando era mais comum as construções em pau a pique ou com cal e pedras (Guimarães et al., 2023, p. 10).

Trata-se de uma edificação de três ambientes, somando ao total 205m². Apesar de rudimentar, a construção manteve a preocupação em relação aos fatores externos e em como eles afetariam o local. Paredes largas para uma boa sustentabilidade da estrutura, grandes aberturas proporcionando ventilação cruzada, aberturas menores com proporção e posição estratégica tanto para o escoamento das águas pluviais como para ventilação natural, evitando que as águas que escorressem pela encosta se acumulassem dentro dos ambientes e uma estrutura de cumeeira que pudesse sustentar uma cobertura como proteção de sol e chuva (Guimarães et al., 2023, p. 14).

Quanto a sua finalidade, apesar da robustez da construção, ela não necessariamente foi concebida para fins militares, podendo ter sido a técnica de construção uma adaptação aos materiais disponíveis na região. Na minha opinião, a hipótese mais plausível quanto a sua construção é de que tenha sido feita pelos primeiros colonos portugueses da região, talvez em colaboração com os jesuítas, que entre o final do século XVII e início do século XVIII estabeleceram aldeamentos na região, posteriormente assumidos por padres seculares.

No contexto de conflito entre colonos e indígenas, a opção pela construção fortificada próxima a uma fonte perene de água mostra-se totalmente plausível. Existem sólidos precedentes nesse sentido, segundo Roberto Airon Silva (2010), as casas fortes surgiram como empreendimento de caráter especificamente bélico, na tentativa de anular a resistência indígena na ocupação dos sertões das capitanias do Estado do Brasil, na segunda metade do século XVII até o início do XVIII (Silva, 2010, p.226).

Quem pode ter construído a Casa de Pedra?

Apesar de a origem exata da construção em análise ainda ser um completo mistério, encontrei alguns indícios que podem guiar uma busca futura. O ponto de partida para tanto está na mesma obra a qual iniciei essa postagem, as Notas de Viagem de Antônio Bezerra. Mais adiante no texto, o autor traz o seguinte relato:

Tocávamos a base do mais elevado quando se nos apresentou o Sr. Alexandre da Cunha Freire, morador e possuidor do casebre que se esconde à sombra das grandes árvores ao lado direito do olho-d'água.

Nada soube nos informar com certeza a respeito do construtor da casa de pedras que no entanto pertencera a seu pai, Antônio da Cunha Freire, o qual se finara com idade superior a oitenta anos, havia bem pouco tempo; mas ouvia referir pelos habitantes dos arredores ter sido seu primeiro dono um estrangeiro que ajudado de uma preta velha nela só trabalhava à noite. 

Durante o dia nunca nenhum foi visto no serviço daquele colosso, de sorte que cada manhã aparecia um lanço de parede construída, como por encanto. A preta, dizia ele, constava que era o diabo. Ficamos a pensar [grifo nosso] (Bezerra, 1965, p. 80).

Fiquei curioso com a informação de que as terras nas quais a Casa de Pedra havia sido construída pertencera a Antônio da Cunha Freire, pois, segundo o historiador Renato Braga, esse era o mesmo nome de um dos pioneiros do município de Alcântaras, na Serra da Meruoca, distante apenas 25 km em linha reta de Senador Sá (Braga, 1964, p. 76). Conforme Braga, Antônio da Cunha Freire, juntamente com dois irmãos, teria sido um dos primeiros colonizadores da região, tendo chegado ainda no início do século XIII. Cabe ressaltar ainda que tanto Alcântaras quanto Senador Sá já foram distritos de Massapê (Sampaio, 1972). Isso me sugere que a história dessa construção pode estar diretamente ligada a família Cunha Freire.

Outra fonte de informação é o próprio nome do local, Olho D’água do Pico. Segundo França (2024), na década de 1850, essa propriedade pertenceu a José Camilo Linhares e seus pais, Capitão Joaquim José Alves Linhares e Maria da Purificação de Vasconcelos Linhares. Dessa forma, Camilo é bisneto do Sargento-mor Antônio Álvaro Linhares e Inês Madeira de Vasconcelos (uma das sete irmãs), bem como de José de Araújo Costa e Brites de Vasconcelos (outra das sete irmãs), proprietários do Sítio São José e um dos primeiros povoadores de AlcântarasPelo lado materno, Camilo é bisneto do Capitão-mor José de Xerez Furna Uchoa, que também habitava a Meruoca, em seu sítio Santa Úrsula.

José Camilo era casado com Maria da Cunha Trindade Linhares, filha de José Rodrigues Lima e de Ana Teresa de Jesus (Arruda, 1980, p. 7). Maria era bisneta do Capitão Domingos da Cunha Linhares, cunhado do já mencionado Antônio Álvaro Linhares, um dos primeiros povoadores da Ribeira do Acaraú juntamente com seu tio Félix da Cunha Linhares, que se estabeleceu no Sítio São José da Mutuca (Patriarca, Sobral). Um detalhe curioso é que em seu testamento Domingos da Cunha Linhares assinou como Domingos da Cunha Freire (Araújo, 2005, p. 342).

Félix da Cunha Linhares não teve filhos biológicos, tendo adotado uma menina de nome Albina. Uma parte dos seus bens, inclusive suas terras, foi herdada por seu sobrinho Domingos, que inclusive foi responsável por terminar a construção da capela iniciada por seu tio em 1718. Entre as várias sesmarias que recebeu, uma delas merece destaque. Concedida a 7 de janeiro de 1708, media meia légua (3,3 km) de comprimento por meia de largura nas margens do riacho Cachoeira, que vem do "boqueirão" da Serra da Meruoca e deságua no Rio Acaraú, até confrontar com a Serra da Tucunduba (Sesmarias, Vol. 5, nº 279, p. 70). Ressalta-se aqui que o termo "boqueirão" se refere a um vale entre montanhas, pelas quais escorrem as águas formando o dito riacho.

Estaria a casa de pedra dentro dessa antiga sesmaria? É difícil afirmar. Contudo existem alguns pontos sugestivos. De fato, o Olho D'Água dos Picos fica na borda de uma vale formado pelas serras da Gurgueia (ou Serra Verde) e o Serrote das Bombas, ambas partes integrantes da Meruoca. Nesse vale, há pouco mais de 2 km (0,3 léguas) da Casa de Pedra, corre um rio, hoje denominado Riacho dos Porcos, que após receber diferentes denominações aflui para o Rio Acaraú. Cerca de 20 km a oeste da construção existe atualmente o Riacho Tucunduba, que marca a divisa de Senador Sá e o município de Marco. Esse riacho nasce em um serrote próximo denominado Mucuripe (o mesmo Tucunduba?).

Outro ponto digno de nota é que um ano antes, a 16 de maio de 1707, Félix da Cunha Linhares já havia recebido outra sesmaria de três léguas (19,6 km), por meia de largura, no riacho do Macaco, no rio Acaraú (Sesmarias Vol. 4, nº 225, p. 16). Sobre isso, ainda hoje existe um Riacho próximo a essa região, denominado Macaco, que se liga ao supramencionado Riacho dos Porcos, formando um afluente do Acaraú, o Riacho Aiuá. Ademais, a descrição da sesmaria informa que esta encontrava-se nas ilhargas (lado mais longo do lote) do dito rio Acaraú, começando das testadas (lado mais curto do lote) do suplicante, o Cel. Felix da Cunha Linhares. 

A propriedade a que se refere a descrição, muito provavelmente é sesmaria recebida por Leonardo de Sá em 1702, repassada a Félix da Cunha Linhares como dote pelo casamento com sua filha, onde hoje se encontra o distrito de Patriarca, Sobral. Coincidentemente, ou não, a dita Casa de Pedra encontra-se há 30 km (4,5 léguas), perpendicular ao Rio Acaraú, na altura do referido distrito, portanto, relativamente próxima as outras propriedades do Coronel. Essa área abrange hoje grande parte do município de Massapê.

Quando da lavratura do testamento de Domingos, em 20 de abril de 1768, ele informa que sua filha Maria está casada com o Cap. João Rodrigues Lima com o dote que lhe demos..(Araújo, 2005, p. 340). Esse casal são os avós de Maria da Cunha, esposa de Camilo Linhares. Portanto, haveria um nexo familiar entre Félix da Cunha Linhares e os proprietários da Fazenda Olho D'Água do Pico, que possivelmente também a teriam recebido como presente de casamento de seus antepassados. 

Se aceitarmos essa hipótese, pode a Casa de Pedra de Senador Sá ter sido construída pelo próprio Félix da Cunha Linhares? Mais uma vez, faltam elementos para confirmar ou refutar essa hipótese. A favor dela vem o fato de que Félix, por ser militar, provavelmente era familiarizado com a construção de edifícios fortificados, e considerando o ambiente hostil aos colonizadores das primeiras décadas do século XVIII, ele teria motivos para essa precaução. Essa inclusive foi uma prática comum nesse período em outras partes da capitania, como na Ribeira do Jaguaribe (Da Silva, 2021).

Ademais, Félix da Cunha Linhares participou das primeiras expedições de exploração da Ribeira do Acaraú, sob o comando de seu sogro, Leonardo de Sá. Essas expedições se estenderam até quase a Ibiapaba e resultaram na captura de um significativo número indígenas, os quais foram posteriormente aldeados na Missão dos Reriús, na Meruoca (Documentação Histórica Pernambucana, Sesmarias. Vol. 1, p. 80, Recife,1954). Considerando isso, não é um absurdo imaginar que essa mão de obra poderia ter sido empregada na construção da Casa de Pedra. Sobre isso, o historiador Francisco Reinaldo nos informa que num raio de aproximadamente vinte quilômetros da Casa de Pedra existem vários sítios arqueológicos como Tucuns e Córrego da Onça, ligados as antigas habitações das populações indígenas (Reinaldo, 2023).

Um outro Cunha Freire...

Consultando a grandiosa obra Siará Grande, de Francisco Augusto Lima, que reúne informações sobre os primeiros portugueses a vir para o Ceará, localizei outro "Cunha Freire" que habitou a região, tratava-se de Manoel da Cunha Freire, natural do Bispado do Porto, que casou-se com Francisca Ferreira Passos, natural de Granja, Ceará (Lima, 2016, p. 1743). Sobre isso, cabe esclarecer que Senador Sá encontra-se na divisa dos termos das antigas vilas de Granja e Sobral, sendo que a definição exata desse limite só foi oficializada em meados do século XIX.

A Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, ao tratar do município de Massapê informa que em 1712, Manoel da Cunha Freire requereu em sesmaria, a data da terra "Olho-d'Agua dos Picos", fazendo já naquele tempo menção da existência da "Casa da Pedra" e de um açude que lhe fica ao lado (IBGE, 1959, p. 371). Entretanto, não consegui localizar o registro dessa sesmaria.

Segundo Batista Fontelene, Manoel 

...fixou residência no sertão da Tucunduba, onde adquiriu imensas glebas de boas terras, inclusive cinco léguas por Sesmaria e o restante por compra ao Capitão-Mor João Félix de Carvalho e outros, perfazendo um total de mais de vinte léguas, incluindo nestas seis léguas de terra situadas à margem do Riacho Inhanduba. Seu falecimento ocorreu no ano de 1764, tendo sido sepultado na Capela de Nossa Senhora do Livramento, do Parazinho, da Freguesia de Santa Cruz do Coreaú, hoje Granja [grifo nosso] (Fontelene, 2001, p. 222).

Cabe esclarecer que o Riacho Inhanduba, já no município de Marco, corre paralelo e próximo ao supracitado riacho Tucunduba. O capitão-mor João Félix de Carvalho, destacado sertanista, atuou ativamente na repressão aos povos indígenas da capitania (Barroso, 1958, p. 72). É mencionado como proprietário de terras neste último riacho Tucunduba, como consta na solicitação de sesmaria de Domingos Ferreira Passos, datada de 15 de janeiro de 1733 (Sesmarias Vol. 12, nº 52). Domingos, muito provavelmente é parente de Francisca, mulher de Manoel da Cunha Freire.

Ademais, Fontenele informa que do casamento de Manoel da Cunha Freire e Francisca Ferreira Passos nasceram quatro filhos, dentre os quais Antônio da Cunha Freire (Fontelene, 2001, p. 223). Pelo ano de falecimento de Manoel, é razoável supor que este seja o mesmo Antônio apontado por Renato Braga como sendo o pioneiro de Alcântaras. Entretanto, provavelmente não se trata do antigo proprietário da Casa de Pedra, pai de Alexandre, que pela descrição teria nascido apenas no começo do século XIX.

Sabe-se também que Antônio da Cunha Freire recebeu três léguas de terras de herança Manoel Ferreira Passos, falecido a 1 de maio de 1754, sepultado na Capela da Meruoca. Antônio também é mencionado no testamento de João de Andrade Pessoa (Pessoa Anta), que foi fuzilado a 30 de abril de 1825, como morador do termo de Granja, a quem o defunto devia a quantia de 100 mil réis por obrigação corrente e trinta e seis mais ou menos constantes de huma carta de minha firma tendo de si aberto huma conta de fazendas que mandou dar a seu procurador Manoel Coelho (França, 2024, p. 67).

Portanto, apesar de não ser possível identificar ainda a relação exata de parentesco, é bem provável que os dois Antônio sejam parentes em algum grau. Por fim, não é possível descartar alguma relação de parentesco entre Manoel e Félix da Cunha Linhares. Entretanto, ainda são apenas suposições que merecem estudos mais aprofundados no futuro.

Diego Carneiro

23 de janeiro de 2026

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. A Misteriosa Casa de Pedra de Senador Sá. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 23 de janeiro de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2025/11/a-misteriosa-casa-de-pedra-de-senador-sa.html

Referências

ARRUDA, Francisco de Assis Vasconcelos. Genealogia Sobralense - Os Linhares - Tomo IV. Iomps, 1980.

ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.

BARROSO, Gustavo. Nos bastidores da história do Brazil. Edicões Melhoramentos, 1958.

BEZERRA, Antônio. Notas de viagem. Imprensa Universitária do Ceará, 1965.

BRAGA, Renato. Dicionário geográfico e histórico do Ceará. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1964.

DA SILVA, Rafael Ricarte. Redutos da Conquista: Casas Fortes e Arraiais como estratégia de combate na Capitania do Siará Grande (Século XVIII). Revista de História Bilros: História (s), Sociedade (s) e Cultura (s), v. 9, n. 18, 2021.

FONTENELE, A. Batista. A Marcha do Tempo: Os Fontenele. Fortaleza: SENAI/CE, 2001.

FRANÇA, Mavignier. Guia de Contexto, Pesquisa e Leitura do Primeiro Registro das Terras de Granja Ceará (1854-1857). Coreaú: Associação Memória Salva, 2024.

GUIMARÃES, Beatriz Freire et al. "Casa do Cão: Uma fortificação colonial no município de Senador Sá, Ceará“. Revista Tarairiú, v. 1, n. 23, 2023.

IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Enciclopédia dos municípios brasileiros. Vol. 16. Rio de Janeiro: IBGE, 1959.

REINALDO, Francisco Jameli Oliveira. Manifesto dos Vencidos (1713-1920): Ensaio para uma história alternativa de Massapê. Sobral: Sertão Cult, 2023.

SAMPAIO, Dorian; DA COSTA, Francisco José Lustosa. Anuário do Estado do Ceará. 1972.

SILVA, Roberto Aron. Arqueologia das Casas Fortes: Organização Militar, Território e Guerra na Capitania do Rio Grande do Norte - Século XVII. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais Área de Concentração em Antropologia / Arqueologia, da Universidade Federal da Bahia. 2010.

Os Coelho de Moraes na Ribeira do Acaraú*

A trajetória dos Coelho de Moraes insere-se no processo mais amplo de ocupação colonial do sertão cearense, marcado pela expansão das frentes pastoris, pela concessão de sesmarias e pela consolidação de redes familiares de poder. Felipe Coelho de Moraes, considerado o patriarca da família, chegou à capitania do Ceará em 1654, acompanhado de sua esposa Ana da Costa. De origem pernambucana e com experiência militar, destacou-se desde cedo nas guerras contra os povos indígenas, especialmente os Payacu, Canindé, Jaguaribara, Anacé e Paiacu, recebendo mercês régias e amplas extensões de terra em reconhecimento pelos “serviços prestados à Coroa”.

Em 1666, o capitão-mor João de Melo Gusmão concedeu a Felipe Coelho um regimento para comandar trinta soldados e combater os Payacu estabelecidos na Precabura. Essa ação militar marcou o início de sua ascensão como homem de armas e proprietário de terras. Em 1682, ele e seu irmão Jerônimo Coelho solicitaram formalmente três léguas de sesmaria entre o riacho Caracu e a serra do Maranguape, alegando mais de duas décadas de residência e criação de gado na capitania. As concessões seguintes consolidaram seu domínio sobre vastas áreas entre o Siupé, o Comembé (atual Cambeba) e a serra do Maranguape — terras que se estendiam das proximidades da fortaleza do Ceará até o litoral ocidental.

Felipe Coelho de Moraes e Ana da Costa tiveram vários filhos: Bento, Brás, Pedro de Mendonça, Margarida Maria, Felipe (o moço) e Domingos de Mendonça. Todos deram continuidade ao processo de interiorização da família, expandindo-se em direção à Ribeira do Acaraú e à serra da Meruoca. Bento Coelho de Moraes obteve ao menos seis sesmarias, sendo casado com Vitória Teixeira de Moraes, com quem teve Floriana Coelho de Moraes. Esta casou-se com o português Manoel Pereira Pinto, estabelecendo alianças entre a elite luso-brasileira e os descendentes mestiços locais. Félix Coelho de Moraes, provavelmente irmão de Bento, recebeu sete sesmarias e atuou em campanhas militares contra indígenas, como as de 1725 na serra do Baturité.

Ribeira do Acaraú

A partir de 1705, a família aparece nos registros de sesmarias da Ribeira do Acaraú, quando Manoel Dias de Carvalho e Félix Coelho de Moraes solicitaram terras entre o rio Coreaú e o serrote das Rolas, assim como nas proximidades das aldeias dos Tabajara, na Ibiapaba e dos Rerius, na Meruoca. No ano seguinte, novas concessões beneficiaram Bento e Pedro de Mendonça de Moraes, consolidando a presença dos Coelho e seus aparentados (como os Dias de Carvalho) nas margens dos rios Acaraú, Aracatiaçu e Coreaú. Entre 1700 e 1730, o grupo familiar acumulou dezenas de datas de terras, 21 apenas na ribeira do Acaraú, tornando-se um dos principais clãs proprietários do norte cearense.

Essas posses deram origem a uma rede de fazendas, capelas e povoados. Em parte das terras de Manuel Dias de Carvalho, ergueu-se o templo de Santo Antônio da Mouraria (atual Santo Antônio do Araquém). Já em 1726, Bento Coelho de Moraes e seus descendentes doaram terrenos para a edificação da capela de Santo Antônio da Mucaria, em Olho d’Água do Coreaú, demonstrando a estratégia de legitimação religiosa e social da família.

Os Coelho de Moraes também se destacaram na formação de alianças matrimoniais e militares. Suas filhas e netas casaram-se com oficiais das milícias locais e proprietários de sesmarias vizinhas, como os Pereira Pinto, os Dutra, os Soares Monteiro e os Araújo Cavalcante, entrelaçando as linhagens dominantes do sertão do Acaraú. Essa rede genealógica articulava poder político, prestígio social e controle territorial, sustentando uma elite mestiça, frequentemente identificada nos documentos setecentistas como “mulata” ou “mameluca”, que ascendeu por meio da guerra e da propriedade rural.

Os relatos missionários, contudo, retratam os Coelho de Moraes de modo ambíguo. Em cartas enviadas ao Conselho Ultramarino, padres jesuítas como Antônio de Sousa Leal os acusavam de tiranizar indígenas e brancos, manter concubinato com mulheres nativas e apropriar-se de cativos sem pagar o imposto real. Essas denúncias refletem o embate entre a elite militar-mestiça local e a autoridade eclesiástica, em torno do controle das aldeias e do trabalho indígena.

A descendência de Felipe Coelho se manteve influente até meados do século XVIII, multiplicando as fazendas e casamentos estratégicos. Entre seus netos e bisnetos figuram nomes como Floriana Coelho de Albuquerque, Ana Maria de Albuquerque, Pedro Coelho Pinto de Albuquerque e Joaquim Coelho de Albuquerque, estabelecidos entre o Acaraú e o Coreaú. As gerações seguintes integraram-se à aristocracia rural do norte cearense, participando da formação das vilas de Sobral, Santana do Acaraú, Morrinhos e Marco.

Assim, a trajetória dos Coelho de Moraes na Ribeira do Acaraú reflete o processo de consolidação de uma elite luso-mestiça formada pela conjugação de poder militar, posse da terra e redes de parentesco. Da guerra contra os povos indígenas à fundação de fazendas e capelas, a família desempenhou papel central na colonização do norte do Ceará, constituindo um dos núcleos genealógicos mais extensos e duradouros da região.

*Adaptado de Souza (2015), p. 97-121.

Referências

SOUZA, Raimundo Nonato Rodrigues de. “Minha Riqueza é Fruto do meu Trabalho”: negros de cabedais no Sertão do Acaraú (1709-1822). 2015. 223 f. (Tese Doutorado).

O Bígamo José Luís Pestana*

No mês de janeiro de 1780, o sertão cearense era castigado pelo calor quando, à beira do porto da Barra rio Acaraú, na vila de Sobral, encontrava-se um homem descrito como "de estatura mediana, seco de corpo, rosto comprido, cor alva tirando à loira, cabelo ruivo e fino, com sinais de alporcas no pescoço". Era figura conhecida na região, chamava-se Polinardo Caetano César de Ataíde.

Polinardo observava o desembarque de mercadorias vindas de Recife, tecidos, artigos manufaturados, ouro, prata e escravos, quando já se fechava o cerco sobre sua vida. Há cerca de uma década vivia em Sobral, antiga freguesia da Caiçara, para onde chegara por volta de 1770, após longa viagem a cavalo pelo sertão. Partira do Pajeú, em Pernambuco, atravessara o Riacho do Sangue (Jaguaretama), o rio das Pedras, o Banabuiú e o Quixeramobim, seguindo pela Estrada Nova da Boiada, até alcançar as caatingas de Santa Quitéria e, enfim, a Caiçara. Procurava um local isolado, distante de olhares conhecidos, onde pudesse recomeçar.

Na época, a freguesia contava com cerca de oitenta casas, das quais mais da metade coberta de telhas, e aproximadamente 670 fogos, sendo 105 fazendas de gado. A economia local baseava-se na pecuária, e o povoado fora elevado à condição de vila em 1772, passando a se chamar Vila Distinta e Real de Sobral, cuja criação foi celebrada em 5 de julho de 1773 com a ereção do pelourinho e aclamações ao rei D. José I.

Foi nesse contexto que Polinardo, recém-chegado, ganhou a confiança dos principais fazendeiros da região. De fala mansa, aparência fidalga e conhecimento das leis, aproximou-se de João Pinto de Mesquita, sargento-mor e grande proprietário local, nascido no Minho em 1702, que se fixara no sertão após receber sesmarias nas margens do rio Jucurutu. João Pinto de Mesquita fora juiz ordinário em 1748, 1752, 1760 e 1764, sargento-mor da Cavalaria do Regimento do Acaraú em 1755, comandante-geral da freguesia da Caiçara em 1765 e juiz da Irmandade do Santíssimo Sacramento. Morreu em 1782, deixando vasto patrimônio de terras, escravos e um rebanho de 1.954 animais.

Apresentando-se como Polinardo Caetano César de Ataíde, natural de Lisboa, filho de pais lisboetas e estudante de leis em Coimbra, Polinardo conquistou a confiança do sargento-mor e casou-se, em 1772, na Serra dos Cocos, com D. Izabel Mesquita, filha de João Pinto de Mesquita. Teve com ela três filhos. Declarando-se viúvo e natural de Lisboa, inseriu-se no rol dos homens respeitáveis da região, passou a administrar o dote da esposa e acumulou cargos públicos, fortalecendo sua posição na nova vila.

Antes de Sobral...

O que ninguém sabia era que Polinardo Caetano César de Ataíde era, na verdade, José Luís Pestana, natural do Funchal, na Ilha da Madeira, onde nascera em 1741. Filho de um contratador real que enfrentara dificuldades financeiras, José Luís estudara gramática e cursara quatro anos de Leis na Universidade de Coimbra. Deixando Portugal, veio para o Brasil em viagem de 70 a 80 dias, desembarcando em Recife, em Pernambuco.

No Recife, estabeleceu-se como comerciante, abrindo loja de fazendas na Ponte do Recife, e casou-se, em 2 de abril de 1761, na Igreja de Santa Cruz da Boa Vista, pertencente à Sé de Olinda, com Maria de Nazaré Lopes, filha de Francisco Lopes. Na ocasião, foi chamado pelo nome verdadeiro, José Luís Pestana. Viveu na casa do sogro, sustentado por ele, e teve dois filhos. Contudo, seu gosto pelo jogo e as dívidas acumuladas o levaram à ruína. Após a morte de Francisco Lopes, passou a ser cobrado pelos credores e acabou fugindo de Recife, abandonando a família.

Na fuga, passou pela Bahia, chegou a Salvador, e seguiu para o Sertão do Pajeú, onde tentou novamente se casar. Descoberto pela família da noiva, que soube de seu casamento anterior, sofreu uma tentativa de assassinato e fugiu com a ajuda de um mulato, a quem comprou fiado um cavalo, sela e roupas. Assim iniciou a jornada que o levaria ao Ceará e à vila de Sobral, onde se estabeleceu e recomeçou a vida sob novo nome.

A Denúncia ao Tribunal do Santo Ofício

A partir de 1777, suas antigas relações comerciais o denunciaram. O capitão Manoel da Ressurreição, natural da Paraíba e morador em Recife, reconheceu-o no porto do Acaraú e o identificou como o antigo José Luís Pestana. Comunicou o fato ao cunhado de Polinardo, João Pinto Mesquita, e, posteriormente, ao comissário do Santo Ofício, Joaquim Marques de Araújo, residente em Recife. Também participou da denúncia Vicente da Silva Fialho, comerciante português de Alcobaça, nomeado Familiar do Santo Ofício em 4 de junho de 1776, que atuava entre Recife e Sobral.

Em 13 de maio de 1778, Manoel da Ressurreição formalizou a denúncia de bigamia perante o comissário Joaquim Marques de Araújo. O comissário iniciou as investigações, conforme o Regimento da Inquisição de 1774, buscando as certidões de casamento. Confirmou o primeiro matrimônio de José Luís Pestana, em 1761, e o segundo, celebrado em Sobral por João Ribeiro Pessoa, pároco local e também Familiar do Santo Ofício, habilitado desde 1771.

A partir de 12 de janeiro de 1779, foram ouvidas as testemunhas: José Feliz Barbosa, serigueiro de Recife; Maria de Nazaré Lopes, a primeira esposa; o capitão Thomas da Costa; o capitão Luiz Pereira Brandão, natural de Braga e comerciante com negócios no Acaraú; o sargento-mor Manoel Carneiro Rios, de Iguarassu, Familiar da Inquisição e contratador real do açúcar em Recife; e o capitão João Ferreira Lopes, cunhado de Pestana. Os depoimentos confirmaram que Polinardo vivia maritalmente em Sobral, onde era reconhecido como genro do sargento-mor João Pinto de Mesquita e pai de três filhos, e que sua primeira esposa ainda estava viva em Pernambuco.

Enquanto isso, em Sobral, João Mesquita, irmão de Izabel, também buscava provas. Ajudado por um mulato que reconheceu Polinardo como o homem a quem vendera um cavalo no Pajeú, João Mesquita enviou um amigo a Recife, onde este localizou Maria de Nazaré e confirmou a identidade de Pestana. João Mesquita viajou pessoalmente à cidade, encontrou-se com os cunhados do primeiro casamento e, comparando a letra, o cabelo ruivo e as marcas no pescoço, concluiu que Pestana e Polinardo eram a mesma pessoa.

De volta a Sobral, João Mesquita comunicou o caso ao padre João Ribeiro Pessoa, que escreveu ao comissário Joaquim Marques de Araújo denunciando formalmente o crime de bigamia. Polinardo, ao ser confrontado, negou as acusações, afirmando que era alvo de inveja do cunhado e desafiando-o a provar a existência da primeira esposa.

Em 24 de janeiro de 1780, Polinardo Caetano César de Ataíde foi preso no porto do Acaraú por ordem do Tribunal do Santo Ofício de Lisboa. A denúncia de Manoel da Ressurreição, os testemunhos recolhidos em Recife, as diligências conduzidas pelos Familiares Vicente Fialho e João Ribeiro Pessoa e a atuação do comissário Joaquim Marques de Araújo resultaram em sua captura. Assim, mesmo nas terras distantes do sertão do Ceará, a Inquisição alcançou o homem que um dia fora José Luís Pestana, natural da Ilha da Madeira, comerciante de Recife, fugitivo, bígamo e juiz ordinário da vila de Sobral.

*Adaptado de Vieira Júnior (2014), p. 96-141.

Referências

VIEIRA JR, Antônio Otaviano Vieira Júnior. A inquisição e o sertão. Edições Demócrito Rocha, 2014.