Consoante registra Mons. Sadoc de Araújo, as terras que hoje integram o distrito de João Cordeiro pertenceram originalmente a sesmaria concedida, em 10 de dezembro de 1750, ao Tenente Coronel Manoel Pereira Pinto (1694-1785), medindo três léguas no riacho das Cacimbas que desagua no Riacho das Rolas. Na petição, informa residir na região há 36 anos, ou seja, desde 1714 (Sesmarias, Vol. 7, nº 549, p. 109). Em julho de 1730 ele já havia obtido duas outras concessões na região, pegando um olho d'agua ao pé do morro das Rolas nas proximidades de suas terras, e outra que recebeu como dote do seu sogro, Capitão Bento Coelho de Morais há mais de 15 anos [~1714] (Sesmarias, Vol. 12, nº 8 e 9, p. 11-13).
Pereira Pinto, nascido na Freguesia de São Martinho de Cedofeita, Porto, era casado com Floriana Coelho de Morais, filha de Bento Coelho de Morais e Vitória Teixeira (Lima, 2016, p. 1992). Essa terra provavelmente integra a data de sesmaria obtida por Bento Coelho em 12 de agosto de 1706, juntamente com João Mis Barradas, na Ribeira do Acaraú (Sesmarias, Vol. 3, nº 134, p. 5). Uma das filhas de Pereira Pinto, Maria da Assunção Pereira, casada com Hilário Pereira Cordeiro, declarou em 1788 a Câmara de Sobral ser proprietária de uma fazenda no Riacho das Rolas com a seguinte descrição:
"Três quartas de terra de comprido, no dito sitio com meia légua de largo para uma só banda do denominado riacho, que principia nas testadas das terras dos herdeiros do defunto Cláudio de Sá Amaral e finda com terras dos herdeiros do defunto seu pai Manoel Pereira Pinto" (Frota, 1974, p. 325).
As terras de Claudio de Sá correspondem a aproximadamente onde hoje está edificado a sede municipal de Santana do Acaraú. Também declararam terras no Riacho das Rolas em 1788: José Rodrigues Pantoja (p. 299), José Antônio Pinto, neto de Manoel Pereira Pinto (p. 335) e Pantaleão Pereira (p. 327).
O local da Vila de João Cordeiro deriva da primitiva Fazenda Serrote, que pertenceu ao Ajudante Manoel Carneiro da Costa (Girão, 1983, p. 305). Em 1788, Carneiro da Costa declarou possuir a Fazenda Serrote medindo "duas léguas de terra de comprido por uma só banda do Riacho das Rolas que principia com terras do Capitão Antônio Coelho de Albuquerque [Fazenda Baia, hoje distrito de Santana] e finda com terras do Tenente Ignácio da Cunha Araújo" (Frota, 1974, p. 325).
Em 21 de fevereiro de 1857, na Fazenda Curral Grande, Antônio da Costa Carneiro declarou pertencer aos seus filhos uma posse de terra na Fazenda Serrote (Livro de Terras da Freguesia de Santana, nº 449, fl. 50v.). O Capitão Antônio Carneiro da Costa era filho do Ajudante Manoel Carneiro da Costa, de quem possivelmente herdou a Fazenda Serrote. Casou-se com Ana Bezerra de Araújo, filha de Inácio Bezerra de Meneses e Maria Madalena de Sá, em 21 de setembro de 1797, sendo pais de nove filhos conhecidos. Mas Ana Bezerra faleceu em 1823 e Antônio casou-se novamente, com Luísa Araújo Costa, filha de Custódio da Costa Araújo e Bárbara Maria da Soledade, com quem teve mais três filhos.
A Capela do Serrote
Capela de Nossa Senhora de Fátima, situada na localidade de Serrote, sede do distrito de João Cordeiro, teve sua construção iniciada em 1956, por iniciativa de Antônio Rios, proprietário de terras na região e descrito como um católico devoto e dedicado à religião. A história da edificação foi registrada em versos por Luís Júnior de Farias, conhecido como “O Juniôr”, morador de Sapó de Baixo que, durante muitos anos, atuou voluntariamente como celebrante em Serrote. Seu poema, intitulado Construção da Capela da Serrote, foi escrito em 2 de setembro de 2006 (Gomes, 2011).
Segundo o relato poético, Antônio Rios teria procurado vigário de Santana do Acaraú, padre Joviniano Loiola Sampaio, a quem apresentou a intenção de construir o templo. O sacerdote acolheu favoravelmente a proposta e divulgou a iniciativa entre os paroquianos, dando início à campanha para a realização da obra. Antônio Rios assumiu papel central na organização dos trabalhos, dedicando tempo e esforços ao empreendimento. Entre suas primeiras providências, instalou uma olaria destinada à fabricação de tijolos e telhas e providenciou o transporte de madeiras provenientes de lugares distantes. Paralelamente, mobilizou amigos e conhecidos em busca de auxílio financeiro e organizou leilões para arrecadar recursos. Destaca-se a participação do Sr. Caetano Xavier.
O sacerdote, acompanhado de um oficial e mediante autorização do bispo diocesano, dirigiu-se à localidade para demarcar o terreno e estabelecer a implantação do novo templo. De acordo com os versos de Luís Júnior de Farias, esse ato ocorreu em 17 de agosto de 1956. Em setembro daquele ano, os oficiais responsáveis pelos trabalhos assentaram a primeira pedra do edifício, tendo Nossa Senhora de Fátima sido escolhida como padroeira. O templo foi projetado com nove metros de largura e vinte metros de comprimento. Inicialmente, foram executados os alicerces, seguidos pela elevação das paredes, em uma obra que mobilizou trabalhadores e contou com o acompanhamento do padre e a participação da população local.
Conforme a cronologia apresentada no poema, no final de 1956 a construção já se encontrava praticamente concluída. A cerimônia de inauguração ocorreu em 1º de janeiro de 1957, data descrita como um momento de grande alegria para a população de Serrote. Pessoas provenientes de diferentes lugares deslocaram-se até a capela a pé, em carros e montadas em animais. O poema estima que mais de mil pessoas se reuniram no local para participar das solenidades. Junior descreve a ocasião:
Após a inauguração, a capela passou a constituir um espaço permanente de devoção a Nossa Senhora de Fátima em Serrote.
A Criação do Distrito
Poucos anos após a inauguração da igreja, em 27 de dezembro de 1963, é criado o Distrito de João Cordeiro, em homenagem ao ilustre abolicionista santanense, pela Lei n.º 7022, com sede na povoação de Serrote (Girão, 1983, p. 304). João Cordeiro nasceu em 31 de agosto de 1842, em Santana do Acaraú, filho de João Cordeiro da Costa e Floriana Angélica de Vera Cruz Cordeiro. Neto paterno de Antônio da Costa Cordeiro e Rita Maria da Conceição e, neto materno de Tomás Pereira Dutra e Mariana Angélica de Vera Cruz.
Iniciou sua trajetória profissional no comércio, trabalhando nas firmas de Severino Ribeiro da Cunha & Irmão, em Fortaleza e Mossoró, no Rio Grande do Norte, antes de estabelecer sua própria empresa, a J. Cordeiro & Cia. Alcançou destaque na vida econômica cearense, exercendo a direção da Associação Comercial do Ceará entre 1872 e 1877, sua presidência no biênio 1877–1878 e a presidência da Junta Comercial em 1884. Também dirigiu a Caixa Econômica provincial em 1875 e, durante a seca de 1877–1879, foi nomeado para atuar no serviço de socorro público à população atingida pela calamidade.
Na vida parlamentar, João Cordeiro representou o Ceará no Senado Federal entre 1892 e 1905, participando de comissões relacionadas ao comércio, à agricultura, à indústria e às obras públicas. Posteriormente, foi eleito deputado federal, exercendo mandatos a partir de 1906. Em 1910, renunciou ao mandato parlamentar para assumir um cargo administrativo no Departamento do Alto Juruá, no Acre, conforme o registro biográfico da Câmara dos Deputados. João Cordeiro faleceu em Fortaleza, em 12 de maio de 1931 (Girão, 1992, p. 67-68; Souza, 1968, p. 31; Studart, 1910, p. 429-430).
A Fazenda Pau Caído
Dentre as diversas propriedades resultantes do desmembramento da Fazenda Serrote, destaca-se por sua documentação a Fazenda Pau Caído. Ela é referida no livro Crônica da Casa dos Carneiros, escrito por Manoel de Castro Carneiro em 1979. No Livro de Terras da Freguesia de Santana 1857-1859, constam como proprietários da Fazenda Pau Caído: Manoel Teles de Menezes, Porfírio Carneiro da Costa, Antônio Teles de Menezes e Francisco José de Menezes. São descendentes do casal José Carneiro da Costa, filho do Ajudante Manoel Carneiro da Costa, e Ana Teodora de Menezes.
A sede da fazenda, atual localidade de Pau Caído, ao que tudo indica, permaneceu com o Tenente Porfírio Carneiro da Costa, que em 7 de janeiro de 1845 casou-se com Maria Teresa de Araújo, sendo pais de Martiniano Carneiro da Costa, avô do mencionado autor. O topônimo já era empregado em 1772, quando, em 20 de maio, nasceu ali José Mariano de Albuquerque Cavalcante, filho do Cap. Antônio Coelho de Albuquerque e Maria da Conceição do Bonfim. Mariano foi o quinto Presidente do Ceará, tendo governado também as províncias de Santa Catarina e Sergipe (Araújo, 2005, p. 357-358). Conforme o memorialista Manoel de Castro Carneiro traz a seguinte explicação para o topônimo Pau Caído:
"há muitos e muitos anos, quando os campos eram imensos e sem dono, ou pelo menos sem muitos donos, por ali, às margens do valente riacho Cacimbas, corriam os vaqueiros nas suas loucas tropeladas à cata dos barbatões. E num desses dias, depois de luta incessante atrás do marrudo novilhote, conseguiram laçá-lo já quase noite, Pressentindo que não alcançariam o destino ainda com o claro do dia, mascararam e entamancaram o bicho, amarrando-o em seguida num enorme pau caído. Ao chegarem em casa informaram ao patrão, o legendário Ajudante Carneiro, que o bicho ficara preso perto do riacho Cacimbas, num morrote onde havia um grande pau caído. E a referência ficou. E foi aí, no mesmo lugar onde amarraram a barbatão que meu trisavô ou antes dele seu paí ou seu avô, fincaram a sua tenda" (Carneiro, 1979, p. XII-XIII).
A casa-grande da fazenda foi reconstruída em 1845, provavelmente por Porfírio, substituindo uma residência anterior que apresentava sinais de envelhecimento. Edificada com tijolos, cal e carnaúba, tornou-se o núcleo da propriedade, que contava também com armazém, dois açudes e instalações relacionadas à criação de animais e à produção agrícola. Ainda segundo o autor, o açude menor teria sido escavado por trabalhadores escravizados (Carneiro, 1979, p. 5).
Entre os marcos da paisagem estavam um antigo tamarindeiro, uma carnaubeira que, segundo a memória familiar, foi plantada em 22 de novembro de 1883, dia do nascimento de Zacarias Carneiro, pai do autor, e uma cruz de madeira situada no caminho para Lagoa Seca. No final do século XIX e início do XX, Martiniano Carneiro da Costa, filho de Porfirio e avô do memorialista, destacou-se como patriarca e administrador da propriedade, cuja economia era baseada principalmente na pecuária e na agricultura.
Existe uma história curiosa envolvendo Manoel de Castro Carneiro, o autor do livro supramencionado. Em 1933, quando tinha apenas 14 anos, ele desenhou um altar na casa de seu tio Francisco Carneiro (1890-1935), na Fazenda Carnaúbas. Quase 50 anos depois, em 1980, pela ocasião do casamento de Manoel Carneiro de Casto Junior (Dr. Carneirinho), filho de Manoel, a família decidiu preservar a pintura. Para tanto, recortam a parede onde foi feita e levaram-na até a região Pau Caído, construindo ao seu redor uma capela. Infelizmente, a capela encontra-se em total abandono já há muitos anos (AmicsTV, 2025).
A Igreja Abandonada de Bartolomeu
A Igreja do Sagrado Coração de Jesus, localizada em Bartolomeu, no distrito de João Cordeiro, município de Santana do Acaraú, constitui um marco da história religiosa local. Visível a partir da estrada que dá acesso a localidade, o edifício ficou conhecido na imprensa como a Igreja Perdida de Santana do Acaraú em razão do prolongado período em que permaneceu fechada, em estado de abandono. Além disso, a construção chama atenção por sua imponência e arquitetura de inspiração gótica e pé-direito superior a dezesseis metros.

Conforme o radialista Edwalcyr Santos, a obra teria sido uma iniciativa do empresário Mariano Liberato Damasceno (1902-1975), proprietário da maior parte das terras de Bartolomeu, que mobilizou os moradores para construir um templo dedicado ao Sagrado Coração de Jesus. Para tanto, comunidade levantou doações e organizou leilões para arrecadar recursos destinados à obra (Santos, 2021). Uma moradora local, identificada como Dona Mírian, informou que os participantes doaram vacas, bens destinados a prendas de leilão e outros itens para contribuir com a construção (Santana do Acaraú, 2013).
Além disso, os próprios moradores também participaram da fabricação dos materiais de construção: tijolos e telhas eram produzidos no local e depois empregados na edificação do templo. Entre as pessoas envolvidas nesse trabalho, os moradores recordam de Chico Torrado, Gerardo Duarte e Luiz Duarte. A construção do templo teria iniciado no ano de 1951, ficando concluída apenas doze anos depois, em 1963 (Santos, 2021). Entretanto, mesmo antes de sua conclusão, o local já era utilizado para a realização de atividades religiosas, como missas, casamentos, batizados e outras celebrações, pelo menos desde o ano de 1959. Nos meses de junho e julho eram realizados os festejos em honra ao Sagrado Coração de Jesus.
O Fechamento da Igreja
Mas a história da localidade e do templo sofreria um revés no início da década de 1970, quando o Sr. Mariano Damasceno, já idoso e sem condições de continuar administrando a fazenda, decidiu vender suas terras ao empresário sobralense Plínio Carneiro Liberato e sua esposa, D. Maria Júlia Dias. Ainda conforme Edwalcyr Santos, Mariano não teria realizado o desmembramento do terreno onde a igreja foi construída, ficando a doação baseada apenas em um acordo verbal. Entretanto, após a morte de Mariano, o novo proprietário cercou a área que incluía a igreja, restringindo o acesso dos moradores ao templo (Santos, 2021).
Outra versão, publicada em 2013 pelo portal Nas Ruas de Sobral, sugere que quando Plínio decidiu cercar a igreja, esta já se encontrava em mal estado de conservação o que os informantes interpretaram como falta de fé católica dos moradores. A reportagem ainda associa a decisão a uma suposta mudança de religião do proprietário. Essas afirmações são atribuídas a informantes locais, segundo os quais, o proprietário teria oferecido a desapropriação pelo valor de R$ 90.000,00, enquanto a prefeitura, durante a gestão do então prefeito José Aldenir Farias, teria oferecido R$ 10.000,00 para ajudar a efetuar o pagamento (Santana do Acaraú, 2013).
Tombamento e Restauração
Ao menos desde a década de 1990, a comunidade católica de João Cordeiro tentava reaver o acesso a igreja. Nem a paróquia de Santana, nem o poder público, a época, conseguiram chegar a um acordo por falta de recursos. Assim em meio ao impasse, e após tentativas frustradas de reativar o templo, a professora Delci Carneiro reuniu-se com outros moradores e participou da construção de uma capela menor, dedicada a Mãe Rainha, destinada a atender a comunidade local (Souza, 2014).
Em 2011, o vereador Edinardo Uchoa Costa Filho apresentou um projeto de lei voltado ao tombamento histórico e cultural de diversos prédios do município, incluindo a Igreja do Sagrado Coração de Jesus. A questão foi levada ao Judiciário e originou o processo nº 0004421-76.2012.8.06.0161, no Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, em que figuram o Município de Santana do Acaraú e Plínio Carneiro Liberato e Maria Júlia Dias Liberato (TJCE, 2023).
Enquanto a ação tramitava, no início de 2021, o então prefeito Francisco das Chagas Mendes, conhecido como “Meu Deus”, visitou o terreno acompanhado de Plínio Liberato. Na ocasião, demarcaram a área correspondente ao espaço da igreja segundo o projeto atribuído a Mariano Damasceno, com superfície total de 4.808 metros quadrados. Em 1º de abril de 2021, foi registrada no cartório municipal a matrícula nº 3.140, Livro 2, Registro Geral, referente a esse terreno. O documento identifica Plínio Carneiro Liberato e Maria Júlia Dias Liberato entre os antigos proprietários e associa a transferência ao processo judicial nº 0004421-76.2012.8.06.0161. Faz referência ainda a assentamento anterior identificado como AV 10-103, Livro 2-A, o que indica uma etapa prévia na cadeia documental do imóvel (Santana do Acaraú, 2021).
A transferência da propriedade para o município permitiu que a recuperação do templo avançasse. A reinauguração efetivamente documentada ocorreu em 23 de julho de 2022, durante as festividades relacionadas à Festa de Senhora Sant'Ana. No dia 30 de junho daquele ano, a prefeitura havia divulgado a programação da missa inaugural e da Cavalgada Dr. Luciano Arruda Coelho, prevista para 23 de julho. A notícia diocesana publicada no Correio da Semana em 31 de julho de 2022 confirmou a realização da cerimônia naquela data (Correio da Semana, 2022).
A matéria registra a presença do padre Raimundo Nonato Leonardo Bastos, identificado em associação à cidade de Santana do Acaraú; da então governadora do Ceará, Maria Izolda Cela; do prefeito municipal, Francisco das Chagas Mendes; e da primeira-dama municipal, Katia Gislaine Ferreira Mesquita. Também estiveram presentes deputados, vereadores, secretários e grande número de fiéis.
Lendas e Crenças Populares
Como em outras postagens, trarei aqui um pouco das lendas que permeiam o imaginário popular em Santana do Acaraú. Sem sombra de dúvida, o ponto místico de convergência dos relatos fantásticos da região giram principalmente em torno do Serrote das Rolas ou Serrote do Olho d'água, elevação que se destaca na paisagem como um marco de referência e orientação. Um levantamento de relatos sobre as lendas locais foi feito pelo pesquisador Igo Braga, disponibilizado em seu blog. Segundo o autor, essas histórias, que resumirei a seguir, foram coletadas com moradores de regiões próximas aos locais mencionados, escritas entre os anos de 2009 a 2011.

Os relatos, assim como em outras regiões, envolvem frequentemente a presença de sons e luzes inexplicáveis. Uma região de particular interesse é a chamada Pedra do Letreiro, que traz um rico conjunto de pinturas rupestres, vestígios da presença indígena na região. Os moradores próximos trazem uma série de relatos sobre luzes misteriosas que apareceriam nesse local, assim como especulações sobre o significado dessas inscrições. Uma dessas lendas afirma que existiria uma cidade secreta no serrote, cujo acesso seria, de alguma maneira, indicado pela inscrições.
É notável a semelhança dos relatos com outras lendas de cidades encantadas trazidas por nós em outra postagem, referente a região da Tatajuba. Igo Braga nos informa ainda que pinturas como estas existem em outros locais de Santana, como nas cachoeiras do açude carnaúbas e na localidade de Ipueirinha. Nessa última localidade, está situado o chamado Serrote Branco, onde também foram registrados relatos dos moradores envolvendo a escuta vozes misteriosas, aparições e sons que descrevem como semelhantes a um tambor.
Mas a história mais curiosa trazida por Braga sobre o Serrote Branco envolve supostas covas que teriam sido encontrados por um antigo proprietário de terras. Segundo o relato, o proprietário teria desenterrado certo número de espadas antigas de um desses buracos, cujo paradeiro é ignorado. Alguns moradores acreditam que tais valas seriam o local onde os donos de escravos depositavam os corpos de cativos que morriam, ou que eram por eles assassinados. Indicam também a existência de uma "pedra dos escravos", local onde os escravos seriam levados para serem castigados por seus donos.
Uma figura sui generis, mencionada por Braga é o tal Vicente Mocozeiro, um eremita que residia em uma caverna no Serrote das Rolas. Talvez indígena, talvez escravizado, sua origem é incerta. Dizem que era caçador (de mocós?) e que negociava na sede do município os animais abatidos. Quase autossuficiente, rondam entre os moradores a lenda de que teria acumulado considerável quantia, que manteve enterrada em um botija. Essa prática de enterrar dinheiro também é corrente no imaginário da região.
Outro conjunto de lendas tratam de figuras femininas. Esse é o caso do chamado "Olho d'água da Visagem", um aquífero situado na propriedade de Sr. João Batista Ponte, ao pé do Serrote das Rolas. Segundo o relato, algumas pessoas que iam à fonte para lavar roupas ou tomar banho avistaram um vulto que aparentava ser de uma mulher, sentada à beira do olho d'água penteando os cabelos e cantando. Quando ela sentia a presença das pessoas se aproximando saia correndo em direção as pedras e desaparecia.
Também próximo a Pedra do Letreiro, existe uma caverna em torno da qual existe outra figura mítica feminina, como descreve o autor:
A lenda conta que: quando as pessoas entram na caverna do nada uma enorme sala repleta de lindas armas começa aparecer e aos poucos a Meia Mulher também vai aparecendo, sempre ela aparece só da cintura pra cima, por esse motivo foi batizada Meia Mulher. Quando a pessoa chega perto ela pede para parar e faz algumas perguntas, depois pede para que a pessoa escolha a arma, se a armar escolhida for a certa o restante do seu corpo aparece e ela revela todos os segredos do serrote e entrega sua riqueza. Ao escolher a armar ela ainda pede para que saia da caverna e deixa bem claro que se a armar escolhida for à errada a pessoa não pode e não deve contar para ninguém o que tinha acontecido. Se a escolhida for à errada quando as pessoas chegam fora da caverna a armar se transforma num pedaço de pau seco, alguns ainda voltavam novamente para dentro, mas não viam mais nada (Braga, 2011).
Mais uma vez, existe certa semelhança entre essa lenda e outra que tratamos na postagem sobre o morro de Jericoacoara. Essa tradição de figuras femininas em contextos lendários dialoga diretamente com as lendas ibéricas envolvendo o chamado ciclo das mouras, como destaca o folclorista Câmara Cascudo.
Por fim, Braga traz duas histórias envolvendo a religiosidade popular. A primeira delas diz respeito a chamada "Cruzinha da Liduina", um túmulo de estrada, localizado na região de Equitós, também na zona rural de Santana do Acaraú. Em 11 de janeiro de 1972, essa mulher de nome Liduína estava gravemente enferma e a família teria decidido transportá-la em uma rede para um local onde pudesse receber tratamento médico. Entretanto, infelizmente, ela acabou por falecer durante o trajeto, sendo sepultada na beira da estrada. Em função da morte trágica, algumas pessoas começaram a frequentar o túmulo e a fazer e pagar promessas para ela. Segundo os relatos, foram realizadas verdadeiras romarias até a Cruzinha, e uma missa foi, inclusive, celebrada no local. A estrada em questão, que levava a comunidade, não existe mais, tendo sido tomada pelo mato.
Finalmente, ainda na linha da religiosidade popular, Braga traz uma história, de certa forma, cômica. Conforme o autor, num passado não determinado, dois jovens que trabalhavam numa olaria em Santana do Acaraú tiveram a ideia de fazer um boneco de barro para enfeitar a olaria, o qual batizaram de "Piçarra", em referência ao material de que era feito. Mas depois de algum tempo ocorreu uma enchente que atingiu o local onde os jovens trabalhavam e Piçarra foi levado pelas águas. Passados alguns dias, moradores da região encontraram o dito boneco de barro, que acreditaram se tratar de um Santo. Fizeram então um altar na beira da estrada, onde o colocaram. O santuário ganhou enfeites e passou a ser bastante frequentado pelas pessoas da região, onde muitos realizavam romarias e iam rezar e fazer promessas.
Certo dia os jovens que fizeram o boneco passaram pelo local e viram aquelas pessoas orando no pé do altar, para o Piçarra. Comentaram entre eles: “olha fulano onde está o Piçarra sendo Santo, agora ele é um Santo”. Mas eles, por um bom tempo, não falaram nada para ninguém. Mas a verdade aos pouco foi surgindo e as pessoas descobrindo a verdadeira origem daquele boneco de barro foram perdendo a fé e deixaram de frequentar o oratório do Santo Piçarra, que chegou a desaparecer misteriosamente, mas sua estória é lembrada na tradição oral.
Referências
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ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Cronologia Sobralense- Séculos XVII e XVIII- 1604-1800. 2ª edição. Volume 1/ Fortaleza: Edições ECOA, 2005.
BRAGA, Igo. Blog do Igo Braga. 2011. Disponível em: https://igobragaprodutorcultural.blogspot.com/. Acesso em: 18 out. 2026.
CORREIO DA SEMANA. Igreja perdida do Bartolomeu é revitalizada em Santana do Acaraú. Sobral, 31 jul. 2022. Disponível em: https://correiodasemana.com/site/igreja-perdida-do-bartolomeu-e-revitalizada-em-santana-do-acarau/. Acesso em: 12 out. 2026.
FROTA, Luciara S. Aragão (Org). Estudo sobre o Remanejamento da Pecuária na Zona Norte do Ceará. Fortaleza: SUDEC, 1974, 2 volumes.
GOMES, Fabio. Testemunho da fé, boa vontade e esperança de um povo. Fabio Gomes – Santana do Acaraú, 6 dez. 2011. Disponível em: https://fabiosantanadoacarau.blogspot.com/2011/12/testemunho-da-fe-boa-vontade-e.html. Acesso em: 14 out. 2026.
CARNEIRO, Manoel de Castro. Crônica da Casa dos Carneiros. Rio de Janeiro, 1979.
GIRÃO, Valdelice Carneiro. O Ceará no Senado Federal. Brasília, DF: Senado Federal, Centro Gráfico, 1992.
GIRÃO, Raimundo. Os municípios cearenses e seus distritos. Estado do Ceará, Secretaria de Planejamento e Coordenação, Superintendência do Desenvolvimento do Estado do Ceará, Departamento de Recursos Naturais, 1983.
LIMA, Francisco Augusto de Araújo. Siará grande: uma província portuguesa no Nordeste oriental do Brasil. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2016.
SANTANA DO ACARAÚ/CE: conheça a igreja perdida na comunidade de Bartolomeu. Nas Ruas de Sobral, 11 out. 2013. Disponível em: https://nasruassobral.blogspot.com/2013/10/santana-do-acarauce-conheca-igreja.html. Acesso em: 12 out. 2026.
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