A Expedição de Pero Coelho de Sousa na Ibiapaba


Em junho de 1603, Pero Coelho de Sousa, então residente na Paraíba e portador da patente de capitão-mor, partiu por terra para a conquista do Ceará, acompanhado por uma bandeira de cerca de 65 soldados, todos gente do sertão, mamelucos, tangos maus e homiziados, e mais de 200 indígenas, enquanto os mantimentos seguiram pelo mar em três embarcações. Entre eles estavam Manoel de Miranda, Martim Soares Moreno, Simão Nunes, João Cida, João Vaz Tataperica, Pedro Cangatan e Tuimmirim (francês), bem como os principais Mandiopuba, Batatam, Caragatini, tabajaras e Garaguinguira, potiguar. Trazia, entre outras, as seguintes determinações do governador de Pernambuco, Diogo Botelho:

[...] por meios lícitos, dilatar-se-á nossa santa fé católica e impedir-se o comercio de estrangeiros, que contra pazes capituladas e fora de obediência de seu rei, vem a portos deste estado [...]

-fará povoação e fortes nos lugares ou portos que melhores lhe parecerem, procurando a amizade dos índios, oferecendo-lhes paz e a lei evangélica, sem os induzir nem prometer coisa que se não lhes cumpra;

-achando alguns índios que tenham cativos contrários a uns que costumam matar em terreiro e comer, pelas guerras que com outros incitem, os poderá mandar resgatar e assim poderá fazer nas mais ocasiões, não se lhes fazendo força nem violências;

-procurará que em cada aldeia que receber a paz, se levante uma cruz com muito acatamento e veneração, declarando-se o mistério dela (Studart-Filho, 1936, p. 16).

Ressalta-se que, apesar das disposições taxativas dessas instruções escritas, a empresa tinha fins mais mercantis que civilizadores.

Após seis meses de caminhada, perfazendo mais de 600 km ao longo da costa, com paradas no Jaguaribe e no rio Ceará, chegam, em 18 de janeiro de 1604, à foz do rio Camocim (Brígido, 1900, p. 5). Ressalta-se que, pouco antes disso, por volta do dia 11, registram passagem pelo lugar “mata dos paus de cores”, identificado como sendo Jericoacoara (Girão, 1984, p. 36). Segundo Antônio Bezerra, esse antigo topônimo fazia referência à abundância de pau-brasil ou pau-violeta, como às vezes era referido, o que atraía frequentes visitas dos carregadores estrangeiros (Bezerra, 1903, p. 20). Para o Padre Vicente Martins, teriam feito trajeto pela costa até o atual distrito de Parazinho, a partir de onde adentraram os sertões (Martins, 1928, p. 144). Essa teria sido a primeira expedição portuguesa a pisar nas praias do Acaraú.

O Caminho a Ibiapaba

No dia seguinte, antes do nascer do sol, partiu Coelho com sua comitiva em direção à Ibiapaba. O grupo foi organizado em dois esquadrões, com a bagagem no meio, um deles contando com dezesseis homens na retaguarda e nove na vanguarda, tendo o capitão à frente, e o outro com vinte homens sob o comando de Manoel Miranda, como tropas de apoio. Chegando à distância de meia légua (3 km) do pé da serra, com o dia já claro, foram recebidos com flechadas e tiros de mosquete disparados por sete corsários franceses. Após uma batalha intensa, os portugueses conseguiram repelir o ataque, deixando alguns mortos e feridos.

A rota utilizada pela expedição muito provavelmente foi o trajeto da antiga estrada Camocim–Ibiapaba, uma trilha que ligava a serra ao litoral. Segundo o historiador Carlos Studart Filho, brancos e índios dela se serviram para encaminhar ao embarcadouro da barra do rio da Cruz (Camocim) as madeiras e algodões de que se abasteciam os barcos piratas estrangeiros ali fundeados (Studart Filho, 1937, p. 27). Essa rota passava pelo vale do Lambedouro, subindo a ladeira do Itagurussu, uma franja da Serra da Ibiapaba com aproximadamente 3 km de comprimento, pertencente ao município de Viçosa do Ceará. Do alto da serra, tem-se uma visão privilegiada de todo o trajeto, possibilitando a preparação da emboscada.

Vista panorâmica do Vale do Lambedouro e da Ladeira do Itagurussu.

Entretanto, cabe apontar aqui algumas inconsistências nesse relato. O trecho sugere que esse percurso, de quase 90 km, teria sido realizado durante a madrugada, o que, nas estradas atuais, levaria cerca de 20 horas de caminhada. Mesmo considerando a hipótese de que tivessem partido 20 km adiante da atual cidade de Granja, a qual foi primitivamente referida como Camocim (Oliveira, 1995, p. 57), o trajeto ainda levaria 16 horas. Portanto, eles certamente demoraram mais de um dia nessa jornada. O relato mais confiável dessa trajetória é dado pelo cronista contemporâneo Frei Vicente do Salvador, que diz que chegaram ao "Camocy, que é a barra da Serra da Boapabba [Ibiapaba], para a qual marcharam no dia seguinte, véspera de São Sebastião, 19 de janeiro de 1604, antemanhã. E, clareando o dia, foram logo vistos pelos inimigos [...]" (Salvador, 1982, p. 292).

Ou seja, para ir ao local onde se desenrolaram esses acontecimentos, saíram ainda no escuro, chegando ao amanhecer. Com essas informações, é possível determinar aproximadamente o ponto de onde saíram. Este provavelmente situava-se a duas ou três horas de caminhada do local do encontro. Uma vez que se tratava de uma caravana grande, levando bagagens, além de mulheres e crianças, a velocidade média plausível de marcha seria de 4 a 6 km/h, colocando o raio do acampamento entre 8 e 18 km do pé da serra.

Essa opinião é corroborada por Batista Aragão, que situa o acampamento a 10 km de Viçosa. Para ele, o caminho mais natural a ser percorrido seria margear o rio Coreaú até o ponto em que este se encontra com o Itacolomy e, “desse ponto, a varar o Boqueirão do Manhoso, é que se teria atingido os contrafortes da Grande Serra, no local onde posteriormente seria conhecido por Oiticica” (Aragão, 1990, p. 39). Ainda na opinião do autor, essa jornada teria demorado cerca de cinco dias para ser concluída, tendo o embate ocorrido por volta do dia 24 de janeiro.

No relato de Pe. Claudio D'Abbeville, publicado em 1614, colhido junto aos nativos da Ibiapaba, são apresentados fatos que teriam antecedido a chegada de Pero Coelho:

Ao chegar esse personagem [Pero Coelho], com toda a sua comitiva, ao país dos canibais, acamparam todos na montanha chamada Cotiba, onde havia sete a oito aldeias de índios que, cientes da chegada dessa gente, tudo tinham abandonado refugiando-se na grande montanha de Ibiapaba, a cerca de uma légua de Cotiba [...]

Ao chegarem a essa montanha, narraram os habitantes de Cotiba a causa de sua fuga diante do bando que ameaçava sua aldeia. Imediatamente puseram-se em campo alguns dos moradores da montanha, juntamente com os franceses aí residentes, dirigindo-se para Cotiba que acabava de ser invadida pelos portugueses e índios de Pernambuco (D'Abbeville, 1874, p. 66-67).

Existem quatro formações rochosas que estariam nessa rota e/ou dentro de um raio plausível para um acampamento: Serra de D. Simão, Serra São Joaquim, Serrote Tamboril e Serra do Gado Brabo. Entre estes, a Serra de D. Simão e Serra do Gado Brabo apresentam sítios arqueológicos já estudados, Pedra dos Pilões e Santa Bárbara, respectivamente. Triangulando todas essas informações, estou inclinado a creditar que "Cotiba" se refira a Serra do Gado Brabo, entretanto, estudos em loco têm que ser feitos para se chegar a uma conclusão mais acurada. Só acrescento que uma nota de Rodolfo Garcia ao livro de D'Abbeville, esclarece que esse topônimo significaria algo como "lugar de roça", o que pode ajudar pesquisadores futuros na identificação desse local.

A Subida da Serra

De volta à narrativa, após recepção pouco amistosa, a tropa então armou acampamento improvisado ao pé da serra, defendido por um muro tosco de pedras soltas, do qual não poderiam se afastar. O calor intenso, aliado à escassez de madeira e água, acabou por vitimar algumas crianças, filhas dos indígenas que acompanhavam a expedição. Ao cair da noite, são novamente atacados com flechas e pedras, ao som de gritos e ameaças. Entretanto, a ocorrência de uma chuva intensa fez cessar o ataque, ao mesmo tempo em que saciou a sede do grupo. Nas palavras de Frei Vicente do Salvador:

Mas quis Nosso Senhor que às três horas da noite veio um grande chuveiro de água, com que cessou o das frechas dos inimigos, e os nossos aplacaram a sede e, para ser a mercê maior, viram em amanhecendo uma gruta donde procedia um ribeiro de água, que os nossos índios cristãos tiveram por milagre, e se puseram todos de joelhos a dar graças a Deus [grifo nosso] (Salvador, 1982, p. 387-388).

Aqui surge uma nova oportunidade de situar no espaço os acontecimentos. Primeiro, o local onde estavam era seco e sem árvores, o que é compatível com o sopé da Ibiapaba em momentos de estiagem. Alguns autores locais atribuem essa gruta à Pedra do Itagurussu, localizada à encosta leste da serra, próxima a Viçosa do Ceará, da qual brota uma pequena lâmina d’água (Assis, 1935, p. 168; Aragão, 1990, p. 40)*. Nesse local, Pero Coelho manda, então, sacrificar o último cavalo de que dispunham para amenizar a fome da tropa (Studart Filho, 1936, p. 24).

Pedra do Itagurussú, Viçosa do Ceará.

Não obstante as opiniões contrárias, não estou totalmente convencido que Itagurussu tenha sido o real local do embate, pois no tempo narrativo, esse episódio teria acontecido antes da subida da serra, ao passo que a referida pedra já encontra-se a meio caminho entre o sopé e o topo. Ademais, as distâncias não batem. Mais adiante, no relato de Frei Vicente Salvador: "pela manhã mandou o capitão marchar o exército pela serra acima, indo ele por uma parte com mais gente, e Manoel Miranda por outra com vinte e cinco homens, quando chegaram à cerca seria meio dia". Sendo muito conservador, considerando três horas de marcha a 1 km/h (subida em mata fechada), o local da primeira barreira deveria ficar a, no mínimo, 3 km de distância da Pedra do Itagurussu, portanto fora do atual núcleo urbano de Viçosa do Ceará. Os eventos poderiam inclusive ter se passado ainda em "Cotiba", a outra montanha mencionada por Pe. Claude, em alguma das diversas cachoeiras temporárias existente nas serras secas da região.

A Tentativa de Trégua

Por volta das dez da manhã, ouvem o toque de uma trombeta, o que indicava que os inimigos queriam negociar. Respondido o sinal, o intérprete do grupo, Tuimirim, foi ao encontro dos franceses, seus conterrâneos, e dos indígenas. Cabe esclarecer que, desde a década de 1590, os franceses mantinham relações comerciais com os índios da costa cearense, tendo estabelecido uma feitoria na Serra da Ibiapaba, comandada por Adolf Montbille (Mombille ou Bombille para os portugueses). Alguns autores sugerem que Montbille e seus compatriotas seriam náufragos remanescentes da expedição frustrada de Jacques Rifault, que, em 1594, tentara estabelecer uma colônia no Maranhão (Varnhagen, 1906, p. 807; Fleiuss, 1922, p. 782; Holanda, 1964, p. 222).

Geraldo Nobre vai além, sugerindo que o intérprete do grupo, Tuimirim, também teria sido um dos tripulantes de Rifault, presos no Rio Grande do Norte em 1597 por Feliciano Coelho de Carvalho. Darmingas (D’Armengaud?), seu verdadeiro nome, declarou ser descobridor de uma abundante mina de prata e que, por isso, interessaria aos portugueses os seus serviços, sendo recrutado para a expedição de Pero Coelho seis anos depois (Nobre, 1980, p. 49). Vicente Miranda situa esse achado na antiga mina de cobre da Pedra Verde, hoje abandonada (Miranda, 2001, p. 36). A ocorrência residual de prata nesse local foi atestada em estudo mineralógico conduzido pelo geólogo José Henrique de Matos (Matos, 2012).

A tratativa de paz mostrou-se infrutífera, pois a comitiva, sob ordens do principal Jurupariaçú (Diabo Grande), exigiu, para dar passagem à tropa, que fossem entregues dois companheiros como reféns, Manuel de Miranda e Pedro Cangatan, o que foi prontamente recusado. À tarde, descem os índios da serra para atacar o acampamento português. Apesar da extrema violência do ataque, a ofensiva não logrou êxito em expulsá-los, estendendo-se a batalha até a noite, com perdas significativas para ambos os lados. O capitão compreendeu então que a única forma de vencer seria abandonar o acampamento e levar a batalha à região mais alta da Ibiapaba, o que fizeram já no dia seguinte.

A Invasão da Ibiapaba

Desde o momento em que perceberam a presença dos portugueses, os índios haviam trabalhado dia e noite na derrubada de árvores para a construção de cercas e fortificações ao longo da montanha (D'Abbeville, 1874, p. 67)Os dois grupos, comandados por Pero Coelho e Manoel Miranda, subiram por caminhos diferentes, visando dispersar a resistência inimiga. Chegando a paliçada, próxima a atual cidade de Viçosa do Ceará, reinicia-se a batalha, que mesmo com o apoio dos mosquetes franceses, em número de dezesseis, é tomada ao custo do sacrifício de apenas dois soldados. Após conquistar o reduto inimigo, Pero Coelho permaneceu cerca de vinte dias no local para reabastecer a tropa e recuperar-se da fome e do desgaste, enquanto os chefes indígenas reorganizavam suas forças e reforçavam suas defesas.

Os indígenas derrotados bateram em retirada e refugiaram-se em outra paliçada, situada a cerca de um quarto de légua (~1,5 km) da anterior, construída sob a liderança de Jurupariaçú, com o apoio do principal Irapuã (Mel Redondo). Apesar da forte resistência oferecida nesse novo confronto, a posição acabou sendo tomada, forçando o inimigo a recuar novamente para a paliçada principal de Mel Redondo, considerada extremamente fortificada, com dupla fileira de estacas de madeira grossa, uma interna e outra externa, e três guaritas, de onde atiravam os franceses.

Pero Coelho, ao perceber a força da fortificação inimiga, mandou construir grandes escudos de madeira, tão pesados que exigiam vinte homens para carregá-los. Protegida por esses anteparos, a tropa avançou lentamente até a paliçada e combateu por dois dias. Apesar das perdas, três mortos e quatorze feridos, a posição foi finalmente tomada, com grande número de indígenas mortos e a captura de dez franceses que se encontravam no interior da fortificação, sendo que os demais conseguiram escapar. Entre esses franceses provavelmente estava Charles des Vaux, que posteriormente remetido a Europa, voltou à França, influindo na tentativa da fundação da colônia francesa do Maranhão, em 1612 (Nobre, 1980, p. 40).

Na versão de Pe. Claude, lê-se:

Vendo-se os restantes, juntamente com o dito personagem [Pero Coelho], reduzidos à fome, sem farinha nem coisa alguma para comer, e nem mesmo a esperança de obter quaisquer alimentos, a menos que chegassem à Montanha Grande de Ibiapaba, o que não era possível por causa das trincheiras e fortes dispersos pelo caminho, quase desesperados resolveram num domingo à tarde atacar a primeira fortaleza, a mais próxima, com arcos e flechas, arcabuzes e mosquetões. E assim fizeram: com tal valentia que não só forçaram esse primeiro forte, mas, também, o segundo e o terceiro. Nessa luta foram feridos muitos franceses, o que a todos atemorizou; vendo tomadas suas três praças e convencidos de que não poderiam resistir a tão grande exército senão com sacrifício de suas vidas, retiraram-se os defensores para a grande montanha de Ibiapaba, onde, ao chegarem, botaram imediatamente fogo em muitas aldeias ao sopé da montanha a fim de que os portugueses não encontrassem nenhum abrigo (D'Abbeville, 1874, p. 67).

O Acordo de "Paz"

Os fugitivos foram então perseguidos por quatro dias até um rio chamado Arabê, onde os portugueses montaram novo arraial. A partir dali, Pero Coelho ordenou ataques sucessivos, capturando muitos indígenas, entre eles o principal Ubaúna (Canoa Preta), figura altamente estimada na região. Sua prisão levou outros grupos a buscar a paz, impondo como condição sua libertação. Aceito o acordo, o capitão entregou foices e machados aos emissários indígenas como sinal de compromisso, e no dia seguinte diversos chefes compareceram para selar a paz e levar de volta Ubaúna.

Três dias depois, Mel Redondo e Diabo Grande apresentaram-se no arraial com seus grupos, depuseram as armas como sinal de paz e foram recebidos por Pero Coelho, que mandou lavrar, por intermédio de um escrivão, um ato formal registrando o compromisso mútuo de manutenção da paz no futuro.

Ressalta-se aqui mais uma pequena inconsistência na narrativa. As aldeias de Diabo Grande, Mel Redondo e Canoa Preta correspondem aos territórios dos atuais municípios de Ibiapina, Viçosa do Ceará e Ubajara, respectivamente, e o rio Arabê localiza-se em São Benedito. Dessa forma, considerando a geografia do lugar, o caminho lógico seria primeiro ter combatido Irapuã, depois Ubaúna e por fim Jurupariaçú. Isso é corroborado por Pedro Ferreira de Assis, em seu Diccionario Historico e Geographico da Ibiapaba:

É mister aqui acentuar que estou em completo desacordo com os insignes conhecedores do velho Ceará, que são acordes em afirmar que o capitão-mor Pero Coelho atacou, em primeiro lugar, a aldeia do Diabo Grande, onde se acha, de presente, a vila de Ibiapina, quando essa só podia ter sido atacada após a rendição da taba de Mel Redondo (hoje Viçosa), por ser, de facto, a mais próxima de Camocim. (Assis, 1935, p. 166-168).

Outra possibilidade, bem plausível, é de que as barreiras não tivessem relação com as aldeias dos principais, o que estaria de acordo com a descrição das distâncias e com os relatos de Pe. Claude, segundo o qual foram construídas seis barreiras, com distâncias variando de meia a uma légua.

Trajeto aproximado da Expedição de Pero Coelho de Sousa na Ibiapaba, 1604.

O Retorno para Casa

Após a pacificação da planície, os bandeirantes nada encontraram que compensasse os sofrimentos da expedição, pois os indígenas locais viviam de subsistência simples e não havia sinais de ouro ou riquezas. Frustrados os sonhos de riqueza, Pero Coelho decidiu partir e passou a planejar a expulsão dos franceses do Maranhão, visto como terra promissora. Alguns indígenas da serra juntaram-se à expedição, mas, ao chegarem ao rio Punaré (atual Parnaíba), a tropa exausta se amotinou, perdeu a confiança no chefe e recusou-se a avançar para terras desconhecidas, chegando a cogitar eliminá-lo. Sem apoio, Pero Coelho foi obrigado a abandonar o plano e ordenar a retirada. Então decide retornar a foz do rio Ceará, local que chamou Nova Lisboa, onde deixou Simão Nunes, com 45 soldados, e parte para Parahyba a busca de recursos (Studart, 1896, p. 5).

Local onde Pero Coelho teria edificado o Forte São Tiago, foz do Rio Ceará.

Ao retornar, Pero Coelho relatou ao governador Diogo Botelho os resultados da expedição, solicitou auxílio para prosseguir na conquista e enviou indígenas e franceses prisioneiros, recebendo a promessa de socorro que jamais se concretizou. Ademais, uma Carta Régia datada de 22 de setembro de 1605, endereçada ao governador, repreende Coelho pelos maus tratos aos indígenas e manda libertar os aprisionados:

Ora, mandando eu ver os autos que se fizeram sobre o dito cativeiro e outras informações que tive da mesma matéria e razões mui urgentes do serviço de Deos e meu, se achou que o dito cativeiro não era legitimo nem conforme as leis que sobre isso são passadas, nem era conveniente para o bom prosseguimento daquela conquista escandalizar os índios dessas partes com cativeiros, que eles tanto temem e aborrecem… e houve por bem de os haver a todos por livres e mandar que sejam tornados a suas terras… (Studart, 1921, p. 7).

De volta ao Ceará com a família, já no começo do ano de 1606, encontrou o capitão Simão Nunes e os soldados abandonados por mais de um ano, o que levou à retirada para o Jaguaribe e, depois, à deserção de Simão Nunes para o Rio Grande. Isolado, Pero Coelho tentou regressar com poucos homens e sua família, enfrentando uma travessia marcada por fome, sede e mortes, inclusive a de um filho, até alcançar o Rio Grande. Após ser acolhido, seguiu para a Paraíba e, posteriormente, para a Espanha, onde morreu após anos de pedidos infrutíferos por recompensa por seus serviços.

As notícias trazidas pela malfadada expedição de Pero Coelho de Sousa, resultou, ainda em 1605, em uma determinação régia para que fossem catequizados os índios do Ceará (Brígido, 1900, p. 5). Isso motivou uma nova expedição, no ano de 1607, dirigida pelos padres jesuítas Francisco Pinto e Luís Filgueiras, que intentaram, sem sucesso, aldear os índios da Ibiapaba. Padre Filgueiras, em sua Relação do Maranhão, deixou uma descrição do estado em que ficou a Ibiapaba depois da campanha de Pero Coelho de Sousa: 

"Nesta grande serra havia há dois ou três anos mais de setenta aldeias de gentio que nos contaram por seus nomes, e depois de os brancos lá irem e os receberam no principio com guerra se foram todos para o maranhão, com medo dizendo que se os brancos tinham destruído todos os moradores do Jaguaribe sendo recebidos deles com paz muito melhor as destruíram a eles”. 

Diego Carneiro

14 de fevereiro de 2026

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. A Expedição de Pero Coelho de Sousa na Ibiapaba. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 14 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/01/a-expedicao-de-pero-coelho-de-sousa.html

Referências

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ASSIS, Predro Ferreira. Diccionario Historico e Geographico da Ibiapaba. Fortaleza: Ramos e Pouchaim, 1935.

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MIRANDA, Vicente. Três séculos de caminhada. SM, 2001.

MARTINS, Vicente. O Hospício dos Jesuítas de Ibiapaba. Revista do Instituto do Ceará, Fortaleza, v. XLII, 1928.

MATOS, José Henrique da Silva Nogueira de. Evolução metalogenética da mina de cobre de Pedra Verde (CE). 2012. Dissertação (Mestrado) — Instituto de Geociências, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2012.

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*Agradecimentos ao historiador João Bosco Gaspar, pelas informações.

O Fortim de Jericoacoara

 

Pormenor do mapa do costa do Ceará em 1629, de Albernaz I, com destaque para Jericoacoara.

Em 19 de março de 1612, partiu do porto de Cancale, na Bretanha, uma expedição francesa composta por cerca de quinhentos homens, sob o comando dos capitães François de Razilly e Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardière, com destino ao Brasil, onde pretendiam fundar uma colônia francesa, a chamada França Equinocial. Em 12 de julho daquele ano, os navios Regente, Carlota e Santa Anna aportaram na Ponta de Jericoacoara, então conhecida como Buraco das Tartarugas. A bordo seguiam os padres capuchinhos Yves d’Évreux e Claude d’Abbeville, responsáveis pelo registro da jornada:

[...] Beirando uma terra baixa, chegamos ao cabo das Tartarugas, distante dessa montanha quinze léguas mais ou menos, e aí ancoramos às cinco horas da tarde. Esse cabo se encontra a dois graus e dois terços de altura e dez graus e um oitavo de variação da agulha. O lugar é muito belo, maravilhosamente agradável, com excelentes frutos para comer e grande quantidade de caça. O mar que banha essas costas e os lagos da terra firme é abundante de peixes de inúmeras espécies, cousa admirável pela variedade e pela diferença com os nossos. Nesse lugar permanecemos cêrca de treze dias à espera de mar alto para irmos ao Maranhão. Durante a nossa estada no lugar, nossos companheiros matavam o tempo caçando e pescando (d'Abbeville, 1874, p. 49).

Após essa permanência, a expedição prosseguiu viagem, chegando à baía do Maranhão no dia 26 do mesmo mês. Segundo o padre Sadoc de Araújo, essa teria sido a primeira vez que corsários estrangeiros pisaram terras do litoral da Ribeira do Acaraú (Araújo, 2005).

Menos de um ano depois, em 1º de junho de 1613, Jerônimo de Albuquerque partiu de Olinda rumo ao Maranhão, em sua primeira expedição destinada a expulsar os franceses, comandando uma frota de quatro embarcações e cerca de cem homens de guerra. A viagem durou pouco mais de um mês, incluindo a demora no Forte do Amparo, na barra do rio Ceará, onde incorporou à expedição Martim Soares Moreno, que viria a ser um dos fundadores e o primeiro governador da Capitania do Ceará, deixando em seu lugar Estevão de Campos (Araújo, 2000, p. 13).

Inicialmente, planejava-se estabelecer uma fortificação em Camocim; contudo, as condições naturais adversas e a quase absoluta escassez de água potável levaram à decisão de retroceder para Jericoacoara, situada cerca de oito léguas a leste. Ali encontraram melhores condições estratégicas, com uma ampla curvatura da praia — entre duas e três milhas — formando uma enseada profunda e segura, capaz de abrigar mesmo as maiores embarcações da época. Ao pé do serrote, ergueram um pequeno forte de pau-a-pique, cercado por estacas, denominado Fortim de Nossa Senhora do Rosário, além de uma capela sob a mesma invocação (Studart-Filho, 1959, p. 35). Em torno da fortificação desenvolveu-se um pequeno arraial, habitado majoritariamente por índios Tremembés, conforme indicado no mapa da costa do Ceará de 1629, elaborado por Albernaz I.

Doze dias depois, em 13 de junho de 1613, Martim Soares Moreno partiu para o Maranhão em missão de reconhecimento, acompanhado de um pequeno contingente de vinte soldados. Durante essa incursão, identificou e incendiou um armazém francês, constatando a presença de uma força numerosa e bem fortificada na ilha do Maranhão. Descoberto, passou a ser perseguido por embarcações e tropas francesas, logrando escapar por canais interiores, onde permaneceu oculto por vários dias. Em seguida, conseguiu alcançar o oceano em condições extremas e, forçado pelas circunstâncias, arribou à Península Ibérica, chegando a Sevilha, onde prestou informações às autoridades da Monarquia Hispânica, conforme relatou em carta dirigida a Gaspar de Sousa, datada de 27 de abril de 1614 (Studart, 2001).

Em agosto de 1613, diante da ausência prolongada de Martim Soares Moreno e ignorando seu paradeiro, Jerônimo de Albuquerque decidiu retornar ao Recife por terra, deixando o Fortim de Nossa Senhora do Rosário guarnecido por quarenta soldados, sob o comando de seu sobrinho homônimo. À época, Jericoacoara sofria frequentes incursões de corsários estrangeiros e encontrava-se igualmente vulnerável às investidas dos indígenas locais, que, cientes da fragilidade da guarnição, tentaram diversas vezes destruí-la. A situação atingiu seu ponto mais crítico em 1614, quando cerca de trezentos indígenas lançaram um ataque em massa, sendo, contudo, repelidos com grande mortandade (Studart-Filho, 1903, p. 197).

As tensões com os nativos dificultaram severamente o abastecimento do fortim. O peixe, a caça, as frutas e outros gêneros, antes obtidos por meio de trocas, tornaram-se escassos, lançando a guarnição em extrema penúria e obrigando os soldados a se alimentarem de ervas silvestres por meses consecutivos. Agravando ainda mais o quadro, uma severa seca assolou a província naquele ano, reduzindo drasticamente os recursos disponíveis (Studart, 2010, p. 254).

Apenas dois dias após a chegada de Jerônimo de Albuquerque ao Recife, em 28 de maio de 1614, o governador de Pernambuco, Gaspar de Sousa, despachou um caravelão com cerca de trezentos homens e abundante munição, sob o comando do capitão Manoel de Sousa Eça, com o objetivo de reforçar o Fortim de Nossa Senhora do Rosário, em Jericoacoara (Araújo, 2005). A expedição chegou ao destino em 9 de junho de 1614, a tempo de defender a fortificação de um ataque iminente.

Em 18 de junho de 1614, entre uma e duas horas da tarde, aportou em Jericoacoara a nau do pirata francês Du Prat, que tentou tomar o forte. Para isso, desembarcou cerca de duzentos homens, incluindo capitão, alferes e sargento. Foram-lhes ao encontro dezoito defensores, comandados por Manoel de Sousa Eça e pelo capitão Jerônimo de Albuquerque, que derrotaram completamente os assaltantes, obrigando os sobreviventes a fugir precipitadamente para o navio, com mais de doze mortos e cerca de trinta feridos.

Na expectativa de novo ataque no dia seguinte e enfrentando escassez de munição, Manoel de Sousa Eça mandou derreter pratos de estanho encontrados no arraial para fabricar projéteis. Contudo, durante a madrugada, o inimigo levantou âncora e seguiu para o Maranhão, sem sequer realizar aguada. A historiografia registra os nomes dos principais defensores do presídio: os capitães Manoel de Sousa Eça e Jerônimo de Albuquerque; o alferes Cristóvão Sellares; o sargento Baltasar Fernandes Barreiros; e os cabos de esquadra Simão Fernandes Botelho, Manoel Dias Guoteres e Francisco de Araújo de Moura (Studart, 2001).

Em 26 de julho de 1614, Gaspar de Sousa recebeu ordens de Madri para que Jerônimo de Albuquerque empreendesse nova expedição de conquista ao Maranhão, em virtude do fracasso da primeira. Jerônimo, entretanto, já havia partido por terra em 22 de junho, com o objetivo de arregimentar indígenas na Paraíba. O governador organizou então uma esquadra sob o comando de Diogo Campos Moreno, tio de Martim, levando a bordo os frades franciscanos Frei Manuel da Piedade e Frei Cosme de São Damião. A frota partiu do Recife em 23 de agosto, às sete horas da manhã, aportando três dias depois no Forte dos Reis Magos, no Rio Grande do Norte, onde se reuniu a Jerônimo de Albuquerque, prosseguindo em seguida para o Maranhão (Araújo, 2000, p. 13).

A esquadra era composta por cinco caravelões, dois patachos e uma caravela, transportando cerca de trezentos homens, entre marítimos e soldados arcabuzeiros, além de mantimentos consideráveis: seis mil alqueires de farinha, cem arrobas de peixe, vinte canastras de sardinha, vinte quintais de pólvora, três peças de ferro fundido, duzentas balas de ferro e grande quantidade de arcabuzes, mosquetes, chumbo e marrão (Costa, 1983, p. 331). A esse contingente somaram-se duzentos índios flecheiros, recrutados por Albuquerque (Salvador, 1886, p. 412).

A frota chegou a Jericoacoara em 5 de outubro de 1614, domingo da Festa de Nossa Senhora do Rosário. Frei Manuel da Piedade celebrou missa solene, acompanhada de cânticos, órgão e flautas, marcando a primeira solenidade religiosa e a primeira missa celebrada nas praias da Ribeira do Acaraú (Araújo, 2005). Poucos dias depois, em 12 de outubro, após a demolição do Fortim do Rosário, Jerônimo de Albuquerque e seus companheiros deixaram Jericoacoara, seguindo por mar rumo a Periá. Serviu-lhes de piloto Sebastião Martins, que anteriormente navegara pela região com Martim Soares Moreno (Studart, 2001).

Após a expulsão dos franceses, Jericoacoara consolidou-se como ponto integrante de uma rota litorânea estratégica, ligando as capitanias do Rio Grande do Norte e do Maranhão, e desempenhando papel relevante na comunicação com o extremo norte do Brasil. O trajeto era realizado por terra até o porto de Jericoacoara, de onde se seguia por mar até São Luís (RIC, Tomo XII, 1989, p. 80). Presume-se que o trecho terrestre fosse o mesmo utilizado por Jerônimo de Albuquerque em seu retorno ao Recife, em agosto de 1613, e que também tenha sido percorrido por Antônio Muniz Barreira, em março de 1622 (Araújo, 2005, p. 32).

Com o objetivo de proteger essa rota do assédio de corsários estrangeiros, o comandante de armas do Ceará, Conrado Jacob Niemeyer, determinou, por meio do Plano de Defesa da Província do Ceará, datado de 27 de setembro de 1626, que “a enseada de Jericoacoara, geralmente notada em todas as cartas marítimas e mui conhecida dos estrangeiros, deve ser fortificada com quatro bocas de fogo e entregue à defesa de um oficial ativo, que tenha debaixo de suas vistas de Acaraú a Timonha” (Studart-Filho apud Araújo, 1987, p. 94). Até onde foi possível constatar, tal fortificação jamais chegou a ser efetivamente implantada.

Forte Holandês

Mais de vinte anos após o abandono do primeiro fortim, em 25 de outubro de 1637, desembarcou na enseada do Mucuripe uma expedição composta por 126 soldados e 25 indígenas cearenses, sob o comando dos holandeses Jorge Gartsman e do capitão Hendrick Huss, com o objetivo de tomar o Fortim de São Sebastião. Após breve resistência, o entreposto rendeu-se, inaugurando o domínio neerlandês na Capitania do Ceará (Oliveira, 1995, p. 28). Parte da tropa regressou então ao Recife, levando consigo os prisioneiros, permanecendo à frente do forte o sargento Hendrick van Ham, que seria substituído, quatro anos depois, em 10 de janeiro de 1641, por Gedeon Morris.

Morris empenhou-se intensamente na prospecção de salineiras, uma vez que o sal constituía mercadoria de importância estratégica para a Companhia das Índias Ocidentais, superando amplamente outros produtos que a terra conquistada poderia oferecer, como o pau-violeta, o âmbar-gris, o fumo e o algodão. Em 8 de outubro de 1641, enviou carta ao Supremo Conselho, na qual comunicava a descoberta de uma salina promissora nas proximidades de Camocim, situada a apenas 1.700 passos da orla marítima. Na mesma correspondência, informava ainda a existência de um bom porto para navios, adequado ao carregamento de mercadorias, e mencionava que nas redondezas habitavam mais de trinta “nações” de tapuias, das quais apenas dez eram consideradas aliadas.

Com vistas à exploração dessas e de outras riquezas, os holandeses penetraram a foz do rio Camocim, erigindo duas fortificações na região: uma na praia de Barreiras, em Camocim, e outra em Jericoacoara. O comandante do forte neerlandês de Jericoacoara chamava-se Jacob Evers, que posteriormente viria a morrer em uma emboscada no Maranhão, durante o combate do Outeiro da Cruz. Evers fora enviado àquela capitania com a missão de reprimir uma revolta contra o domínio flamengo, levando consigo um expressivo contingente de indígenas da região de Camocim (Oliveira, 1995, p. 44).

Sob a pressão das forças comandadas por Antônio Teixeira de Melo, capitão-mor de São Luís, os holandeses abandonaram o Maranhão em 1644, retirando-se em direção a Pernambuco. Na fuga, deixaram abandonados, nas margens despovoadas do rio Camocim, numerosos tapuias que haviam sido levados do Ceará para reforçar a ocupação do território maranhense. Sentindo-se traídos, esses indígenas investiram contra o forte holandês de Camocim, matando seus soldados, e dirigiram-se em seguida ao forte de Jericoacoara, onde repetiram o ataque com igual violência.

Após esses acontecimentos, os indígenas deram aviso a Antônio Teixeira de Melo, que determinou o envio de guarnições portuguesas para ocupar as fortificações, despachando para Lisboa, como emissário, o capitão João Vasconcelos, encarregado de informar a Coroa portuguesa sobre os fatos. Apesar dessas ordens, as antigas fortificações flamengas não chegaram a ser efetivamente ocupadas pelos portugueses. Os holandeses retornaram ao Ceará em 1649, promovendo novas incursões nas regiões de Camocim e da Ibiapaba, desta vez movidos por expectativas de exploração aurífera, até que, com a capitulação no Recife, em 1654, foram definitivamente expulsos do Nordeste brasileiro.

Em 1655, “mandou André Vidal de Negreiros [governador da Capitania do Maranhão e do Grão-Pará] levantar, na Ponta de Jericoacoara, uma fortificação permanente, como meio de facilitar as comunicações por terra entre o Maranhão, a Ibiapaba e o Ceará, até então precárias e difíceis, em razão da constante hostilidade dos nativos contra os portugueses” (Studart-Filho; Pompeu, 1966, p. 191). Ao que tudo indica, entretanto, tal plano jamais se concretizou, uma vez que os riscos à ocupação do território foram gradualmente mitigados com a implantação da Missão da Ibiapaba, o consequente aldeamento e pacificação dos povos indígenas da ribeira do Coreaú, bem como com o avanço da colonização portuguesa a partir do final do século XVII.

Outras Fortificações nas Praias do Acaraú

Na Carta Topográfica da Capitania do Ceará, de 1812, consta ao longo da costa vários locais demarcados com bandeiras, cuja legenda indica tratar-se de "Presídio ou Vigia do Mar". Isso sugere a presença de um destacamento permanente nesses locais, que consistiam de pontos estratégicos de vigilância. Entre os locais sinalizados, é possível identificar além da barra do Camocim e da Enseada de Jericoacoara, onde também havia uma povoação, dois outros pontos, um na barra do Rio Acaraú e outro entre a ponta de Itapagé e Almofala. Apesar de não ter muito mais informações sobre como se deu essa ocupação, levantei alguns dados que julgo serem relevantes.

Primeiro, cabe observar que os dois locais ficam próximos a portos importantes no contexto colonial, o de Cacimbas, em Acaraú, e o Porto do Barcos em Itarema. No caso do Rio Acaraú, a região sinalizada corresponde a Ponta do Presídio, que segundo o Barão de Sudart, teria sido o local escolhido pelos primeiros habitantes da região, pescadores, que depois teriam migrado mais para o interior do delta do rio, onde hoje se ergue a cidade de Acaraú (Studart, 2010, p. 301). Esse topônimo, que corrobora a existência, em algum momento, de uma guarnição no local, é utilizado pelo menos desde o final do século XIX, sendo mencionado no Dicionário Geográfico, Histórico e Descritivo do Estado do Ceará, cuja primeira edição data de 1903 (Gurgel, 1939, p. 309). Também é mencionado por Geraldo Nobre, segundo o qual "em outro tempo, defendia a entrada do rio principal contra as incursões de inimigos e aventureiros" (Nobre, 1977, p. 165).

Quanto ao segundo ponto, ele provavelmente corresponde a região da praia de Almofala, outrora uma vila relativamente desenvolvida, que chegou a rivalizar com Acaraú em termos de protagonismo político e religioso. Na Ponta de Itapagé, hoje pertencente ao município de Itarema, também sinalizada no mapa, foi instalado, em 7 de setembro de 1909, um farol, sob a direção do Cap. Ten. Luiz Perdigão. Todavia, por motivos técnicos, este foi desativado em julho de 1929, sendo substituído por outro, construído sob a orientação do Almirante Jorge Leite da Silva (Araújo, 1971, p. 333).

Destaque da Carta Topográfica da Capitania do Ceará, 1812.

Segundo o Coronel Aníbal Barreto, essas fortificações foram construídas ainda no período colonial e tinham por objetivo coibir atividades de contrabando, o que se justificaria pelo intenso movimento nos portos e ancoradouros da região ao longo dos séculos XVIII e XIX (Barreto, 1955, p. 36).

Sombras do Passado

Não há informações conclusivas acerca do destino final das fortificações holandesas na região, sendo incerto se foram completamente destruídas pelos indígenas ou se simplesmente sucumbiram à ação do tempo e às condições naturais adversas. Em 1728, setenta e quatro anos após a capitulação holandesa no Nordeste, João da Maia da Gama, então ex-governador do Estado do Maranhão, visitou os remanescentes do forte neerlandês em Camocim. Em seu relato, registrou que:

"os holandeses que aqui estiveram nas [barreiras] acima declaradas, tiveram um forte e ferraria, e olaria de fazer tijolos, e se achavam, e se tem achado muitas ferramentas, e cobres, e se vêem ainda tijolos e as ruínas do forte, e casas que tinham de uma parte e outra” (Martins, 1944). 

Segundo o historiador João Bosco Gaspar, essa construção situava-se na Praia das Barreiras, área que atualmente integra a zona urbana do município de Camocim.

A partir desse testemunho, é plausível inferir que o forte holandês de Jericoacoara também apresentasse características construtivas mais sólidas, distinguindo-se da primeira fortificação lusitana, erguida em materiais mais precários. Tal hipótese encontra respaldo no relato de José Mariano de Sousa Bitancourt, então presidente da Província do Ceará, que, em 1843, no Relatório do Estado das Fortificações, menciona a existência pretérita, em Jericoacoara, de uma fortificação dotada de peças de artilharia. Segundo Bitancourt, “algumas peças que aí foram levadas para armar essa bateria, ou estão sepultadas na areia ou foram roubadas para bordo de embarcações que aí foram” (Araújo, 1987, p. 95).

Corrobora ainda essa interpretação o testemunho de Antônio Bezerra, datado de 1884, que, ao referir-se a Jericoacoara, afirma que "ali os holandeses, aproveitando-se das vantagens de uma posição estratégica, assenhorearam-se do terreno e levantaram um pequeno forte, cujas ruínas ainda hoje se vêem em baixa maré” (Bezerra, 1965, p. 37). O autor acrescenta ter visto pessoalmente uma das peças de artilharia do forte de Jericoacoara, de calibre 18, posteriormente recuperada pelo Dr. Privat.

Por fim, uma postagem do Blog Mar do Ceará, datada de 11 de abril de 2012e assinada por Augusto Cesar, informa que três peças de artilharia pertencentes ao antigo forte de Jericoacoara teriam sido resgatadas do mar, encontrando-se então em uma coleção particular localizada em um sítio no bairro de Messejana, área anteriormente pertencente à Associação dos Servidores da RFFSA (Rede Ferroviária Federal).

A Aldeia de Jericoacoara

Uma questão ainda em aberto na história de Jericoacoara diz respeito ao destino da ocupação humana da região após a retirada dos holandeses, em meados do século XVII. É razoável supor que o território tenha permanecido habitado, sobretudo por descendentes dos grupos indígenas que mantiveram contato com os europeus ao longo do período colonial. O mapa de Albernaz I, datado de 1629, já registra a presença de uma aldeia indígena na área, a qual teria antecedido ou se desenvolvido em torno do fortim erguido por Jerônimo de Albuquerque em 1613, interpretação coerente com os relatos produzidos por Gedeon Morris por volta de 1640.

Essa continuidade indígena encontra eco em investigações antropológicas mais recentes. O antropólogo Alessandro Galvão, ao realizar trabalho de campo no início da década de 1990, classificou a localidade como “Aldeia de Jericoacoara”. Segundo o autor, em 1989 Jericoacoara contava com cerca de 650 moradores nativos, que se percebiam como integrantes de uma única família extensa, descendente de três a cinco patriarcas originais, estabelecidos no local desde o início do século XX ou desde o começo das memórias coletivas. Essas memórias, contudo, não ultrapassavam a geração dos pais dos habitantes mais idosos. Quando questionados sobre quem teria habitado Jericoacoara antes dos atuais moradores, respondiam, com certa relutância: os índios. Acrescentavam ainda a hipótese de que esses indígenas teriam “desaparecido” em virtude da chamada “domesticação” e do “melhoramento da família” (Galvão, 1995, p. 33).

Esse conjunto de indícios reforça a hipótese de que o núcleo populacional primitivo de Jericoacoara tenha permanecido relativamente isolado ao longo de séculos, experimentando um processo de miscigenação mais intenso apenas a partir do início do século XX. Conforme observa Nicodemos Araújo, a vila de Jericoacoara era inicialmente composta por apenas duas ruas, abertas a meia distância entre o centro e o mar. Na primeira metade do século XX, passaram a ser construídas algumas casas residenciais de sobrado — isto é, de dois pavimentos —, entre as quais se destacava a pertencente ao comerciante Ismael Antônio de Vasconcelos, erguida em 1919, com paredes de cerca de meio metro de espessura, sendo o primeiro edifício desse tipo na localidade (Araújo, 1987, p. 33).

Sabe-se, ainda, que em 1923, por força da Lei Municipal nº 94, de 29 de junho, foi criado o distrito de Jericoacoara, tendo a vila como sede, e que, no ano seguinte, foi oficialmente instalada sua Colônia de Pesca (Z-3). Esses marcos administrativos indicam a existência de um grau já significativo de aglomeração populacional nesse período, hipótese que encontra respaldo em outras informações apresentadas por Galvão:

Um morador do povoado vizinho de Preá, diz que, por ocasião da seca de 1934, acompanhou seu pai quando este foi levar comida para os moradores de Jericoacoara. Segundo o informante, as crianças e adolescentes jericoacoarenses não usavam roupas, eram próximas do estado de índios. Noutro povoado, Mangue Seco, 7 km ao norte de Jericoacoara, ainda hoje os homens tomam banho nus e juntos, embora tenuamente escondidos das mulheres por moitas na lagoa que fica no meio das casas (Galvão, 1995, p. 38).

A pesquisadora Verônica Viana, em coautoria com outros autores, realizou uma investigação arqueológica em dois sítios localizados em Jericoacoara — Serrote e Malhada —, na qual foram identificados fragmentos cerâmicos indicativos de uma ocupação humana prolongada e associada a diferentes etnias indígenas. Ao correlacionar esses vestígios materiais com os registros históricos disponíveis, os autores atribuem a presença dos Tremembés às praias da região (Viana et al., 2007).

Antiga Igreja de Jericoacoara.

Na década de 1950, estabeleceu-se em Jericoacoara a professora primária Raimunda Araújo Lima, conhecida como Dona “Longa” — apelido atribuído por ter sido a primeira pessoa a empregar essa palavra entre os moradores locais. Juntamente com Ângela Marques de Vasconcelos, Dona Longa incentivou o início das obras da primeira igreja da localidade, atendendo a solicitação do pároco de Acaraú, Monsenhor Sabino de Lima. Em terreno doado por João Marques Ferreira, foram erguidas, entre 1955 e 1956, paredes de pedra com cerca de quatro metros de altura e meio metro de espessura. Contudo, com o falecimento de Dona Longa, as obras foram interrompidas, permanecendo inacabadas por aproximadamente 34 anos, até serem concluídas com o apoio de um empresário espanhol, proprietário de uma grande pousada em Jericoacoara.

Há, entretanto, controvérsias quanto ao fato de essa ter sido efetivamente a primeira igreja de Jericoacoara. É plausível que tenha existido anteriormente um oratório associado ao antigo forte da localidade. Segundo o historiador Raimundo Girão, “o pequeno santuário de Nossa Senhora do Rosário sobreviveu aos tempos, mas, em 1880, o agricultor Antônio Pereira Brandão tomou a si construir outra capela no lugar Caiçara, sob a invocação de São Francisco de Assis” (Girão, 1983, p. 304). Não se sabe, contudo, por quanto tempo esse templo permaneceu em funcionamento nem até que ponto recebeu manutenção contínua e assistência regular dos fiéis (Araújo, 1987, p. 36).

Diego Carneiro

12 de fevereiro de 2026

Como citar esse texto:
CARNEIRO, Diego. O Fortim de Jeriocacoara. História e Genealogia do Baixo Acaraú [recurso eletrônico]. Fortaleza, 12 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://genealogiabaixoacarau.blogspot.com/2026/01/o-fortim-de-jeriocacoara.html

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