A Missão Jesuítica da Ibiapaba teve início formal em 31 de maio de 1656, quando partiu do Estado do Maranhão uma expedição missionária comandada pelos padres Antônio Ribeiro e Pedro de Pedroso, ambos da Companhia de Jesus. A expedição contava com aproximadamente 60 acompanhantes, entre índios, militares do governo e serviçais, e tinha como objetivo alcançar o antigo reduto indígena da Ibiapaba, também conhecido como Mel Redondo, local onde posteriormente se edificaria a vila de Viçosa do Ceará. A viagem foi realizada por terra, costeando o litoral e enfrentando severos obstáculos naturais, como areais extensos, manguezais e rios em cheia, sendo utilizada como apoio apenas uma canoa para travessias emergenciais.
Após 12 dias de marcha, as provisões alimentares, limitadas à farinha-de-peixe acondicionada em urus, se esgotaram, provocando tensão entre os índios acompanhantes, que ameaçaram abandonar a jornada. A crise foi contornada pela intervenção direta dos missionários. Pouco depois, a expedição encontrou índios Tremembés, nas proximidades do litoral, que inicialmente se mostraram hospitaleiros, oferecendo peixes e caranguejos. Contudo, uma índia Tremembé alertou os padres sobre um plano de traição, segundo o qual os missionários e soldados seriam assassinados durante uma suposta pescaria noturna. Descoberta a emboscada, a expedição levantou acampamento e seguiu em direção oposta.
Nos dias seguintes, os missionários atravessaram áreas alagadas, florestas úmidas e manguezais até alcançarem a foz do rio Parnaíba, identificada como a região de Tutóia. Durante a travessia do estuário, a canoa foi arrastada por ventos fortes e correntes marítimas durante cerca de cinco horas, até conseguir alcançar águas mais calmas e retornar aos areais. A partir desse ponto, a expedição seguiu finalmente em direção à Ibiapaba, chegando ao destino em 4 de julho de 1656, após 35 dias de viagem desde a saída do Maranhão.
A chegada dos padres Antônio Ribeiro e Pedro de Pedroso foi celebrada pelos indígenas Tabajaras, que ainda conservavam a memória do padre Francisco Pinto, missionário morto em tentativa anterior de catequese, ocorrida 49 anos antes. Francisco Pinto era lembrado pelos nativos como “Pai-Pina”, “Senhor das Chuvas” e Amanaiara, denominações que expressavam sua importância simbólica. Conforme orientação do padre Antônio Vieira, então Superior das Missões, os jesuítas instalaram o núcleo missionário, erguendo uma pequena capela e choupanas, de acordo com os recursos disponíveis e os padrões culturais indígenas.
Pouco tempo depois, a missão enfrentou novo risco. Em passagem pela região de Camocim, o militar André Vidal de Negreiros, com destino a Pernambuco, desembarcou tropas e realizou incursões pelo sertão. Os índios da região interpretaram a movimentação como ameaça de ataque, levando os Tabajaras da Ibiapaba a se armarem para a guerra e a fazerem os missionários reféns. O mal-entendido foi esclarecido após a retirada de Vidal de Negreiros, evitando-se o massacre.
Entre 1656 e 1660, a missão se expandiu, mas também se tornou alvo de disputas internas da Companhia de Jesus e de conflitos políticos. O padre Antônio Ribeiro deslocou-se para apoiar o Capitão-Mor Domingos de Sá Barbosa na pacificação da guerra entre Anacés e Jaguaruanas, nas proximidades da Fortaleza, deixando Pedro de Pedroso na Ibiapaba. Essa atitude, somada a tensões no Maranhão, levou o Padre Visitador Francisco Gonçalves a propor a extinção da missão. O projeto foi combatido por Antônio Vieira, que argumentou que mais de 2.500 índios haviam sido cristianizados em curto período. O apoio do Governador-Geral do Maranhão, D. Pedro de Melo, garantiu a continuidade da missão e a elevação de Vieira ao cargo de Visitador Superior das Missões.
Em sinal de gratidão, os principais indígenas da Ibiapaba enviaram uma comitiva de 50 índios ao Maranhão, liderada por Jorge Ticuna, filho de Jacaúna, com o objetivo de agradecer a Vieira e a D. Pedro de Melo. Ticuna seguiu posteriormente a Portugal, onde foi recebido na Corte e retornou em novembro de 1659, ostentando o título de Dom, o que reforçou seu prestígio político e simbólico.
Nesse mesmo período, surgiram conflitos internos fomentados pelo indígena Simão Taguaibuna, opositor da missão e defensor da poligamia, que espalhou boatos de que os missionários seriam escravizados ou mortos. A tensão atingiu seu ápice por volta da Páscoa de 1660, quando os padres Antônio Ribeiro e Pedro de Pedroso foram novamente feitos reféns, sob ameaça de execução.
Enquanto isso, no Maranhão, Antônio Vieira preparava sua visita à Ibiapaba. Ele partiu em 3 de março de 1660, acompanhado do padre Gonçalo de Veras e do militar Jorge Corrêa da Silva, chegando à missão em 24 de março de 1660. Sua recepção foi marcada por festas, danças, cauim, milho assado e abóbora cozida, estendendo-se por 12 dias. Durante sua permanência, Vieira instituiu oficialmente a Missão de São Francisco Xavier da Ibiapaba, reforçando sua organização espiritual. Ele permaneceu no local até o início de junho de 1660, retornando ao Maranhão em 29 de junho. A missão, entretanto, não sobreviveria por muito tempo.
A decadência missionária e a crise da catequese na Ibiapaba
Durante o governo de Rui Vaz de Siqueira, no Maranhão, tropas foram enviadas à Ibiapaba sob o pretexto da colheita de âmbar, operação comandada pelo cabo Manuel de Carvalho. A ocupação militar do antigo reduto missionário deu origem a práticas de extrema violência: desrespeito às famílias indígenas, agressões físicas, instalação de pelourinho e perseguição sistemática às lideranças nativas. A reação indígena foi imediata. Os índios rebelaram-se, convocando o apoio do chefe camocinense D. Simão Taguaibuna, que assumiu o controle da região após a deserção das tropas maranhenses.
Nesse contexto, a presença missionária tornou-se inviável, levando o padre Pedro de Pedroso, acompanhado do padre Gonçalo de Veras, a abandonar a Ibiapaba e seguir para o Maranhão, conduzindo consigo cerca de 400 famílias tabajaras. Com isso, por volta de 1662, extinguiu-se a Missão São Francisco Xavier da Ibiapaba, encerrando um ciclo fundamental da catequese jesuítica no Ceará no século XVII.
A partir desse episódio, a catequese na Ibiapaba permaneceu praticamente interrompida por décadas. A região passou a experimentar sucessivos ciclos de conflito envolvendo indígenas, autoridades locais e religiosos de diferentes ordens. A fragilidade institucional da Igreja no Ceará foi agravada pela precariedade do vicariato da Fortaleza, que enfrentava, simultaneamente, disputas com os indígenas da Barra do Ceará, de Camocim, da Porangaba, do Siupê, da Paupina e do Iguape.
Entre 1655 e 1661, a assistência religiosa na Capitania foi exercida por padres de atuação efêmera, como Pedro de Moraes e frei Manuel da Cruz, ambos vinculados ao Presídio da Fortaleza, sem que deixassem registros consistentes de atuação missionária. O cenário se agravou com as guerras indígenas envolvendo Jaguaribaras, Anacés e grupos liderados por Diogo Algodão, deslocado para Camocim. Na própria Ibiapaba, forças hostis promoveram a destruição das estruturas edificadas pelos padres Antônio Ribeiro, Pedro de Pedroso e Gonçalo de Veras.
Em 17 de abril de 1662, por meio de provisão régia, foram designados os padres Jacob Cócleo e Pero Francisco de Cassálli para atuar junto aos índios da região da Fortaleza. Buscou-se realdear os nativos em áreas próximas, como o sítio de Moruga e o Paramoti, mas as más condições de solo e a escassez de água provocaram forte resistência indígena. Em 16 de março de 1663, o Governador-Geral de Pernambuco determinou a suspensão da medida. Pouco depois, em 13 de janeiro de 1664, o Vice-Rei D. Vasco de Mascarenhas, Conde dos Óbidos, ordenou a libertação de chefes ibiapabanos presos desde 1661, contribuindo para a pacificação temporária da região.
O esforço resultou, finalmente, na fundação da Aldeia do Bom Jesus da Porangaba, inaugurada em 2 de fevereiro de 1665, reunindo cerca de dois mil índios. A aldeia tornou-se o principal núcleo missionário do período, sob a atuação dos padres Jacob Cócleo e Francisco Cassálli. Contudo, novas hostilidades surgiram durante o governo do Capitão-Mor João de Melo Gusmão, especialmente após a visita do padre Cassálli às aldeias do interior e a Camocim. Em 12 de dezembro de 1666, uma expedição comandada por Filipe Coelho de Moraes promoveu violenta repressão contra os índios de Camocim, episódio que marcou definitivamente o declínio da missão da Porangaba.
Cassálli retirou-se para o Maranhão em 1667, acompanhado do padre Manuel Juzarte, sendo substituído pelo padre Luís Machado, que faleceu na própria aldeia em 3 de outubro de 1670. Com sua morte, extinguiu-se o último impulso missionário estruturado do período, aprofundando a decadência religiosa na Capitania.
A retomada da presença jesuítica na Ibiapaba ocorreu de forma lenta e conflituosa, em meio à concorrência com os Congregados de São Filipe Nery (os Amaristas), que assumiram a Paróquia de Nossa Senhora da Assunção da Fortaleza a partir de 1671. Apesar de menos dedicados à catequese indígena, esses religiosos mantiveram o controle institucional da paróquia até o final da década de 1680.
Em 1689, ressurgiu no Ceará a figura do veterano jesuíta Pedro de Pedroso, agora em missão itinerante de pacificação e realdeamento indígena em toda a Capitania. Sua atuação, no entanto, foi interrompida pela morte em alto-mar no mesmo ano, quando retornava a Pernambuco.
O verdadeiro marco do retorno jesuítico à Ibiapaba ocorreu a partir de 1691, com a nomeação dos padres Manuel Pedroso Júnior, parente do antigo missionário Pedro de Pedroso, e Ascenço Gago, paulista encarregado da supervisão das missões no Ceará. A indicação foi feita pelo jesuíta Roque Monteiro Paim e recebeu apoio explícito do Governador-Geral de Pernambuco. Em 13 de março de 1691, uma Carta Régia determinou a subordinação missionária aos jesuítas, reforçada por novas ordens expedidas em 25 de março de 1691 pelo Marquês de Montebelo, recomendando proteção militar à missão da Ibiapaba.
Manuel Pedroso Júnior partiu da Fortaleza rumo à Ibiapaba ainda em 1691, comandando uma bandeira de pacificação. Em 1692, enfrentou a ameaça de invasores paulistas liderados por Francisco Dias de Siqueira, que sondavam as terras da Grande Serra da Ibiapaba. Apesar disso, a catequese foi mantida.
Paralelamente, o padre Ascenço Gago consolidou sua atuação entre 1695 e 1697, fundando a Missão da Bracutiara, às margens do rio Coreaú, após tentativas frustradas em local denominado Igapara (Iapara), onde criara o Curralinho. A Bracutiara tornou-se base econômica e espiritual da nova ofensiva missionária, articulando catequese, criação de gado e aldeamento indígena.
Ascenço Gago percorreu extensas regiões, incluindo Camocim, Timonha, Aracati-Mirim, Reriutaba e os sertões dos Crateús, pacificando povos como Reriús, Timucu, Arapá, Guarará, Anacés e Tabajaras, além de estabelecer alianças com lideranças como D. Jacobo de Sousa e D. Salvador Saraiva. Em 8 de janeiro de 1697, Cartas Régias determinaram a construção do Hospício da Ibiapaba, com recursos da Real Fazenda, marcando o reconhecimento oficial do esforço jesuítico de restauração.
Assim, após décadas de violência, abandono e conflito institucional, o retorno dos jesuítas à Ibiapaba no final do século XVII representou não apenas uma retomada religiosa, mas também uma tentativa de reorganização social e territorial do sertão cearense, ainda que marcada por resistências persistentes e pela fragilidade estrutural da colonização.
*Adaptado de Raimundo Batista Aragão em sua História do Ceará, (Aragão, 1990, p. 194-250).
Referências
Aragão, R. Batista. História do Ceará - Vol. 1 (1500 a 1800). 3 ed. 1990



