Abrirei agora um parêntese para apresentar um personagem que teve relevante participação nos primórdios da formação de diversos municípios cearenses, entre os quais alguns da Ribeira do Acaraú, como Santana, Marco e Bela Cruz. Me refiro ao missionário capuchinho Frei Vidal da Penha.
Oriundo da província de São José de Leonise, Itália, o missionário Frei Vidal de Frescollero ou Vitale de Frescorello teria vindo ao Brasil numa leva de italianos que aportaram em Pernambuco após a primeira metade do século XVIII, quando ingressou no Convento de Nossa Senhora da Penha, no Recife, adotando o nome ritualístico de Frei Vidal da Penha, pelo qual é mais conhecido. Realizou missões pelo interior dos estados da Bahia, Pernambuco e Ceará entre o final do século XVIII e início do XIX.
Em uma dessas missões, Frei Vidal teria chegado ao Ceará por Fortaleza em dezembro de 1796, como conta João Brígido, em sua obra “Ceará, Homens e Fatos” (Santos, 1919, p. 426). Nas chamadas visitas de desobriga, o missionário visitava áreas rurais para levar sacramentos aos fiéis que vivem longe da igreja, celebrando missas e administrando outros sacramentos como batismos e casamentos.
Essas missões normalmente duravam de 10 a 12 dias, podendo em alguns casos ser abreviadas para apenas cinco. Não se tratava de uma viagem planejada, o missionário deslocava-se à medida que recebia convites, normalmente do capitão da vila, do capelão ou de algum fazendeiro rico, que deveria oferecer alimentação e hospedagem à comitiva (Souza, 1994, p.55).
Segundo o professor Eduardo Hoornaert, existia grande apego do povo às missões, sendo que algumas vezes quando o missionário se deslocava para uma nova missão, distante até três dias de viagem da anterior, as pessoas o acompanhava a pé ou de cavalo, cantando ladainhas e benditos (Souza, 1994, p. 56).
Dessa forma, de Fortaleza Frei Vidal teria rumado para o interior do estado, com evidências de que esteve em Canindé no ano de 1797. De lá provavelmente seguiu em direção a Santa Cruz de Uruburetama, onde hoje se localiza o município Itapajé, no qual, cumprindo um ritual em sua passagem, afixou um cruzeiro no local em que, posteriormente, foi construída a Capela de Nossa Senhora da Penha, nome inicial do povoado, que se formou nas imediações do templo (Montenegro, 2023, p. 522).
Ainda no ano de 1797, em setembro, percorrendo um caminho que contorna a serra de Uruburetama, Frei Vidal chega a Ribeira do Acaraú, em Sobral, na época Caiçara, onde já havia estado anteriormente, em 1785. Lá também deixou um cruzeiro de madeira de cedro medindo aproximadamente dois palmos (46 cm) em cada face e vinte (4,6 m) de altura em um pedestal de pedras toscas, referido como Cruz das Almas (Sousa, 1934, p. 119–120; Cavalcante, 1909, p.165). Esse cruzeiro permaneceu no local que hoje se encontra o Arco Nossa Senhora de Fátima até o ano de 1929 (Girão e Soares, 1997, p. 58). Durante a estadia em Sobral, em setembro de 1797, também teria realizado uma visita de 20 dias à serra da Meruoca (Aragão, 1999, p. 51).
Cruz da Almas, Sobral, pré-1929
De Sobral, Frei Vidal segue provavelmente para uma visita às capelas existentes ao longo da ribeira, percorrendo as estradas de boiadas que margeavam o rio Acaraú (Souza, 1994, p. 56). Foi ao redor dessas estradas que se desenvolveram as fazendas agropastoris (Avelino, 2020, p. 32). Esse trajeto era normalmente realizado a cavalo ou carro de boi. D. José Tupinambá da Frota nos informa que nessa época havia um trânsito intenso entre a cidade de Sobral e o porto de Acaraú, sendo que ao menos 900 carros de boi trafegavam continuamente entre esses locais nos meses de verão (Frota, 1974, p. 31).
Segundo a tradição popular, são atribuídas a Frei Vidal várias profecias, como que teria realizado na vila de Sant’Anna, atual Santana do Acaraú, segundo a qual esta cidade e as vizinhas seriam inundadas pelo desmoronamento de um açude que viria a ser construído no rio Acaraú, em provável referência ao açude Araras. Um fato peculiar de suas profecias é que geralmente faziam referência a animais marinhos como tubarões e uma baleia, que segundo ele vivia adormecida sob as cidades da região e cujos movimentos seriam responsáveis pelo rompimento da dita represa.
Finalmente, no ano de 1798, Frei Vidal teria chegado ao povoado de Santa Cruz, anteriormente denominado Alto da Genoveva, coordenando a transferência da capela para sua localização atual, ao redor da qual a cidade se desenvolveu (Araújo, 1990, p. 31).
Estradas de gado do Ceará no Sec. XVIII. Adaptado de Dantas (2000).
O missionário capuchinho teria ficado cerca de um mês em Bela Cruz, seguindo viagem para a Serra da Ibiapaba, onde protestou contra os sambas e toque de viola, ordenando a destruição dos instrumentos (Araújo, 1967, p. 51; Sousa, 1934, p. 118). De lá teria ido para Independência, no vale do Crateús, onde hospedou-se na fazenda que pertencia então a José Ferreira de Melo e lhe sugeriu a construção de uma capela, dedicada à Senhora de Sant’Ana, a qual foi edificada anos mais tarde, em 1810 (Montenegro, 2023, p. 472).
Já em Pereiro, na região sul do Ceará, também ergueu um cruzeiro e rezou uma missa no dia 27 de outubro de 1798 (Silveira et al., 2022, p. 17). Finalmente, em 1799 chegou a atual cidade de Jardim, no extremo sul do estado, de onde provavelmente seguiu de volta para Pernambuco (Montenegro, 2023, p. 35).
Diego Carneiro
31 de julho de 2025
ARAGÃO. Jarbas Cavalcante de. Colonização do Nordeste: Os Ximenes de Aragão no Ceará. Rio-Guanabara: Editora Laudes S/A, 1969
ARAÚJO, Nicodemos. Cronologia de Bela Cruz. Acaraú, 1990.
ARAÚJO, Nicodemos. Bela Cruz: de prédio rústico a cidade, 1730-1967. Edições A Fortaleza, 1967.
AVELINO, Fábio Júnior. Ocupação Colonial e Escravidão Negra nas terras que hoje fazem parte do Município de Morrinhos (1725-1889). Monografia. Sobral: Universidade Vale do Acaraú, 2020.
CAVALCANTE, José Vicente Franca. Notas para a História de Sobral. Revista do Instituto do Ceará, v. 23, p. 160-78, 1909.
FROTA, D. José Tupinambá da Frota. História de Sobral. Fortaleza: Editora Henriqueta Galeno, 1974.
GIRÃO, Glória Giovana S. Mont'Alverne; SOARES, Maria Norma Maia. Sobral: história e vida. 1997.
MONTENEGRO, Seridião Correia. Perfil Histório, Geográfico e Antropológico dos Municípios do Ceará, Tomos I e II. Fortaleza: INESP, 2023.
SANTOS, João Brígido dos. Ceará: homens e fatos. Fortaleza: F. Demócrito Rocha, v. 560, 1919.
SILVEIRA, Edneide Alves Moura; DE OLIVEIRA, Maria Gracilene; MOURA, Maria Jacsonilma Lima. A Reconstrução do Cruzeiro na Cidade de Pereiro-Ce. AYA Editora, 2022.
SOUSA, Eusebio de. Pela História do Ceará: I – No tempo de Frei Vidal... Revista do Instituto do Ceará, p. 115-33, 1934.











